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Blog Cavernoso

Revisitando Baldur's Gate


No final de Baldur's Gate, um dos filhos de Bhaal morre.
Um dos filhos de Bhaal é retratado neste "printscreen" tosco que tirei durante uma das "cutscenes" do jogo.

Baldur's Gate (Portão de Baldur) não é apenas o nome de uma importante cidade-estado na Costa da Espada, em Faerûn. É também o nome de uma das mais bem sucedidas franquias de jogos de RPG para computadores (CRPG), desenvolvida pela BioWare (atualmente Beamdog) e disponível nas principais lojas virtuais de games em sua Enhanced Edition (uma edição melhorada).



Tendo adquirido na loja da Steam a Enhanced Edition, recentemente tive a oportunidade de jogar novamente Baldur's Gate e levá-lo até o final pela primeira vez em toda a minha vida. Meu contato inicial com este jogo foi em sua versão retail, ou seja, em mídia física no bom e velho CD-ROM - ou melhor, em três CD-ROMs, se minha memória não me trai - no início dos anos 2000. Os discos originais pertenciam a um amigo que os havia emprestado a mim e eu já não me recordo direito por que não zerei o jogo na ocasião. Talvez fosse porque meu Pentium 133MhZ com 32mb de RAM e placa de vídeo Cirrus Logic de 1gb, rodando o glorioso Windows 98, não proporcionasse a melhor experiência e o game pesasse um pouco, talvez fosse porque na época eu continuava mais interessado em jogar simuladores com o Grand Prix II e F22 Lightning II e seus sucessores.


Qualquer que tenha sido o pretexto, a verdade é que embora adorasse jogar RPG e D&D em particular desde meados dos anos 90, as interações do gênero nos videogames ou no PC nunca me interessaram muito. Eu dizia que não era RPG de verdade, pois o principal, que é o Role-Play (ou seja, a interpretação de papéis) e a imaginação eram simplesmente cortados da experiência. Passados cerca de 20 anos desde esse primeiro contato com o jogo, minhas preferências e gostos mudaram muito e, sobretudo agora em tempos pandêmicos em que nós somos obrigados a ficar em casa, encontrei bastante divertimento ao explorar a cena dos CRPGs do final dos 90 e início dos 2000.


Baldur's Gate não foi o único jogo do estilo a ser revisitado por mim neste período, mas foi a escolha lógica para iniciar a experiência retrô. Não que tenha sido o primeiro clássico adaptado de D&D para os games, porque não foi, mas sim porque antes de qualquer outra coisa, este jogo ajudou a definir o estilo CRPG para os padrões que até hoje temos utilizado com algum sucesso. É claro que em 20 anos a indústria evoluiu demais e hoje é possível descrever mundos lindos, cheios de detalhes e vida em ambientes 100% tridimensionais que podem ser vistos em primeira ou terceira pessoa com câmera praticamente livre (como em Skyrim ou The Witcher 3), mas o estilo de jogo isométrico com cenários pré-renderizados e uso e abuso de sprites talvez fosse a única forma de transmitir ao jogador a imersão no mundo de fantasia na naquela época e o polimento empregado pela equipe de desenvolvimento de Baldur's Gate representou um salto evolutivo tão grande em relação a CRPGs mais antigos, como Pool of Radiance (o original de 1988), Champions of Krynn (1990), Dark Sun: Shattered Lands (1993) e Descent to Undermountain (1998) que fez com que este jogo se tornasse um marco.



Então, comecemos por daí. Os gráficos não são escrotos mesmo para os padrões atuais. Estão datados, sem dúvida, mas transmitem uma boa sensação de qualidade e esmero até os dias atuais e ainda conseguem nos fazer sentir parte das localidades descritas na Costa da Espada. O maior inconveniente são os mapas pequenos demais que requerem constantes trocas de tela, o que reputo ser uma característica necessária na época dadas as limitações de hardware, especialmente de memória RAM, de então. Ao menos em áreas grandes e selvagens, fora dos muros ou dos limites de cidades e masmorras, no entanto, esta característica é mais ou menos justificada por que, de outro modo, seria preciso sujeitar o jogador a longas e demoradas caminhadas entre localidades distantes no mapa. Porém, em áreas enclausuradas ou dentro de cidades, especialmente dentro da própria Baldur's Gate, isto é um inconveniente horrível que tira um pouco o divertimento da exploração destas áreas e dificulta a localização do jogador. Não é nada, porém, que não seja suportável. É só ter um pouco de boa vontade.



CRPGs não precisam estar baseados em RPGs de mesa (TRPGs), mas Baldur's Gate é Forgotten Realms e Forgotten Realms é D&D. Então, a BioWare se esforçou bastante para transportar o sistema de regras de Dungeons and Dragons para dentro do jogo de forma que, a meu sentir, ainda te faz sentir que está jogando D&D (e que pode tirar alguma vantagem de sua experiência com o RPG de verdade), porém sem as complexidades e minúcias do sistema. Até porque, o game original foi lançado em 1998 e, portanto, o que se tinha às mãos na época era a segunda edição (revisada) das regras daquele que então se chamada Advanced Dungeons & Dragons (AD&D). Como o nome já sugere, o AD&D foi concebido para ser mais complexo e completo que o D&D básico e o passar de muitos anos desde seu lançamento até 1998 viu o jogo crescer em número de suplementos e regras que o foram deixando pouco amigável para novatos (uma bobagem que virou verdade e foi repetida anos mais tarde para justificar o fim da segunda edição e sua substituição pela terceira e depois foi repetida novamente para justificar o fim desta para a introdução da quarta).



O inventário e um resumo da ficha do personagem que criei para jogar Baldur's Gate Enhanced Edition depois de tantos anos. Em AD&D quanto mais baixa a CA melhor e você pode ter até classe de armadura negativa (uma das muitas idiossincrasias da segunda edição de AD&D) e o THAC0 é a medida da sua capacidade para atingir seus inimigos
Este outro "printscreen" safado tirado por mim durante o jogo mostra o inventário e um resumo da ficha do personagem que criei para jogar "Baldur's Gate Enhanced Edition" depois de tantos anos. Em AD&D quanto mais baixa a CA melhor e você pode ter até classe de armadura negativa (uma das muitas idiossincrasias da segunda edição) e o THAC0 é a medida da sua capacidade para atingir seus inimigos.

Em poucas palavras, o mínimo que você precisa fazer ao criar um personagem é saber o que você quer da vida com este jogo. Um guerreiro ou ladino? Espadachim ou arqueiro? Um usuário de magia? Se sim, arcano (mago) ou divino (clérigo). Um pouco das duas coisas? Isso pode não ser tão fácil quanto parece porque há diversas classes, algumas opções multiclasses e o jogo não "emburrece" (dumb down) o processo de escolha como Diablo fez na época ao te dar apenas três opções (warrior, rogue ou sorcerer). Não. Em Baldur's Gate as classes tem mais nuances, vantagens e desvantagens para levar em consideração. Até porque, no AD&D, a vida era bem mais dura do que nas edições seguintes do jogo que foram cedendo aos mimos dos jogadores. Então, se prepare, porque se você for jogar como mago, vai ter que se virar com duas magias por dia e 4 pontos de vida. Boa sorte com isso. O jogo se esforça para explicar um pouco de tudo pro jogador, mas especialmente quando as expansões estão instaladas (e a edição Enhanced já vem com algumas) o maior número de opções pode deixar perdido quem não teve contato com a cultura do bom e velho AD&D.


Depois que você cria seu personagem, sua evolução com os pontos de experiência é bastante linear e requer poucas e mais ou menos fáceis escolhas. Não há caminhos de volta, então, começar bem é fundamental (mas vê se não fica "rolando" os atributos do seu personagem por mais do que 10 minutos, tá bom?). No mundão de "aimeudeus" da Costa da Espada você vai poder interagir com uma quantidade obscena de itens do cenário, como baús, estantes, portas, e etc. Tudo feito por meio de simples cliques e, para isso, um personagem ladino é sempre bem vindo para detectar armadilhas e destrancar fechaduras. Baldur's Gate se notabilizou pela fluidez de seu sistema de combate que ocorre em tempo real, numa pancadaria que pode se tornar frenética se houver muitos envolvidos e alguns deles usuários de magias. Aí reside talvez o maior mérito e o maior problema da franquia para mim, pois a BioWare conseguiu esconder quase completamente o sistema de AD&D dos seus olhos. O jogo te diz que estão acontecendo rolamentos para cada ação, mas é tudo tão rápido que você nem sente e, neste ponto, você percebe que é necessário jogar com uma mão no mouse e a outra na barra de espaço para pausar o jogo sucessivamente a fim de que tenha tempo de tomar algumas decisões mais estratégicas. De um modo geral, isso funciona muito bem, embora dificulte o planejamento e o timing de algumas situações (sobretudo para conjuradores de magia). Eu particularmente prefiro um sistema de turnos bem definidos, mas há quem simplesmente ame a forma como as coisas são em Baldur's Gate.



Quando quebra o pau, é difícil manter o controle. A ação ininterrupta (e confusa) te força a pausar o jogo com frequência para botar ordem nas ações dos personagens em Baldur's Gate
Quando quebra o pau, é difícil manter o controle. A ação ininterrupta (e confusa), que você pode ver neste outro "print" que tirei durante o jogo, te força a pausar com frequência para botar ordem nas ações dos personagens.


Temos que falar, por fim, da estória contada pelo jogo. Não me fascinou. Na verdade, me decepcionou, sobretudo nos dois capítulos finais. Vou falar poucos detalhes para não dar spoilers, mas em suma o que me parece é que o jogo tem uma narrativa que, embora esforçada, é fraca e falha em te manter atento à sua missão pessoal. Afinal, existe desde a primeira cena do jogo um grande ponto de interrogação sobre o passado do personagem principal e há eventos importantes ocorrendo na Costa da Espada. Contudo, o jogo se preocupa mais em desenvolver mais estes do que aquele. Quando o jogo vai chegando ao seu final e as respostas sobre o problema pessoal do seu personagem precisam aparecer, o enredo tenta amarrar tudo correndo e as explicações muito rasas diminuem o impacto da "grande reviravolta" que deveria te sacudir na cadeira. Logo, a trama ganha um desfecho pueril e simplório demais - na minha opinião, indigno da grandeza do próprio jogo. Eu fiquei enfadado e louco para terminar logo, pois sentia que o melhor de Baldur's Gate já havia passado e que os capítulos finais eram apenas uma enrolação com uma série de combates difíceis num crescendo pouco inspirado.


Ao contrário do que pode parecer, minhas críticas são bastante pontuais e não jogam sombra sobre este título grandioso e relevante até hoje. Além do mais, ninguém gasta quase uma centena de horas num jogo se ele não for bom o bastante, e todos os mistérios da Costa da Espada merecem se explorados de novo e novo até a exaustão. A maior parte dos NPCs que surgem durante a estória tem personalidades super divertidas e intrigantes, por vezes, gerando side quests bem legais também. E mesmo tendo explorado bem as localidades, sei que ficaram muitas coisas por fazer e tenho um pequeno desejo de jogar tudo de novo do começo só para não cometer alguns erros de escolhas infelizes que fiz.


Ao fim e ao cabo, tive grande satisfação com o jogo. Baldur's Gate Enhanced Edition conseguiu me fazer sentir vontade de jogar AD&D de novo, me fez pesquisar meus livros de Forgotten Realms e eu creio que este é o melhor indicativo da qualidade geral do jogo. Por isso, rola18 no d20 malvadão da Cidadela.

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