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Blog Cavernoso

O Paladino que eu conheci



Ensina a Wikipedia que um paladino é um herói errante e destemido, de caráter inquestionável, que segue sempre o caminho da verdade, da lei e da ordem, que é alguém sempre disposto a ajudar.


Foi a partir de 1975, com o lançamento de Greyhawk (o primeiro suplemento de Dungeons and Dragons, lançado um ano antes) que o paladino se tornou uma classe de personagem (na verdade uma subclasse do homem de armas), retratando exatamente esses valores nobres de propensão para o bem, coragem para enfrentar medos e resistência incansável para lutar contra a injustiça. Até a terceira edição de D&D (2000) o paladino permaneceu como uma classe de heróis abnegados, exclusivamente Leais e Bondosos. Dali pra frente, paladinos passaram a poder encarnar outras tendências, contanto que compatíveis com sua divindade patrona (4ª edição) ou simplesmente seu ideal (5ª edição). Eu nunca gostei dessas definições modernas. Elas esvaziaram o verdadeiro sentido do paladino para transformá-lo em alguém obcecado com ideologias ou missões próprias.


Eu conheci um paladino de verdade alguns anos atrás e ele não era obcecado. Fazer a coisa certa e ser bondoso era apenas algo inerente à sua natureza. Ele era pacífico e ordeiro. Seus cabelos longos e sua vasta barba castanha davam ao seu rosto feições austeras e impassíveis, mas não escondiam o sorriso fácil e o olhar terno. Sua compleição física era a de um guerreiro antigo, mas as lutas que ele travava pouco dependiam disso. Ele sofreu dores que eu nunca conheci e outras que durante muito tempo eu pude apenas imaginar. Ele nunca se queixou delas para mim. Nada obstante, sempre esteve disposto a ouvir a minhas lamúrias.


Eu já chorei com ele algumas vezes. Mas ele nunca havia chorado comigo. Na verdade, só o vi chorar de verdade uma vez. Quando o meu pai morreu ele estava comigo e, desesperado eu o abracei e disse que aquilo doía muito. Chorando, ele me abraçou e disse “eu sei”. Foi então que eu pude ver que havia nele muita dor e sofrimento, que ele tinha lutado muitas batalhas íntimas, cujo fardo ele carregava sozinho e mesmo assim, seguia me ajudando a carregar o meu e o de mais não sei mais quantas pessoas entre amigos, familiares em tantas e tantas outras oportunidades. Esse era o seu destemor, ali residia sua coragem e sua força.


O Paladino era assim.


Em Greyhawk, quando Flanaess foi engolfada pela guerra, Pelor (a deidade do sol, da luz, da força e da cura) ascendeu Mayaheine, uma paladina devota (cujo mote era “Fortitude por dentro, Valor por fora”), para lhe ajudar na luta contra as trevas em outro plano.


Naquele mundo de fantasia, como no nosso, a morte vem de muitas formas que nós não somos capazes de compreender e nem de aceitar. Lá, como cá também, a morte não é o fim, mas sim a continuação de nossa história em outro plano.


Com o Paladino que eu conheci também foi assim.

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