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Blog Cavernoso

A metamorfose e o ano 2020

Atualizado: Jan 28



Quando o ano de 2019 começou havia para este escriba a esperança de ser um ano melhor do que os anteriores, com tantas dificuldades e sofrimentos. Contudo, poucos meses se passaram até que ficasse evidente que não só a esperança era vã, como 2019 acabaria se tornando o pior ano de toda a minha vida. Houve dor como nunca e muitas decepções.

O ano de 2019 mostrou que a vida é um sopro, que em um instante pode estar tudo bem e momentos depois tudo pode mudar sem que você possa fazer nada. Nos esforçamos para exercer controle sobre ela, para evitar desgraças e levá-la do melhor jeito possível. Mas isso tudo é ilusão. A vida nos atropela como um trem e é impossível ficar parado quando você é atingido em cheio.

Nos momentos de dor lancinante recordei desta passagem:

"Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso. Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e, ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta, prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha. Suas numerosas pernas, lastimavelmente finas em comparação com o volume do resto do corpo, tremulavam desamparadas diante dos seus olhos."

O trecho é o introito da célebre obra literária A metamorforse, do autor austríaco Franz Kafka (São Paulo : Companhia das Letras, 1997, p. 7). Ao parágrafo se segue a indagação de Gregor "O que aconteceu comigo?", que o acompanha praticamente durante toda a obra.


Li este livro pela primeira vez quando era ainda adolescente. Ele me fascinou não só pelo estilo de Kafka, de impassível e realista descrição, mas pelos eventos inesperados, cruéis, abjetos e monstruosos da vida de Gregor desde logo a primeira linha. A personagem reluta em aceitar o que lhe acontecera, pois a transformação não fazia sentido: por que virou um inseto monstruoso (mais provavelmente uma barata, pela descrição do autor)? Como desfazer a transformação? Mas não era apenas isso. Gregor era atormentado por outras preocupações também, pois era arrimo de família e, transformado, não poderia ser visto por ninguém - logo, não poderia sair para trabalhar.

Ocorre que o tempo foi passando e Gregor jamais conseguiu encontrar razão no que havia acontecido e tampouco descobriu um meio de reverter sua situação. Apenava-o ouvir a família discutir as finanças combalidas da casa e, parece-me, causou-lhe algum sofrimento, senão espanto, perceber que, diante de sua condição, a família se virou sem ele tão logo isto se fez necessário: o pai falido retomou atividades de trabalho, a mãe dona de casa asmática passou a se virar e a jovem irmã foi à luta.

"Frequentemente passava noites inteiras deitado ali, sem dormir um instante, apenas arranhando o couro durante horas. Ou então não fugia ao grande esforço de empurrar uma cadeira até a janela, para depois rastejar rumo ao peitoril e, escorado na cadeira, inclinar-se sobre a janela - evidentemente em nome de alguma lembrança do sentimento de liberdade que outrora lhe dava olhar pela janela. [...] A atenta irmã precisou ver só duas vezes que a cadeira estava junto à janela para, assim que arrumava o quarto, empurrá-la de novo precisamente para o mesmo lugar; daí por diante deixou aberta até a folha interna da janela." (op. cit., pp. 44 - 45)

O texto está sujeito à diversas interpretações, mas lembro que a minha primeira e mais marcante sensação foi a de que Greta (a irmã de Gregor) abriu aquela janela para que Gregor pudesse sair, se quisesse. Há algumas passagens que descrevem como o protagonista sofria para se locomover em seu quarto humano e que seu corpo monstruoso doía muito sem poder plenamente se esticar. Esta situação melhorou quando a mãe e a irmã esvaziaram o quarto, mas nunca deixei de pensar que o ponto de inflexão na história de Gregor foi ter permanecido em seu quarto mesmo quando a janela lhe foi aberta. A interpretação que fiz é de apesar de sentir muita vontade de sentir a liberdade de novo, a saudade do passado prendeu Gregor à uma melancolia perene que o impedia de viver plenamente.

"Recordava-se da família com emoção e amor. Sua opinião de que precisava desaparecer era, se possível, ainda mais decidida que a da irmã. Permaneceu nesse estado de meditação vazia e pacífica até que o relógio da torre bateu a terceira hora da manhã. Ele ainda vivenciou o início do clarear geral do dia lá do lado de fora da janela. Depois, sem intervenção da sua vontade, a cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco o último fôlego." (op cit., p 78)

Não creio que Kafka almejasse dar qualquer lição ou imprimir uma moral em sua obra. Não me parece que seja esse seu estilo. Nada obstante, não me furtei em buscar eu mesmo um sentido para aquilo que havia acabado de ler, pois foi grande o impacto que A metamorfose causou em mim. Recordo-me um pouco das preocupações que me afligiam naquela época, de ter conversado sobre o livro com meu pai e ter compartilhado com ele uma síntese moral que fiz daquela história absurda: se a vida te transformou numa barata, você pode lutar para voltar a ser gente ou viver como uma barata feliz.


Podem não parecer proposições antagônicas, mas no contexto da obra assim me pareceram. Isto porque a transformação em inseto monstruoso pode ser interpretada como uma mudança inexorável no curso da vida. Um acidente, uma doença, uma traição, uma demissão, ou a morte de alguém querido. Exerce-se pouca ou nenhuma vontade sobre esses eventos que podem acontecer (e alguns deles muito provavelmente irão acontecer) em algum momento na vida de todos. Diante de circunstâncias abruptas e incontroláveis tendemos a olhar para o passado com a mesma emoção de Gregor e, como sua mãe e irmã, tentamos nos agarrar a qualquer fio de esperança louca de que as coisas poderão voltar a ser como antes. Especialmente no caso da morte, nada há que possamos fazer para revertê-la e nossa disposição de vontade é tão inútil quanto para evitá-la quando é chegada.


Em 2019 fui transformado em uma barata gigante e passados alguns meses desta transformação, tomado por emoções semelhantes às de Gregor Samsa, vi diante de mim o mesmo dilema do personagem. Optei pelo desbravamento de um mundo novo sob a ótica de um inseto monstruoso, metaforicamente falando (tenho que sublinhar isso, pois há analfabetos funcionais com acesso à internet), ou seja, optei por não esperar que a morte me alcance um dia sem que eu tenha lutado concretamente por aquilo que se chama felicidade. Poderia ficar a fazer as mesmas coisas de antes, levando a mesma vida velha de antes, apenas nutrindo a saudade e lembrando da família com amor. Ainda há melancolia nisso tudo, mas eu quis fazer algo - não ficar passivamente aguardando uma solução que provavelmente nunca virá, mas sair a campo em busca dela.


Foi com este espírito que olhei para a Cidadela e projetei o ano de 2020. Ela surgiu em 2007 como um blogue para agregar o meu grupo de jogadores de RPG, reunir as aventuras narradas e manter nossa "campanha" organizada e em dia - alguns amigos daqueles tempos se foram para sempre, um tragado pela morte outro(s) pela ignomínia. Quando, em 2015, renovei o site, passei a agregar notícias de interesse e investi mais tempo em transformar os resumos das aventuras (os diários de campanha) em narrativas mais atraentes para o público leitor. No ano seguinte abri uma página do facebook para lenta e organicamente divulgar este modesto espaço e recentemente criei um perfil no twitter e no instagram. Estes foram esforços pequenos e pontuais, pois a Cidadela era uma atividade apenas lateral e complementar. Enquanto isso, aquilo que priorizava na minha vida só me causava frustração, angústia e decepção.


Não fui transformado em barata por causa disso, mas a transformação certamente foi o combustível necessário para deixar de apenas olhar pela janela contemplando a felicidade e decidir sair por ela para me dar uma chance concreta de alcançá-la. Assim, em 2020 a Cidadela passará a ser central e principal na minha vida. O primeiro (e mais grandioso) passo neste sentido será a inauguração da loja física da Cidadela. Além disso, site e redes sociais ficarão mais movimentadas também. Por isso, sugiro que se inscreva nestes canais, pois lá serão divulgadas todas as novidades do novo projeto!

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