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Foto: a Cidadela

Dan Price é um empreendedor americano, que estudou na Seattle Pacific University, enquanto fundava com seu irmão Lucas a Gravity Payments. Essa empresa processa transações financeiras realizadas com cartões de crédito majoritariamente para pequenas e médias empresas, tendo se tornado a maior do segmento no seu estado natal, Washington (não confundir com a capital dos EUA, Washington DC)¹. De acordo com o The New York Times,  a empresa processou 3,4 bilhões de dólares em pagamentos em 2014 e US$ 10,2 bilhões em 2018.² 

Foi o CEO desta companhia, portanto, que recentemente fez uma série de tweets a respeito de aspectos financeiros e econômicos da pandemia que me chamaram a atenção:


Livremente traduzindo e em apertada síntese, Price está destacando que os lucros das maiores companhias varejistas dos Estados Unidos (Amazon, Walmart, Target, Lowe's) aumentaram exponencialmente durante a pandemia e que companhias de tecnologia como  Microsoft, Google, Apple, Facebook estão experimentando altas recordes no mercado de valores mobiliários. Por outro lado, pequenas empresas estão encarando a maior queda de receitas de todos os tempos. 

Não é de se esperar que a situação brasileira discrepe muito dos americanos, isto porque, em que pese a retração econômica dos Estados Unidos seja maior tanto em números absolutos como relativos (a proporção da queda do GPD americano é maior que a queda do PIB brasileiro)³, como a nossa economia nunca foi grande e ainda por cima andava combalida há alguns anos (desde pelo menos 2015) é natural que os números americanos sejam mais impressionantes. Afinal, como diz o ditado, quanto maior o gigante, maior a queda. Porém, isto não significa que aquele país estará numa realidade percebida pior que a do Brasil. Pelo contrário, ainda que sua economia retraia muito, os Estados Unidos ainda estarão décadas à frente do Brasil. Logo, embora os números americanos possam até ser mais assustadores que os nossos, isso não significa que estamos melhores em relação à crise global causada pela pandemia da COVID-19. Pelo contrário, pois estamos sofrendo os mesmos fenômenos econômicos negativos e nossa capacidade de reação é muito, muito inferior.

Com efeito, os jornais noticiam que também no Brasil a maiores redes varejistas tem experimentado aumento impressionante de receitas ou alta valorização de suas ações na bolsa. O Estadão noticiou em 21 de junho deste ano no caderno "Economia & Negócios" que a B2W Digital (que possui em seu portfolio  empresas como Americanas Empresas, Americanas.com, Submarino, Shoptime, Submarino Finance e Sou Barato)⁴ viu seu valor de mercado aumentar 89% entre dezembro de 2019 e julho de 2020 e a Magazine Luiza valorizou 60% no mesmo período⁵. Já o G1 noticiou em 13/08/2020 que a Via Varejo (Casas Bahia, Ponto Frio e Grupo Pão de Açúcar) reverteu os prejuízos que vinha acumulando e lucrou 65 milhões de Reais no segundo trimestre deste ano.⁶

Isso é ótimo. Não há nada errado ou inerentemente mau no aumento das receitas ou do valor de mercado destas companhias ou das empresas americanas citadas antes. São empresas que, em regra, prestam um bom serviço, empregam milhares de funcionários e, em última análise, estão atendendo uma demanda que elas (e somente elas) têm condições de atender em tempos de confinamento.

Porém, em contrapartida, os pequenos empreendedores, que Dan Price chamou de "Mom & Pops" (expressão que define pequenos negócios, comércios de família ou lojas independentes) estão amargando enormes prejuízos, com o desaparecimento de clientes e consequente retração de receitas. Este fenômeno foi constatado também no Brasil em pesquisa conduzida pelo Sebrae, em que se observou que apenas 2,4% das empresas teve aumento de receitas neste período, enquanto 87,5% tiveram redução no faturamento mensal. Ainda de acordo com a pesquisa, a queda do faturamento foi, em média, de 75%.⁷ Nas palavras do CEO da Gravity Payments, estamos assistindo à uma grande transferência de riqueza dos pequenos negócios para os grandes conglomerados. 

Não sei calcular quais as consequências práticas que isso pode causar no futuro, mas podemos supor que se o fluxo das riquezas continuar correndo na direção das grandes empresas em detrimento dos pequenos negócios, estes serão levados ao endividamento e posteriormente à falência rapidamente, pois via de regra não dispõem de caixa, e também não contam com linhas de crédito (88,7% dos empresários que solicitaram empréstimos não obtiveram resposta ou tiveram resposta negativa, de acordo com a supracitada pesquisa do Sebrae). Isto significará o aumento do desemprego e todas as consequências negativas que isso traz. 

Ninguém está livre de sofrer com isso. Se você, p. ex., trabalha em uma empresa de tecnologia de pequeno ou médio porte que provê soluções de automação comercial e está trabalhando em home-office pode se sentir seguro em seu emprego, mas sua companhia perderá receitas quando os comércios atendidos por ela deixarem de pagar suas faturas ou de solicitar seus serviços. Igualmente, p. ex., se você é funcionário público do Estado e goza das justas e legítimas prerrogativas do estatuto da sua categoria, poderá sofrer atrasos ou até uma verdadeira moratória do seu salário quando o ente federativo que o remunera perceber que houve queda na arrecadação de receitas correntes em virtude da estagnação econômica. Ou talvez você esteja com "sorte" e nunca seja atingido diretamente mesmo, mas pode ter a dor de ver um amigo ou familiar sofrendo. 

Neste sentido, em que pese uns estejam mais próximos da beira do precipício do que outros, a verdade é que todos de algum modo cairemos dentro dele e, como diz aquele jornalista, empresas pioram até fechar, mas países não fecham as portas e podem piorar indefinidamente se nada for feito. Em outras palavras, o buraco em que cairemos não terá limites. É um verdadeiro poço sem fundo. 

A solução ideal seria retomar a dita "normalidade", mas isso não tem data para acontecer - não no futuro próximo. Cabe, então, a cada um de nós dar o suporte possível para os pequenos comércios das nossas cidades e bairros. Assim como fizemos um esforço para achatar a curva e salvar a vida de milhares de pessoas, temos que fazer outro esforço concomitante para ajudar pequenos negócios e, derradeiramente, salvar as vidas de todas as pessoas que dependem deles direta ou indiretamente.

P. ex., se você pode comprar um computador com a lojinha de informática do seu bairro, faça isso em detrimento daquela oferta tentadora de uma grande empresa de e-commerce, pois a pequena empresa precisa mais do seu dinheiro e fará girar a sua economia local. É claro que a grande varejista da internet vai lhe oferecer descontos e talvez até um frete grátis, mas o seu dinheiro estará sendo levado para bem longe ao invés de ser injetado na economia do lugar onde você vive!

Grande redes varejistas também não darão acolhida às maritacas do bairro,
coisa que a Cidadela soube fazer quando recebeu a visita inesperada delas! :D
Foto: a Cidadela

Igualmente, quando for comprar novos board games, livros de RPG, decks e booster packs de Magic, Yu-Gi-Oh e outros produtos nerd e geek, dê preferência para o seu comércio local. Especialmente, se você está na Serra Carioca, em Nova Friburgo e região, dê preferência à Cidadela

Grandes varejistas não irão construir um ambiente familiar para fomentar o seu hobby favorito praticamente no quintal da sua casa, nem irão servir a sua comunidade de amigos e colegas com a nossa paixão e alegria. 

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¹ https://en.wikipedia.org/wiki/Dan_Price, acessado em 30/08/2020.

² https://www.nytimes.com/2019/03/30/opinion/sunday/dan-price-minimum-wage.html, acessado em 30/08/2020;

³ https://en.wikipedia.org/wiki/COVID-19_recession#United_States, acessado em 30/08/2020.

⁴ https://pt.wikipedia.org/wiki/B2W_Digital

⁵ https://www.estadao.com.br/infograficos/economia,as-dez-empresas-que-mais-ganharam-valor-de-mercado-durante-a-pandemia,1102899, acessado em 30/08/2020.

⁶ https://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/2020/08/13/via-varejo-reverte-prejuizo-e-tem-lucro-de-r-65-milhoes-no-2o-trimestre.ghtml

⁷ https://datasebrae.com.br/wp-content/uploads/2020/04/Impacto-do-coronav%C3%ADrus-nas-MPE-2%C2%AAedicao_geral-v4-1.pdf