Não há mal que dure para sempre

Foto: a Cidadela


Vinte e cinco de junho de dois mil e vinte. O relógio digital do computador revela que faltam quinze minutos para as duas horas da manhã da quinta-feira fria e silenciosa que se inicia. Hoje, completam-se cento e sessenta dias desde que inauguramos "a Cidadela". Esta loja não é apenas um comércio, cuja ideia abstrata desperta pouca empatia no seu imaginário. A "a Cidadela" é um projeto de vida, é a melhor limonada que foi possível fazer de um longo inverno de decepções e tristeza.¹ Hoje, completam-se cento e sessenta dias desde que esse sonho começou, mas noventa e oito desses dias (ou seja, mais de 60% do total) se deu de portas fechadas por "recomendação" dos governos municipal e estadual. 

É que, de repente, uma sombra estranha e disforme decidiu pairar sobre a Terra, colocando a humanidade inteira de joelhos com medo da morte. Infelizmente, apesar de todo acesso a informação e desenvolvimento tecnológico, nada nos preparou para lidar com a crise sanitária internacional provocada pelo alastramento rápido do SARS-CoV-2, popularmente chamado de coronavírus. 

Tem sido perturbador observar estes tempos estranhos. Os conhecimentos humanos na história, filosofia e religião, revelam a obviedade de que desde sempre a humanidade é oprimida por algum tipo de mal. Quando John Ronald Reuel Tolkien escreveu suas obras-primas, O Hobbit e O Senhor dos Anéis, soube imbuir nelas uma parte importante de uma visão de mundo marcada pelos anos que viveu sob a opressão da Primeira Guerra Mundial. Tolkien se formou em Literatura em Língua Inglesa e a seguir se casou somente para, logo em seguida, ser convocado para servir no exército do Império Britânico. Uma vez na guerra, Tolkien. p. ex., sobreviveu à famosa Batalha do Somme.² Para que se tenha uma ideia, somente no primeiro dia desta batalha morreram cinquenta e sete mil britânicos. A ofensiva durou ao todo cento e quarenta dias, somando quase um milhão de mortos ou feridos.³ Como se não fosse o bastante sobreviver a tamanha desgraça, o autor de O Senhor dos Anéis ainda contraiu tifo (uma doença para a qual até hoje não há vacina, geralmente transmitida por ácaros, pulgas e piolhos, que causa febre, erupções cutâneas e dores de cabeça), somente então sendo dispensado para retornar à Inglaterra.⁴

Fico a imaginar a cabeça deste homem: os horrores que presenciou, a angústia de ver-se tão jovem e cheio de vida atirado contra sua vontade num mar pestilento de lama e sangue de onde somente por sorte sairia. Consigo ter apenas uma vaga ideia do desamparo de quem, recém-casado, viu-se apartado do lar de amor e aconchego para dançar com a morte em batalhas infames arquitetadas por reis, arquiduques e outros lordes que de suas varandas palacianas projetavam suas ideias de mundo como verdades inexoráveis a serem impostas sobre todos os povos do mundo. Sobretudo, consigo divisar o medo que Tolkien deve ter sentido. 

De que modo superar estes sentimentos ruins? Como desdobrar os joelhos, se levantar e lutar quando o mundo parece petrificado sob uma ameaça tão amedrontadora? 

Pois eu mesmo tenho medo - por mim e por minha família e por todas as demais pessoas que amo fraternalmente, como irmãos em Cristo e que não gostaria que sofressem. Mas o que fazer, então? Não se está diante de uma horda de soldados inimigos, visíveis e distinguíveis por seus uniformes e bandeiras, que disparam a morte certa da ponta de seus fuzis. Logo, não somos convocados formalmente, mas somos deixados para travar nossas próprias lutas pessoais no campo de batalha do nosso cotidiano.

Neste momento, então, foi que me recordei de Tolkien novamente e de sua lição de resiliência e aceitação que colocou nas palavras de Gandalf, quando este conversa com Frodo Bolseiro ainda no condado. Naquela oportunidade, o velho mago explica a Frodo sobre Sauron, o Senhor da Escuridão.  A ameaça dele representava inicialmente um mal sorrateiro e esguio, já que buscava o anel em segredo e em segredo o Um Anel deveria ser deslocado para Valfenda, mas Gandalf tinha clareza suficiente para saber que eventualmente eclodiria uma guerra que engolfaria todos os povos da Terra-Média. Sobre os subterfúgios de Sauron, ele diz ainda que a sua Sombra, sempre depois de uma derrota, toma outra forma e cresce novamente. Então, o pequeno hobbit diz:
"- Gostaria que isso não tivesse acontecido na minha época."⁵
Mas Gandalf, mesmo tendo perfeita ideia do enorme perigo do inimigo, responde sabiamente:
"- Eu também [...] Como todos os que vivem nestes tempos. Mas a decisão não é nossa. Tudo o que temos que decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado."⁶
Não sou um analista de textos, muito menos ainda especializado nos textos de Tolkien, mas a meu sentir o modo como Frodo se expressa parece traduzir o sentimento de todo aquele que se vê tragado do seu conforto por circunstâncias inevitáveis. Nesta pandemia, sentimo-nos como ele, irresignados com a opressão da sombra que se abate sobre a humanidade. Assim como o sobrinho de Bilbo, tendemos a apontar o dedo para os outros, numa tentativa frívola de transferir a responsabilidade de dar solução ao problema, a qual é inteiramente nossa.
- Muito pior do que o pior que eu havia imaginado a partir de sua insinuações e advertências. Ó Gandalf, meu melhor amigo, que devo fazer? Pois agora estou realmente com medo. Que devo fazer? É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil, quando teve a chance!⁷
Do mesmo modo como, diante do medo, olhou para trás para encontrar em Bilbo a razão de sua desgraça (ter de lidar com o mal representado pelo Um Anel), Frodo logo a seguir direcionou sua irresignação para os elfos e o próprio Gandalf ao afirmar que a criatura Gollum merecia morrer, ao que o mago ainda lhe respondeu:
- Merece! Ouso dizer que sim. Muitos que vivem merecem a morte. E alguns do que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados."⁸ 
Ora, assim como coube a Frodo carregar o Um Anel até a Montanha da Perdição, lidar com o coronavírus é um fardo nosso. Não podemos simplesmente nos livrar dele, jogá-lo sobre os ombros de outras pessoas iguais a nós ou de autoridades as quais, especialmente no Brasil, mostram-se incapazes de ofertar solução ou um mínimo de proteção social. 

Fustigados por uma sombra terrível, nos cabe apenas decidir o que fazer com o tempo que nos é dado. Enquanto foi recomendado travar esta batalha no isolamento de nossas casas, fizemo-lo. Este foi o nosso inverno, mas nem mesmo a mais prudente das formigas ajunta provisões para tanto tempo de reclusão e agora exige-se que outra batalha seja travada, que é a gradual retomada das atividades industriais e comerciais.

Neste momento, lembre-se das lições de Gandalf e não se apresse em julgar e condenar aqueles que estão a retornar, nem aqueles que estão saindo de suas casas seja pelo motivo que for. Cada um de nós deve fazer com o seu tempo o que de melhor puder fazer e não se deve subestimar a importância das pequenas ações de cada um na mola que move a nossa civilização no mundo. A este respeito, aliás, sugere-se que se assista ao didático filmete "Eu, Lápis":



Pode ser um lápis ou a seringa que amanhã irá servir para inocular a vacina que nos livrará definitivamente da sombra do coronavírus. Mesmo as pequenas ações de cada um de nós contribuem, ainda que involuntariamente, para o nosso avanço como sociedade. O preço que você paga pelo sanduíche da carrocinha, o cafezinho no botequim, o pãozinho da padaria, a ração do seu animal de estimação, as roupas íntimas que você veste, a auto-peça que repara seu veículo, em suma, tudo em que você gasta um pedacinho do seu dinheiro ajuda a remunerar o trabalho de outra pessoa, movimentando uma mola que, antes de tudo, mantém viva a chama da esperança de milhões de famílias, especialmente em pequenos negócios familiares. 

Não é diferente com "a Cidadela". 

Assim, quando reabrirmos esperamos contar com cada um dos nossos amigos e clientes nerds, recebendo-os no mesmo ambiente familiar e aconchegante de antes, agora ainda mais adaptado com medidas de precaução. 

Enfrentaremos juntos essa sombra, com responsabilidade e coragem, pois não há mal que dure para sempre!
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¹ Leia o texto A Metamorfose e o ano 2020, que publicamos aqui.
² Wikipedia, em https://pt.wikipedia.org/wiki/J._R._R._Tolkien, acessado em 25/06/2020.
³ Wikipedia, em https://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_do_Somme, acessado em 25/06/2020.
⁴ Wikipedia, em https://pt.wikipedia.org/wiki/Tifo, acessado em 25/06/2020.
⁵ TOLKIEN, J. R. R. O senhor dos aneis : primeira parte : a sociedade do anel ; tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves, Almiro Pisetta ; revisão técnica e consultoria Ronald Eduard Kyrmse ; coordenação Luís Carlos Borges. - 2ª ed. - São Paulo : Martins Fontes, 2000, p. 52.
⁶ TOLKIEN, Op. Cit., p. 53.
⁷ TOLKIEN, Op. Cit., p. 61.
Idem.