Labirinto Verde - 3º Ato

As cidades medievais típicas não têm nada a ver com Edhellond, que transpira a pureza de intenções dos elfos. Imagem: Michel Wolgemut, Wilhelm Pleydenwurff (Hartmann Schedel, editor) [Public domain] em https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nuremberg_chronicles_f_243v_f_Basilea.jpg


Andam pelas ruas de Edhellond e percebem que se trata de uma cidade muito antiga, que atravessou incontáveis anos; eras bem marcadas pelos diversos estilos arquitetônicos da sociedade élfica – desde as pitorescas casas de madeira, cipós e folhas até as sofisticadas construções de lajotas polidas e vitrais coloridos. A cidade está claramente dividida em distritos (ou em alas, como se referem os próprios elfos) e há muito na organização urbana que assemelha esta vila de uma cidade humana qualquer. Porém, não se percebe com clareza uma separação entre ricos e pobres, nobres abastados e servos. Tampouco se veem grandes fazendas e plantações para servir ao mercado comum. Antes, cada pequena casa possui uma horta para consumo de seus moradores e o excedente é trocado em feiras que se realizam ao ar livre nas muitas praças da cidade.

A estrada de terra, tortuosa, margeia o rio até se encontrar com os Dentes de Oyt (como são chamadas as duas torres magníficas que guardam a entrada da cidade. Ali, na baixa Edhellond, veem com pouco  interesse o movimento. Sobem uma longa e sinuosa escadaria que serpenteia pelo acentuado aclive entrecortado pelo curso d'água que forma a primeira cascata. Chegam, então, ao coração da cidade, onde se situam quase todas as casas dos seus habitantes, exceto pela nobreza, que parece viver no palácio distante, ao norte, que se ergue no ponto mais alto e mais exótico daquele lugar - uma ilha isolada no meio do Rio Oyt, aos pés da segunda e mais larga cascata.

Logo os aventureiros descobririam que suas moedas de ouro pouco ou nada valiam; que não se pratica ali o comércio tal como nos reinos humanos, exceto pela ala dos estrangeiros – um pequeno bairro de Edhellond, onde os aventureiros encontram alguns pequeninos e humanos misturados a meio-elfos e altos-elfos de terras mais distantes, todos considerados estrangeiros, portanto, para os elevados padrões da cidade. A pequena feira que estes estrangeiros organizaram parece ser um dos poucos locais onde as moedas dos aventureiros têm verdadeiro valor.

Além do mercado, outro local que desperta o interesse dos aventureiros é uma hospedaria chamada nen iniðil, que na língua comum dos homens se chama “lírio das águas”. Trata-se de uma linda construção do período que os elfos chamam de Hríw, que é o seu inverno – um tempo de grandes perseguições e batalhas contra odiosos e malignos algozes que fustigaram o povo e os dispersou no mundo enfraquecendo seu poder. A casa já contém as formas angulosas vistas em Preston e nota-se a utilização de lajotas de ardósia no telhado íngreme embora a sua estrutura não seja de alvenaria, mas sim de madeira cuidadosamente torneada e esculpida com muitos contornos delicados que imitam árvores e projetam sombras impressionantes.

O estalajadeiro se chama Urúmil, um sujeito afável que logo que percebe a presença dos aventureiros, se junta a eles para contar estórias e saber do mundo "lá fora". Entre outras coisas, ele conta que a hospedaria detém esse nome por tradição, pois muito antes das guerras era comum que alguns estrangeiros passassem por Edhellond em peregrinação por locais sagrados para a Antiga Fé, sobretudo pela Garganta de Beory (um fosso escuro no rio Oyt). Mas, como o nome já sugere, a Fé é Antiga, já quase morreu e ninguém mais peregrina por essas terras. O grupo sente-se a vontade, e engaja numa longa conversa com aquele alto-elfo, percebendo desde logo que, em que pese inexistam classes econômicas distinguíveis em Edhellond, parece haver uma clara separação entre os altos-elfos e os elfos-cinzentos, que governam o local e forma sua elite intelectual e sacerdotal.

Urúmil era muito afável e atencioso. Parecia estar especialmente feliz pela presença dos aventureiros, já que Edhellond não é uma cidade cosmopolita e mal recebe estrangeiros. Os aventureiros se sentiram a vontade para usufruir da boa vontade do anfitrião e lhe dirigiram muitas perguntas. Foi assim que souberam que os sábios anciãos de Edhellond não suportam as práticas mercantis, por considerarem-na baseada na ganância e torpeza humana.

- Porém, vimos que há uma feira na cidade - comentou Gato Preto.

- A feira tem sido tolerada apenas porque mesmo o mais cético dos elfos cinzentos reconhece a necessidade de interlocução diplomática com os homens, que só entendem a linguagem do dinheiro e de seus interesses gananciosos imediatos. Assim, o Senhor Elbor Argonion instituiu uma contribuição social voluntária, onde trinta por cento de tudo o que é vendido no mercado é arrecadado como “banalidade”. Destes, dizem que se separa cerca de metade de presente para os Duques Geoffitas.

- Ora! Então os elfos de Edhellond são vassalos de Geoff? - Gato Preto demonstrava interesse, enquanto Eldrin e Bruenor falavam de amenidades e Einar olhava ao seu redor com um medo difuso.

- Creio que Elbor tema que um dia os homens resolvam marchar sobre suas terras e, conquanto não deseje tonar-se um vassalo, também não lhes quer atrair os olhos gananciosos – resmungou o estalajadeiro.

Bartolomeu percebeu que o assunto de algum modo incomodou o elfo, então, cutucou Gato Preto discretamente e lançou um olhar que imediatamente foi compreendido pelo ladino, que resolveu mudar de assunto e aproveitar para conseguir uma informação útil:

- Você saberia onde fica a casa de Herundil? - perguntou Gato Preto.

- Claro, ele é filho de Nólamir, o maior ferreiro de Edhellond, senão o único - sorriu o estalajadeiro, dando as direções.

Neste momento, uma jovem se aproxima trazendo peixe assado, sulca (raízes) e uma entrada de culuma (um doce de laranja com gomos). Os aventureiros, sobretudo Bruenor, olharam com curiosidade e pouco apetite para a comida, que tinha uma aparência horrível. O humor melhorou com ela serviu também miruvórë (hidromel élfico fermentado na própria vila).

- Esta é Kira. Ela me ajuda a cuidar da taverna e servir bem meus clientes. Mas suponho que hoje ela esteja sonolenta, pois demorou a vos servir.

- Não a repreenda, Úrumil, pois demoramos a decidir o que pedir em face de tantas "suculentas" opções - Eldrin ponderou - O que há de interesse e curioso para se fazer nesta cidade?

- Não muito, na verdade, pois é um local pacato e ordeiro. Além da Garganta de Beory, diria que há poucos pontos de interesse. Mas os senhores podem se interessar pelos jardins da cidade, que além de belos, possuem uma vasta história, só se mantenham distantes do Labirinto Verde de Aendír, pois o lugar é considerado assombrado por espíritos antigos e vingativos invocados por aquele que um dia se chamou Aendír.

- Este hidromel parece muito fraco!!! - berrou Bruenor, afetando irritação (pois, na verdade, sentia orgulho de sua resiliência ao álcool e não cansava de se gabar disso) e já levemente embriagado.

Bartolomeu deu uma risada contida, esperando para ver o que as próximas canecas poderiam fazer ao anão.

- Pois você deveria beber mais, então - falou Gato Preto, percebendo a ironia no olhar do colega astrólogo.

Úrumil, porém advertiu contra, alegando que, embora pouco encorpada, a bebida era muito alcoólica mesmo para um anão. Bruenor riu e seguiu-se uma longa conversa sobre como os anões são beberrões e incapazes de se abalarem com a água batizada dos elfos.

A noite prometia ser longa, mas Gato Preto e Bartolomeu decidiram que não iriam esperar pelo próximo raiar do sol para fazer uma visitinha a Herundil e seu pai.