Labirinto Verde - 2º Ato


Seguem Einar, que sente a brisa outrora mansa dos bosques tornando-se mais gelada e veloz. O tempo continuava nublado, mas agora as nuvens que pela manhã eram esparsas e davam a impressão de irem embora, estão se amontoando novamente, cobrindo Flanaess com cinza escuro. A sensação que têm é que não progrediram muito hoje, quando a claridade lentamente vai dando lugar à escuridão e os arbustos e galhos retorcidos das árvores se confundem com a silhueta de ferozes monstros desconhecidos. Montam um improvisado acampamento, evitam acender fogueira e se preparam para despertar pela primeira hora da manhã.

- Acordem seus preguiçosos! Perdemos a hora! Já está tarde! – gritava Bruenor. Venta forte e Gato Preto despertou com um estranho aperto no peito e uma desconfiança sinistra sobre o pesado sono que lhe acometeu. Einar acordou com as primeiras gotas espessas da chuva que avizinha. Bartolomeu e Eldrin, na verdade, já estavam acordados e o anão não percebeu. Em sua meditação, porém, pareciam flutuar em um local estranho, de ar viscoso e morno, onde cores psicodélicas pintavam o céu e uma harpa tocava ao fundo uma monótona melodia. Podiam até mesmo verem e interagirem neste cenário, como se estivessem compartilhando um sonho único e estranho. Isso os distraiu porque poderia ser (e talvez, de fato, seja) um sinal de que estão finalmente em território faérico.

Finalmente recolhem seus pertences e retomam a caminhada. Mas a chuva os alcançou antes que chegassem ao seu destino. É uma chuva de pingos grossos e intensos, mas não há trovões, só o som da água batendo contra as árvores e o chão. Suas botas encharcam e sua roupa logo fica pesada.

Uma chuva de monção? Tão incomum isso aqui. Pensou Einar, lembrando-se que Martin lhe contou de estórias de aventureiros que vasculhavam as selvas ao sul de Flanaess em busca de civilizações perdidas e tesouros fantásticos. Lá, sim, essas chuvas intensas e pesadas eram comuns, especialmente no verão. Mas em Geoff? Onde o clima é temperado? Podia acontecer, mas não era exatamente comum.

Enfim, encontram uma trilha aberta na vegetação rasteira, bem demarcada. O rastreador sente uma incômoda sensação de sufocamento e percebe como seu corpo está quente e coberto de suor, não obstante a temperatura amena e o ritmo de caminhada apenas moderado. O caminho inexoravelmente leva até Edhellond, que não está distante. Disso ele sabe. Mas Einar ainda não tem certeza se chegar até lá será algo bom ou mau.

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A trilha se encontra com um rio manso e cristalino que corre sobre um leito rochoso. O rio não pode ser transposto a pé, pois parece ser bem fundo. Bruenor se aproxima e enche o seu cantil mais uma vez.

- A água aqui é gelada e fresca como as águas que descem de uma montanha numa manhã fria de outono.

Este deve ser o Rio Oyt, pensou Einar. Edhellond deve estar logo à frente.

Com efeito, não demora até que cheguem à cidade. E ela não é como nada que já tenham visto antes. A vila élfica está harmoniosamente assentada sobre três platôs bem definidos separados por grandes falésias de granito cinza. O Rio Oyt corta a cidade ao meio, formando duas majestosas cachoeiras que dispersam sobre toda a região uma perpétua camada de finas gotículas de água. Os bosques se mesclam com a vila de modo inacreditavelmente delicado. Algumas construções élficas até foram montadas sobre árvores, mas a maioria na verdade foram erguidas do chão como se fossem torres de madeira, bambu retorcido gentilmente.  

- Chegamos, meus caros. Mas eu não sei se é uma boa ideia entrar na cidade - falou Einar.

- Como não seria uma boa ideia? Viemos para cá a toa? - retrucou Bruenor, que andava distraído.

- Refiro-me a mim mesmo. Acho que não é uma boa ideia que "eu" entre na cidade.

- Bobagem, Einar. Você acha mesmo que sua cabeça está a prêmio por aqui? Aposto que ninguém sabe quem você é, exceto talvez o ex da sua mulher. Mas ele deve estar enfurnado em um palácio e não faz a menor ideia de que você teria a ousadia de estar tão perto dele. Se quer saber, acho mesmo que você estará mais seguro dentro da cidade do que fora dela - disse Gato Preto embora não se pudesse divisar muros a separar o lado de dentro do lado de fora.

- Ele tem razão, Einar - intrometeu-se Eldrin - Além do que, você pode por precaução adotar um nome falso e com um truque simples podemos alterar levemente sua aparência se for necessário.

- Está decidido, então. Einar entra conosco - sentenciou Bartolomeu.

Einar estava preocupado nada obstante os esforços de seus companheiros para convencê-lo da sensatez de entrar em Edhellond. Algo como um sino ressoava em sua mente tal qual o alerta para um perigo iminente. O jovem rastreador lutava contra tais pensamentos, refutando-os com palavras de incentivo e até mesmo fé, mas era assaltado de novo e novo pelas mesmas ideias catastróficas. Seu corpo enrijecia a cada nova visão do cárcere que sua mente projetava e a perspectiva de não estar livre para salvar seu filho Edwin e sua mulher Ellin sufocavam sua respiração e o fazia transpirar. Seguia os companheiros por impulso, sentindo que estaria mais seguro em grupo do que sozinho nos bosques. Que estranha sensação. Logo eu, que sempre amei as matas e aprendi tudo sobre elas com Martin. Por que agora sinto que caminho voluntariamente para o matadouro?


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