Labirinto Verde - 1º Ato

A morte de Eirol ainda pesava sobre a cabeça dos companheiros de aventura. O grupo se preparava para lidar com a prisioneira drow, mas a imagem da ríspida morte do rapaz estava tatuada na mente de todos.

Afastaram-se um pouco mais do estranho deserto onde os corpos dos gigantes mortos começavam a atrair abutres e outros seres carniceiros.

Bartolomeu carregava consigo o corpo do acólito de Trithereon, pensando na conversa que teve com Bruenor instantes atrás. O anão falava de compaixão e misericórdia como antônimos de rigor e vingança, mas o astrólogo se perguntava meio pesaroso se esse seria mesmo o caso. "Talvez a antítese da desforra seja o perdão, que pode  não se confundir com misericórdia". Bartolomeu refletia sobre o ethos da deidade e suas implicações práticas, tentando racionalizar a morte do rapaz. Recordou-se brevemente de como o salvou do covil das bruxas, de seu inicial desejo de voltar à fazenda da família e sua posterior resolução por enfrentar Lidna e vingar o povo de Preston. Eirol certamente havia sido cativado por ensinamentos religiosos sobre o deus da retribuição quando mais jovem e isso despertou diante do terrível cenário presenciado por ele no vilarejo élfico. "Bruenor emprestara à sua fala certo tom de reprovação, mas não se pode culpar o garoto por reagir e querer fazer justiça em face de tanta maldade", pensou o sacerdote de Wee Jas. "Por outro lado, a vingança entendida como mera sede sangue, essa sim parece ser inexoravelmente má e infrutífera. Vingança e compaixão, rigor e misericórdia, podem andar juntos como complementos éticos à força bruta?" Bartolomeu pensava que essas reflexões poderiam ser úteis em algum momento no futuro próximo e esse pensamento lhe deu calafrios.

Foi quando se deu conta que estavam de volta aos bosques verdejantes de Oyt.

- Vamos parar por aqui - disse.

****

- O que vocês pretendem fazer comigo? – perguntou Shyntlara.

- O que você acha?! – respondeu ironicamente Gato Preto – Vamos fazer com você a mesma coisa que tentou fazer com a gente. Acho que seus minutos estão contados. Ou talvez possamos fazer de você nossa prisioneira e usa-la para barganhar com os elfos de Edhellond.

Este comentário despertou a atenção de Einar, que andava calado, ainda se recuperando dos ferimentos sofridos na batalha.

- Eu não creio que isso vá ajudar. Eu temo muito pelo modo como os Argonion irão reagir à minha presença e receio que eles não tenham nenhuma intenção de me ajudar a encontrar meu filho Edwin e minha amada esposa. Ela, afinal, abandonou Nym para se casar comigo em segredo. Como posso acreditar que agora sua família irá me ajudar? Mesmo uma prenda como essa elfa negra pode ser vista mais como uma ameaça do que como um sinal de boa vontade... – Einar parecia estar de algum modo confuso, tomado de fortes emoções, a beira de um colapso nervoso, pois falava rapidamente e sem qualquer tipo de travas na língua, revelando boa parte de sua história e de suas motivações para os ouvidos de Shyntlara.

- Eu posso ajudar a encontrar seu filho! – falou a elfa negra, sendo interrompida por um safanão de Gato Preto.

- Não diga coisas insensatas, nem se aproveite da miséria deste homem! Do contrário, farei de sua morte um processo bem lento e doloroso! – o ladino ameaçou com veemência.

- Eu não temo a morte. Prefiro-a do que uma vida em cativeiro. Mas não vejo motivos para não lhes oferecer ajuda em troca de minha própria liberdade. A questão que se impõe é: por que a Rainha das Teias das Fossas Abissais moveria uma só palha para lhes ajudar? Eu sou apenas uma serva fiel de Lolth e não é sensato exigir que uma divindade se curve aos caprichos de qualquer mortal, muito menos de vocês: meio-homens, homens de sangue fraco e impuro! Vocês acham que vão encontrar ajuda dos elfos em Edhellond? Hahahaha! Elfos não prestam! O egoísmo e a má vontade é um traço que é lhes inerente. E eu ainda ouvi vocês dizerem: o menino é um filho bastardo! Hahahaha! Que sorte esperam encontrar? Podem rezar para Rudd, podem rezar para todos os deuses, mas eu asseguro a vocês que Edhellond não os ajudará e, pior, irá atirá-los vandamör, uma masmorra escura que fica escondida sob o palácio Argonion! Lá, ficarão esquecidos pelos séculos até que a morte venha finalmente pegá-los. Lá, se lembrarão de meu augúrio com amargura e entenderão que não pode haver luz se não houver trevas! Sim! Vocês devem se entregar à escuridão para salvarem o menino Edwin! Eu posso ver agora! – os olhos de Shyntlara reviram nas órbitas, ficando completamente pálidos e emitem um leve brilho azulado assustador. Seu corpo sacode violentamente com uma força descomunal, de modo muito ameaçador. Gato Preto não consegue mais segurá-la pelos braços, pois os sacolejos espasmódicos são fortes e imprevisíveis.

- Ela vai fugir! – gritou Eldrin.

- Rápido! – rugiu Bruenor.

Bartolomeu dá um soco na cara da drow e Einar dispara uma flecha contra ela, atingindo-a no abdômen. Shyntlara cai com o rosto no chão. Os seus músculos estão enrijecidos e sob a pele de ébano se podem notar as veias e artérias saltando com um fluído estranhamente azulado. Seu corpo permanece no chão apenas por brevíssimos instantes, até que Bartolomeu ergue sua espada acima da cabeça e naquelas brevíssimos instantes (suficientes apenas para que os aventureiros percebam as copas das árvores se curvando anormalmente umas em direção às outras, deitando sobre todos uma penumbra sinistra) refletiu sobre sua decisão, tomando-a afinal para decepar a cabeça da elfa negra.

Todos estavam tomados de medo e quando se aproximam do cadáver, veem que a terra sob Shyntlara está negra e úmida, milhares de pequenas aranhas rastejam para fora do solo como uma ninhada que envolve o corpo da drow. São tantas aranhas, tão miúdas e tão grudadas umas às outras que parecem formar uma só entidade capaz de mover o corpo paralisado da elfa negra. Realmente, apesar de estar ocorrendo diante de seus olhos, é difícil de acreditar, mas Shyntlara é erguida a dois metros do chão por uma mão negra formada por estas aranhas estranhas. Sua cabeça pende por um fio de pele, nervos e músculos esfacelados. Seus olhos ainda estão revirados e sua boca então se abre:

- Dobrem seus joelhos diante do poder de Lolth, A Rainha Aracdínea, e ouçam a minha voz! A cada minuto perdido Lidna se aproxima de seu nefasto objetivo! Ela irá reerguer a sua Cabala e consumirá Edwin para a satisfação de seu culto perverso! Os elfos cinzentos virarão as costas a vocês, pois seu orgulho é maior que sua sensatez! Este é o momento em que devem mergulhar na escuridão!

A mão aracnídea repousa gentilmente sobre o corpo ereto de Shyntlara, que toca os pés no chão sem, todavia, dar-lhes firmeza, pois parece ainda desmaiada de torpor. Quando desperta instantes depois e consegue se manter de pé por si própria, a mão se desfaz e as milhares de aranhas caem pelo chão, se espalhando rapidamente.

- Nós refutamos a ajuda de deuses escuros que se escondem nas trevas às margens dos Reinos Exteriores! – gritou Bartolomeu – Exorto aos espíritos do Aqueronte que carreguem sua alma para longe de nós! – bradava o sacerdote erguendo em punho o símbolo sagrado de Wee Jas.

O corpo decapitado de Shyntlara caiu no chão em seguida, inerte.

Os aventureiros se entreolharam ressabiados e atemorizados.

- Não houve nada. Foi só um susto. Precisamos prosseguir – falou Bartolomeu.

****