Rigor e Misericórdia - 5º Ato

O Gato ladino estava muito serelepe e encurralou a vilã - Pintura medieval encontrada aqui

Eirol fica paralisado de medo ao perceber que algo profano e terrível se move no fundo do pequeno lago. Einar dobra o pescoço para olhar ao redor sentindo suas pernas estranhamente firmes no solo seco e arenoso. Seus olhos fitam os colegas se aproximando através do estreito vale rochoso.

- Não se aproximem! É uma emboscada! – o grito de Einar foi sufocado por uma voz muito mais alta e assustadora:

- Antigos espíritos do mal!!! Transformem estas formas decadentes!!!* Rainha Aracnídea, toque-me com suas patas e me dê o controle sobre elas!!!  - os aventureiros ouvem estas palavras sendo enunciadas em linguagem élfica arcaica de modo profano e logo veem esqueletos se desenterrando do solo movidos por uma estranha sanha sangrenta.

- Desembainhem suas espadas e preparem o verbo – disse Eirol. Bartolomeu, Bruenor, Eldrin e Gato Preto se aproximam de Einar ao vê-lo cercado por inimigos. Mas os olhos do rastreador estavam voltados para o alto dos paredões onde gigantes das colinas se ocultavam em imensas frestas obscuras e agora saíam para encurralar o grupo inteiro.

- Peguem eles, seus molengas! – aquela voz alta e assustadora voltava a ecoar pelo vale, comandando seus serviçais.

Bruenor conseguiu desmantelar um dos esqueletos e correu para a frente de um gigante a fim de guardar o flanco esquerdo de Eldrin, que de seu turno disparava raios de fogo para destruir os inimigos. Um esqueleto emergiu do fundo do lago e agarrou Eirol. Einar desferiu um golpe descendente com sua espada e decepou o braço do morto-vivo, puxando Eirol pela manga de sua larga cota de malha em direção a Bartolomeu. Não percebeu que um gigante se aproximava em carga para pegar-lhe pelo flanco e sofreu um duro golpe na clavícula esquerda, deslocando seu ombro. O astrólogo viu que Einar foi atingindo e que Eirol era uma presa fácil, pois inexperiente em combate. Assim, concentrou-se e orou para sua deusa matrona e, por causa de sua fé, uma adaga espiritual surgiu bem atrás do gigante, ferindo-lhe as costas.

Esperto, Gato Preto sabia que havia um conjurador escondido em algum lugar por ali e por isso escapou furtivamente da escaramuça e usou as sombras do vale a seu favor para escalar um dos paredões em segredo, alcançando um patamar mais elevado. De lá, pode contemplar com um misto de curiosidade e medo uma mulher lindíssima de pele negra como ébano, cabelos brancos como a neve, feições delicadas e orelhas pontiagudas, vestida com botas de couro de cano alto, uma fina e delicada armadura de couro (semelhante a um corpete) adornada com peles de animais correntes e joias e uma longa luva negra. E ela tinha em volta de si uma aura mágica soturna.

É ela, pensou o astuto ladino. Mas antes preciso lidar com esses arqueiros esqueléticos, refletiu ao notar que em outra plataforma próxima de onde estava havia dois mortos-vivos alvejando seus colegas lá embaixo.

Enquanto isso, Bruenor avançava sobre um dos gigantes que até conseguiu se esquivar de um de seus golpes, mas logo em seguida foi mortalmente ferido. Eldrin, então, vendo que dois outros se aproximavam pelo fundo do vale, percebeu que era a ocasião perfeita para fritar os adversários com uma bola de fogo que invocou e disparou com precisão!

Eirol e Einar conseguiram alcançar Bartolomeu, mas antes que pudessem articular uma estratégia ouviram a voz assustadora da conjuradora novamente e subitamente se viram envoltos em uma nuvem de macabros gafanhotos. Os insetos não agiam com normalidade, porém sim com agressividade desmedida e antinatural, ferindo as partes expostas do corpo dos aventureiros com cortes e picadas profundas.

- Não são insetos comuns! São um enxame invocado por forças malignas! – bradou Bartolomeu enquanto tentava se livrar da nuvem, que chegava a ofuscar a visão e sufocar a respiração. O astrólogo guiava-se praticamente por instintos e, segurando Einar pelo braço, procurava puxá-lo para segurança. A angustiante situação se agravou, todavia, quando, tendo recebido muitas picadas e cortes, Eirol sucumbiu. Bartolomeu sentiu o sopro frio da morte e bradou palavras de súplica e exortação à Wee Jas. Seus olhos arderam com as chamas que caracterizam as mais psicodélicas retratações da deusa e os espíritos decrépitos dos mortos subjugados pela Dama Rubra desceram sobre a nuvem atacando os gafanhotos formando uma espiral sangrenta de loucura.

Os gigantes atingidos pela bola de fogo de Eldrin arderam em chamas e, assustados, tentaram uma vã e desesperada correria, agitando os braços e urrando de dor até caírem inertes. A nuvem de gafanhotos começava a se dispersar graças à espiral de espíritos controlada por Bartolomeu, que ajudou Einar a arrastar Eirol para um local seguro. Enquanto isso, Bruenor encurralou o último gigante restante que, distraído com os ataques da adaga fantasmagórica de Wee Jas, não teve chances contra os poderosos golpes cortantes do machado morte lenta ostentado pelo anão.

Gato Preto não teve dificuldade para destroçar os dois esqueletos arqueiros, que além de tudo eram muito ruins de mira. Saltou, então, para outro ponto do paredão a fim de alcançar a conjuradora quer tinha avistado. Ela observava atônita como os aventureiros conseguiram se livrar de sua emboscada e parecia se concentrar para que a sua nuvem de gafanhotos não sucumbisse inteiramente.

- Renda-se e talvez eu possa poupar sua vida! – falou o ladino ao conseguir se aproximar silenciosamente por trás dela, surpreendendo-a.

A misteriosa conjuradora abaixou os braços que estavam erguidos e relaxou os músculos. Gato Preto se aproximou, mas logo teve um pressentimento esquisito, que a princípio não soube identificar o que significava. Seu único instinto foi olhar para trás, como se tivesse ouvido algo, e de fato surpreendeu-se ao constatar que a verdadeira conjuradora empreendia fuga dali. Num espasmo, espetou a figura relaxada diante de si, verificando imediatamente que realmente se tratava de uma imagem ilusória. Seu sangue ferveu e suas pernas e braços se encheram de vigor para, num disparo frenético, impedir a fuga da vilã.

- Você não vai a lugar algum! – disse ao conseguir dobrar os joelhos dela e lhe atar as mãos.

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- Não há necessidade de grilhões ou amarras. Eu não sou uma delinquente e reconheço a minha derrota – disse a elfa negra ao ser levada (aos solavancos) para perto dos demais aventureiros. Eles ficaram boquiabertos com a visão daquela exótica pessoa e mais ainda pela astúcia de Gato Preto em conseguir captura-la sozinho.

- O que querem de mim? Por que não me matam? Eu não teria essa misericórdia toda se fossem vocês no meu lugar. E isso só não aconteceu por um triz!

- Mande essa vagabunda calar a boca – disse Bartolomeu com rispidez, enquanto se virava de costas para ela para ajudar Eirol e Einar que, nada obstante seus esforços, estava muito ferido e exausto. Bartolomeu dispersou os espíritos da morte e desta vez rogou que eles se afastassem para que seus colegas pudessem sobreviver. Mastigou algumas ervas campestres que encontrou pelo caminho e acredita terem poderes medicinais e colocou-as junto com saliva nos ferimentos mais expostos, esperando com isso evitar infecções. Einar acordou com forte ardência, sentindo-se febril. Mas Eirol não despertou de seu sono. Nunca mais despertaria, na verdade, pois os ferimentos eram muitos até mesmo para que o sacerdote de Wee Jas pudesse curar. Que sua alma seja clamada pelos deuses, sussurrou Bartolomeu.

- Ele está morto? - perguntou Bruenor.

- Sim... - falou Bartolomeu baixinho, com respeito, mas sem excessivo pesar.

- Coitado do garoto. O que você acha que vai acontecer com a alma dele?

- Não sei, mestre anão. O Eirol parece que sempre teve afinidade com Trithereon. Isso chegou a ficar bem claro em um dado momento, na verdade.

- É uma boa divindade? - perguntou olhando para o astrólogo.

- Depende de como você encara as coisas na vida, Bruenor. Trithereon é rigoroso por demais, dotado de uma personalidade severa e muitas vezes vingativa. E assim tendem a ser comportarem seus sacerdotes e admiradores.

- Fazia sentido, então, que, depois de tudo o que passou, Eirol encontrasse nas lições dele alguma razão para viver e o pobre garoto chegou a esboçar seu desejo de vingar o sofrimento criado pelas bruxas... - ponderou o anão - Então, Trithereon é um deus justo e vai clamar sua alma.

- Justo?  Qual o destino que uma pobre alma como a de Eirol irá encontrar? O garoto não sabia lutar, em tudo que tentou, fracassou. Morreu de modo meio inglório, eu diria. Estava cheio de desejo de vingança, mas no final não logrou êxito algum. Por essa lógica fria de retribuição, o que ele terá a colher agora nos planos exteriores? Se dor se paga com dor, se morte se paga com morte, se fracasso se paga com fracasso... - Bartolomeu suspirou - Não acho que Trithereon irá reclamar a alma do garoto.

- Acho que estou entendendo, Bartolomeu.

- Pois é... Que os deuses tenham misericórdia da alma dele, então, orarei para que ela encontre descanso.

Bruenor olhou para o vazio e finalmente disse:

- Meu povo é um povo guerreiro e feroz. Eu herdei isso com meu sangue, com minha linhagem. Mas certa feita, conheci um velho flan que era muito sábio e ele sempre falava em misericórdia, compaixão e esperança. Eu não sou um cara sentimental e muitas vezes flertei com o mesmo espírito vingativo que dançou com Eirol, especialmente quando gigantes atacavam nossas cidades e feriam meus irmãos. Olhando agora com tristeza para esse garoto, lembrei daquele velho e que ele me disse que às vezes, um guerreiro prova seu valor com compaixão e misericórdia, pois a vingança e a raiva são caminhos mais fáceis. 

- Isso se parece com um dogma religioso.

- E é. O velho não calava a boca, exceto quando estava fumando seu cachimbo, e sempre falava de um tal de Zodal.


****

- Quem é você?! – perguntou Gato Preto, desviando o olhar daquela cena para os olhos da elfa negra.

- Meu nome é Shyntlara! Herdeira da noite, Obediente Vassala de Eclavdra! Olhem pra mim! Mirem a escuridão da minha tez! Esta é a marca do submundo, de onde eu venho! Lá a luz nunca brilha e criaturas fracas não sobrevivem. Eu fui criada a partir do próprio tecido negro da escuridão e da morte, não tenho medo de voltar a ela, de sentir seu toque gelado na pele! Nada que vocês digam ou façam mudará isso.

- Não tenho dúvidas. É mesmo uma drow – falou Eldrin. Gato Preto encrespou o olhar – Habitantes do submundo, expulsos da superfície por sua ignomínia, seus corações tornaram-se completamente vassalos de forças obscuras.

- Se parece com os duergar, tipos ambiciosos e malignos que se enterraram tão profundo no subsolo que acabaram se fundindo com as trevas. – comentou Bruenor.

- Não importa. Quero saber o que está fazendo aqui e por que nos emboscou! – falou Gato Preto em tom ameaçador.

- Eu sou apenas uma visitante. Mesmo nas profundezas de Oerth pode-se sentir os pesados passos da marcha dos gigantes sobre esta terra.

- Você falou algo sobre ser Vassala de Eclavdra... – murmurou Bartolomeu, fingindo inocência.

- Sim, minha Dama Sob as Montanhas. Eu vim como sua emissária para ter com os gigantes – os aventureiros lançaram olhares incrédulos – Nem mesmo se eu desejasse poderia contar tudo o que sei. Homens como vocês olham para os céus em busca de ajuda, esperando que os deuses façam raios caírem sobre as cabeças dos seus inimigos, que os titãs agitem os mares e afundem as galeras de seus algozes, porém jamais terão paz porque são maus e seus deuses impostores! Até mesmo vocês anões, deveriam parar de olhar para o alto das montanhas e começar a se preocupar com o chão que pisam, pois há mais coisas entre esta terra árida e as profundezas escuras de Oerth do que sua vã filosofia pode imaginar.

Claramente Shyntlara estava a falar de seu “reino” em algum lugar sob a superfície de Flanaess. Ela demonstrava ter entendimento sobre diplomacia e falava como se, de fato, fosse uma espécie de embaixadora drow. Os aventureiros chegaram a ponderar abertamente sobre o destino que dariam a ela e tentaram, ainda que de modo simples e superficial, considerar eventuais consequências políticas. A conclusão uníssona, contudo, se alcançou no sentido de que, fossem quais fossem as consequências, a maldade inerente aos elfos negros não justificava confiar por um só segundo no que quer que aquela conjuradora pudesse dizer.

*singela homenagem aos Thundercats :D

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