Rigor e Misericórdia - 4º Ato

Herundil e Farimil os guiam pelas intricadas trilhas imaginárias que só eles podem conceber em meio às faias, álamos, pinheiros, carvalhos e cedros que formam os Bosques de Oyt.

- Sabem, estes bosques já foram um lugar de paz e harmonia e não parece que foi ontem que os gigantes devastaram quase tudo. O quê vocês ouviram a respeito? Que os gigantes vieram do Nevoeiro Cristalino? É que o que ouço a maioria dos geoffitas dizendo por aí. Foi o Senhor Argonion que na realidade...

Argonion? Nym Argonion? Einar pensou de chofre ostentando um olhar cansado. Bruenor, que olhava para o chão, calculando cada passo, ergueu a cabeça a mirou os olhos de Herundil, que continuou:

- Elbor revéndenos dol il nos Argonion (que quer dizer “o cabeça do clã dos Senhores das Barcas”) e mestre de Edhellond – Einar pareceu estremecer – Ele foi o primeiro a ouvir a voz de Sehanine, a sentir a brisa fria que soprava do sul e quando seus olhos se voltaram para lá viu que os gigantes desciam dos Montes Resolutos. Ele viu a grande fortaleza que se ergueu de fronte a Pedra do Fumeiro, sobre as Minas Dumathoin, e os gigantes que desciam de lá com seus corações gelados.

- Há! Dumathoin, você disse?! Então ainda há uma esperança, pois mesmo nas distantes montanhas Lortmils já muito ouvi falar sobre meus primos Solapés e a gloriosa fortaleza Urtcheck. Eles nunca iriam sucum...

- Nada obstante o foram, meu caro anão! – interrompeu Farimil – Eles e os Fundilhéus também. Eles e os primos noniz.

- Como assim?! Não existem mais? Foram subjugados? – Bruenor indagou assustado.

- Alguns conseguiram voltar para suas fortalezas, de onde os reis dwur ainda controlam uma pequena parte das montanhas. Urtcheck e Fundilhéu ainda subsistem pelo que sei. Bom, pelo menos não chegou nenhuma notícia da queda delas. Mas Gellsblood e Torinvale caíram. Quem não morreu por lá, morreu de frio no inverno terrivelmente gelado dos últimos anos ou conseguiu fugir para outras terras. Os Montes Resolutos pertencem ao Jarl Grugnur. Dizem que é um gigante de gelo enorme, cujo hálito pode matar um homem de frio. Ele responde somente ao Rei Snurre Barriga de Ferro, cuja fortaleza acredita-se que fica em Rugnirheim.

- Quanto absurdo! Não é possível que meu povo tenha sucumbido assim. Nós anões somos valentes guerreiros, temíveis em qualquer cenário, muito mais contra gigantes contra quem digladiamos pelos séculos dos séculos!

- Mas o frio... – Farimil dizia.

- Que frio o quê! A pele de um anão é grossa como o couro de um bisão. Nós matamos e comemos aurumvoraxes e em nossas veias corre o precioso ouro de que essas bestas se alimentam. Nosso sangue não gela nem mesmo na pior nevasca.

- ... o frio perdurante de Grugnur é mais penetrante que qualquer nevasca mestre anão. Seu povo morreria congelado antes que erguesse o primeiro martelo.

- E o que seu povo fez?! Aposto que nada, como sempre! Povo ingrato e maldito! A rainha Yolande foi investida com o Manto da Lua Azul e meus pais estavam lá para honrá-la porque cada covil órquico imundo (e cada caverna fedorenta de goblin) que foi destruído nas Guerras Odiosas contou com pelo menos um batalhão dos meus irmãos Ulekitas. E mesmo antes disso, Celene só não se tornou mais um reino vassalo da coroa de Keoland porque nós ficamos entre eles e os homens, quando os tempos nem se contavam em anos comuns. Porém, quando Turrosh Mak nos atacou, Sua Majestade moveu uma palha? Não!

- Escute, pedante anão! Pelas leis de meu povo poderia ferir-lhe o coração agora mesmo e seria agraciado com uma comenda, pois ninguém insulta Sua Dama Rhalta de Todos os Elfos. Não permitirei que continue com esses insultuosos comentários! Ademais, são de todo injustos, pois enquanto seu povo come ouro e gemas debaixo das montanhas, os elfos lutam para libertar estas terras do jugo dos gigantes. Estamos perto de destruir a Herdade dos Gigantes das Colinas e libertar os Bosques de Oyt, inclusive.

Einar lançou olhar cortante contra Farimil, que olhava de cima para baixo em direção a Bruenor. Herundil emudeceu e ficou parado como se estivesse congelado. 

- Nada disso interessa, essas picuinhas antigas dos povos de vocês dois. Vamos deixar de bobagem, pois estamos agora parados no meio da mata discutindo um assunto sobre o qual ninguém aqui parece entender de verdade. 

- Eu não vou tolerar que esse elfozinho metido a besta fale assim comigo! Nem que insinue que meu povo está escondido debaixo das montanhas! Isso é um insulto e... - irrompeu Bruenor com os olhos apertados, voz grunhida e as maçãs do rosto vermelhas de raiva enquanto Farimil exibia um sorriso de canto, como se estivesse gostando de ver o anão perder sua calma. Einar observou a reação do elfo e ficou visivelmente irritado, chegando mesmo a pegar seu arco e apontar uma flecha, enquanto Eldrin (calado) observa a tudo com curiosidade. 

- E o quê? Mestre anão? - Farimil provocou.

- Basta, Farimil. Nós te ajudamos e agora resolve fazer insultos? Bruenor te salvou também. Mostre mais respeito - falou Einar, com o arco em riste. 

- Pois eu acho que Bruenor deveria aceitar graciosamente o insulto que recebeu, pois é a justa paga pelos comentários que ele mesmo fez anteriormente – interrompeu, corajosamente, Eirol, deixnado Einar furioso e Bartolomeu perplexo. 

- Pra quem não participou do combate e ficou congelado de medo, até que você está bem falante garoto. Se lutasse como fala, seria mais útil - Gato Preto disse de modo ríspido e irônico. 

- Ora, lembrem-se que foi o próprio Bruenor que começou dizendo que os elfos em geral eram covardes e ingratos e chegou até mesmo a insultar a Senhora de Herundil e Farimil. Se alguém insultasse seu rei, Gato Preto, como o senhor se sentiria? 

- Por isso eu não tenho rei - Gato Preto disse sem hesitação.

- Bruenor feriu com ferro e com ferro foi ferido. Logo, é melhor deixar esse assunto de lado, mesmo porque, antevejo problemas adiante.

- Aprenda a lutar e se defender antes de se colocar contra seus próprios colegas, garoto - Gato Preto encerrou com tom de ameaça, deixando claro que Eirol andava com o grupo, mas ainda não o integrava de verdade.

- Vamos deixar essas bobagens de lado. Depois que chegarmos em um lugar civilizado, vocês acertam as diferenças - falou Bartolomeu.

- Pois eu acho melhor que nos separemos - disse Farimil - Já que são mal educados com aqueles que se dispuseram a guiá-los por essas perigosas matas. 

- Estou começando a achar que é uma boa ideia - Einar respondeu com o arco ainda retesado. 

- Não precisam elevar o tom - ponderou Herundil - Meu irmão e eu iremos embora, então, pacificamente. Só tomem cuidado, pois estamos próximos das terras incultas - disse o elfo se afastando junto com Farimil, somente após o quê Einar relaxou.

- Foi melhor assim. Até porque, pessoal, o nome do noivo de Ellin, a quem ela abandonou para fugir comigo, era Nym Argonion.

- Então era da mesma família do tal Elbor? - Bartolomeu indagou retoricamente. 

- Quem precisa de elfos? - resmungou Bruenor.

- Bom, eles estavam guiando a gente. Mas tudo bem. Devemos seguir. Mas, antes, gostaria de encher o meu cantil - falou Eirol - Ouço um córrego próximo. 

Ninguém pareceu interessado em seguir seus passos. Todos ficaram estranhamento exaustos com o bate-boca. Todavia, vendo que Eirol desejava ir até o córrego sozinho que fosse, Einar se dispôs a ir com ele enquanto o restante do grupo aguardava. Mas o rastreador não o fez por bondade ou amor ao jovem e sim por desconfiança:

- Por que se colocou contra Bruenor e depois decide se afastar de nós para sair sozinho pela mata até um córrego desconhecido como se não suspeitasse de qualquer perigo?

Eirol ficou tímido de repente, demonstrando confusão com a pergunta. Os dois andavam há poucos minutos quando Einar observou que ali havia poucas árvores, muitos arbustos retorcidos, alguns cactos, córregos secos e solo agreste e cinzento. O cenário se estende até aonde os olhos podem alcançar e o rastreador retesa os lábios com aflição, pois aquele local lhe é estranho. Descem por um pequeno vale onde encontram um olho d’água quase seco que verte água de uma fissura numa parede rochosa para um pequeno saco onde poucos peixes agonizam. Aproximam-se do lago e veem ao fundo um objeto reluzir. É a lâmina de um machado gigantesco ali enterrado não por acaso, mas por ocasião de uma feroz batalha que deve ter se desenrolado ali no passado. Einar distraiu-se por um momento e quando deu por si, Eirol já estava agachado a beira do pequeno lago, enchendo o cantil.

- Não beba dessa água! - disse de chofre o rastreador, ao perceber que algo antinatural os circundava naquele instante.