Rigor e Misericórdia - 3º Ato




Edhellond está a cerca de 60 quilômetros de distância mata adentro. Não há trilhas ou caminhos que possam ser facilmente seguidos e os aventureiros precisam se guiar somente pelo seu senso de direção e suas habilidades em abrir picadas da mata e manter-se no rumo certo. É uma tarefa difícil seguir em frente, e um descuido pode significar um dia inteiro de caminhada perdido. Einar é um profundo conhecedor dos bosques e Martin lhe ensinou muito sobre os caminhos do rastreador, motivo pelo qual assume naturalmente a liderança do grupo de aventureiros.

Horas após o início da caminhada, quando já estava ficando tarde, percebem uma estranha mudança na paisagem já monótona dos bosques de Oyt, pois veem muitas árvores recém cortadas, rústicas ferramentas de lenhadores abandonadas, restos de fogueiras improvisadas e carcaças de animais dilacerados. Há rastros recentes de botas de solas velhas e desgastadas além de pegadas de largos e pesados pés de orcs. Divisam mais a frente uma estreita coluna de fumaça serpenteado em direção ao céu nublado e chuvoso. Aproximam-se com cuidado e adiante avistam que uma clareira aberta na mata abriga cinco tendas grandes feitas com lonas de couro mal curtido, ossos e pedaços de paus. Há pelos menos duas pilhas de carcaças e espólios, uma fogueira e uma jaula arcaica onde dois elfos jazem cabisbaixos e um terceiro parece estar desmaiado. 

- É um acampamento de orcs - falou Einar.

- Podemos acabar com eles todos num piscar de olhos - disse Bruenor, já pegando seu machado.

- Está bem. Mas precisamos fazer isso com cautela porque eles têm prisioneiros. Esses elfos podem saber algo sobre Edhellond e com sorte nos ajudarão se os salvarmos - falou Eldrin.

Decidiram que Einar se aproximaria sorrateiro da jaula para libertar os cativos, enquanto Gato Preto percorreria as tendas em silêncio para contar inimigos escondidos, enquanto os demais desceriam o barranco com cuidado. Porém, tão logo o plano foi posto em prática, Bruenor escorregou numa pedra e desceu o morrote fazendo grande estardalhaço, atraindo a atenção (e fúria) dos orcs. Gritos e urros se seguiram e imediatamente um deles bateu com força num sino alertando todo o acampamento. As criaturas se amontoaram, deixando suas tendas e postos para trás num frenesi pela carne fresca de aventureiros incautos. 

Bartolomeu rapidamente conjurou as mãos fantasmagóricas de Wee Jas em seu auxílio, enquanto Bruenor se recuperava do tombo e se defendia de um golpe com o cabo do machado. Eldrin viu a oportunidade de atiçar uma fogueira e afugentar alguns orcs. Enquanto isso, Einar conseguia se aproximar da jaula impune. Ou pelo menos foi a última coisa que pensou antes que  uma daquelas temíveis criaturas percebesse o intruso e o golpeasse pelas costas. Bartolomeu viu isso e ordenou que as mãos fantasmagóricas fossem ao socorro do amigo caído. Os espíritos perturbados rodopiaram pelo acampamento causando grande terror nos orcs e finalmente chegaram até Einar. 

De seu turno, Gato Preto se distraiu nas tendas enquanto vasculhava os pertences daqueles monstros, ignorando os desafios mortais enfrentados pelos colegas aventureiros. Ele estava certo de que estes orcs poderiam ser asseclas das bruxas, sobretudo depois que constatou que o líder deles (que por último deixou sua tenda a fim de ingressar na escaramuça) é um hobgoblin da mesma estirpe daquele que enfrentaram na capela abandonada dias atrás. 

Um a um os orcs foram caindo e mesmo o hobgoblin não teve a menor chance contra o poder combinado dos aventureiros. Finalmente, Gato Preto vai ao encontro deles (insatisfeito por não ter achado muitas pistas) e os ajuda a abrir o cadeado que tranca a jaula. Bartolomeu impõe as mãos sobre os ferimentos de Einar, que desperta confuso e agradecido. 

- Eu me chamo Herundil e este é Farimil. Somos gratos por terem nos libertado! Fomos capturados numa emboscada - explicou um dos elfos.

Enquanto Bartolomeu e Einar conversaram com os ex-prisioneiros, descobrindo que eram de Edhellond e que este acampamento de orcs é um dentre muitos que infelizmente existem espalhados pelos bosques de Oyt, Eldrin e Gato Preto observavam que Eirol não havia engajado em combate, mas antes havia ficado paralisado (de medo) no alto do morro, incapaz de mover uma palha para ajudar os colegas e só agora se aproximava timidamente arrastando sua cota de malha mal ajustada ao corpo franzino. 

- É claro. Podemos guiá-los pelos bosques até Edhellond sem problema. Vocês nos ajudaram, nos salvaram gratuitamente. Então, será uma paga justa - dizia Herundil a Bartolomeu, enquanto Einar cobria o rosto para esconder a expressão de medo e preocupação.