Rigor e Misericórdia - 2º Ato




Einar enxerga os colegas se aproximando por entre as árvores do bosque que cerca Preston. Ainda chove intensamente, o rastreador finalmente fecha o diário e sai da barraca que montou.

- Péssima - respondeu Bartolomeu quando Einar perguntou como havia sido a visita à pequena vila élfic - Na verdade, só não foi pior porque conseguimos deixar Laura sob os cuidados de uma sacerdotisa de Sehanine. 

- Por aí vejo que não pode ter sido tão ruim...

- Ocorre que Celegail reapareceu como uma frágil garota e morreu diante dos nossos e dos olhos de toda a vila.

- Foi um espetáculo de horror - acrescentou Gato Preto. Os olhos de Einar arregalaram e seu expressão ficou fechada.

- Porém, acho que tudo não passou de um truque de Lidna. Um truque imundo para nos chocar; nos confrontar com nossos piores pesadelos - continuou Bartolomeu.

- Foi um truque muito bem feito, então... - falou Eldrin - Afinal, todos nós pudemos ver, ouvir e cheirar aquela cena terrível. Era como se Celegail tivesse mais uma vez saído do caldeirão das bruxas, regurgitada por Lidna, só que desta vez não mais transformada em bruxa. Não foi algo sinistro?

- Sim, foi. Mas não há porque Celegail aparecer em Preston do nada. Claramente, Lidna tem um dedo nisso - insistiu Bartolomeu.

Seguiu-se uma breve discussão sobre a verdadeira natureza dos eventos passados naquela manhã. Claro, todo o bate-boca foi inútil, pois ninguém pode afirmar com certeza o que ocorreu. Ao termo, ficou no ar a sensação de que os argumentos do astrólogo saíram vencedores, senão por sua lógica intrínseca, pelo menos pela autoridade sacerdotal que exerce sobre o grupo.

- O fato é que Lidna está por aí, e está com meu filho e quiçá com minha esposa também! - disse Einar, aflito - Precisamos decidir o que fazer, para onde ir!

- A bruxa pode estar em qualquer lugar... - disse Gato Preto com frieza - Jogue uma moeda para o alto e escolha a esmo uma direção. Nossa chance de encontrar com Lidna será igual em qualquer lugar. Só o conseguiremos se ela quiser, afinal, pelo visto ela pode sumir e reaparecer como bem entender.

- Nós podemos pedir ajuda aos druidas!

- Não, Einar. Eles não são confiáveis, nem mesmo aqueles que pertencem à Antiga Fé - respondeu Bartolomeu.

- Como assim, não são confiáveis? São as criaturas mais sábias que conheci e Martin me dizia que... 

- Sim, está bem. Mas não importa o que Martin lhe dizia: os druidas atualmente estão muito ocupados resolvendo seus próprios problemas. Acredite em mim! Um deles andava conosco, se chamada Wurren. Era, de fato, um sujeito sábio e bondoso. Mas entre as nossas necessidades e as de sua própria seita, preferiu essas. Se ele, que conosco já andava há tempos, assim agiu, que dirá de estranhos.

Einar parecia compreender e à guisa de sugestão, contou aos colegas a história das fadas de Angra Pelyth. 

- Quem sabe elas não poderiam ajudar? 

- Vago. Pode ser uma perda de tempo. E aquele elfo que encontramos no caminho para a Herdade? Ele não disse que há uma cidade por perto, no coração da floresta?

- Sim, Eldrin. Chama-se Edhellond. Podemos ir até lá. Pelo pouco que sei, é uma cidade dominada por elfos cinzentos. São pouco hospitaleiros, mas muito auspiciosos. Se a bruxa estiver rondando pelo bosque de Oyt, talvez eles saibam e possam ajudar - falou Bartolomeu.

Einar estremeceu.

- O que houve, amigo? - perguntou Bruenor, que estava muito calado.

- É que... Ellin... ela era prometida ao filho de um lorde de Edhellond. Não serei bem vindo.

- Ué! Mas ele não era de Preston? 

- Sim, Gato Preto. Sim. Mas seu pai é de Edhellond. E receio que de família nobre. Eu tomei Ellin e frustrei o casamento que estava planejado. Já contei isso aos senhores. 

- Na dúvida, é melhor perguntar aos deuses - falou Bartolomeu enquanto imediatamente perlustrava as imediações em busca de uma poça d'água perfeita, onde pudesse jogar (como de fato jogou) unguentos, folhas e raízes para fazer um ritual. Sacou uma carta de seu baralho de tarot, jogando-a sobre a água. Era uma carta com a runa do tríscele.

E naquela poça viram a sombra de um jovem. Ficaram embasbacados por alguns instantes, até perceberem que era a sombra de Eirol, que voltava de Preston.

- Você não ia ficar? Ou melhor, não ia voltar para Orlane? O que está fazendo aqui, então? - falou Bruenor.

- Eu desisti, mestre anão. Depois de ver o que passou Celegail e o sofrimento daquelas pessoas em Preston. Depois de pensar na aflição que Einar está passando, eu concluí que este mundo não é mesmo um lugar justo. Nem um pouco justo. Eu posso voltar para os campos e viver como meu pai e meu avô antes dele, mas um dia a injustiça vai chegar lá também, como já chegou uma vez no passado. Passarei a vida arando a terra para um dia assistir minha família ser passada ao fio de um machado órquico? Ou aguardarei que uma peste assole minha casa? Talvez arruaceiros ou até mesmo uma bruxa se instale na vizinhança, como aqui, em Preston, e a desgraça bata à nossa porta. Nessa hora, o que farei se já terei tomado a decisão de morrer como um cordeiro? Ora, não vêem o que eu vejo? Claro que sim, pois são aventureiros e eu... não. Não adianta voltar para Orlane fugindo dos horrores dessa guerra maldita, desses gigantes terríveis. Minha inocência já foi tirada mesmo! Só me resta vingar tanta desgraça imerecida. Só me resta lutar para que nenhuma desgraça passe sem punição.

Todos olhavam e ouviam com atenção aquele prolixo Eirol.

- Tome seu caso como exemplo, Einar! Tudo lhe foi tirado e por quê? É injusto, é imerecido e o que eu vou fazer a respeito? Virar as costas? Ir embora e fingir que isso não aconteceu, que eu não podia fazer nada? Rezar para Istus me poupar de um destino igual? Não! Estou cansado de esperar que os deuses façam algo por mim, enquanto placidamente aguardo suas bençãos. Os deuses nos deram braços e pernas para não ficarmos parados. Farei eu mesmo minha justiça e darei eu mesmo retribuição aos que injustiçaram os inocentes desta terra. E começo por ti mesmo, Einar. A menos que o recuses, que me juntar a ti e aos demais e quero matar Lidna, salvando seu filho e sua esposa. Quero fazer isso para vingar-me dela. Para vingar o que fez contra mim, contra Celegail e contra o povo de Preston. E não peço nada em troca, pois a minha paga se encerra com a consumação da minha própria vingança.

O rosto de Eirol estava vermelho e os olhos cheios de lágrimas. Lágrimas pueris, segundo Eldrin, que não pareceu se comover com o discurso empolgado. Estavam todos os demais impressionados com a súbita mudança de postura do jovem soldado. Bartolomeu ainda ponderou que a vingança não é um bom motivo para nortear um objetivo de vida. Mas o soldado estava convencido e irredutível.

- Neste caso, um par de braços e pernas a mais será bem vindo. Não poderemos proteger você dos perigos à frente, saiba disso.

- Eu sei e como disso, não peço nada.

****

Seguiu-se, então, longa discussão sobre para onde ir. Por onde começar a procurar Lidna? Decidiram, por fim, ir até Edhellond, pois Eirol disse que aquele lugar é a principal cidade élfica de Oyt e de lá eles patrulham todo o bosque.

Nesse momento, a excitação do soldado parece ter diminuído, embora continue firme em seu propósito de seguir com os aventureiros. É que ele é apenas um jovem, com não mais do que 15 primaveras completas e não sabe o que esperar do futuro que acabara ali mesmo de traçar, quando ainda estava movido pelas fortes emoções provocadas pela morte funesta de Celegail.

Bruenor olha para o garoto de cima a baixo e diz:

- É com esses farrapos e essa espada cega e enferrujada que você pretende lutar ao nosso lado e vingar-se das bruxas?! Hahahaha!!! Senhores - disse o anão se virando para Bartolomeu, Eldrin, Gato Preto e Einar -, precisamos vestir pelo menos uma armadura decente neste moleque, do contrário estou certo que nos sentiremos responsáveis por sua morte que certamente será precoce.

Fizeram, então, os preparativos. Bruenor voltou à Preston para comprar alguns equipamentos (ou poucos que conseguisse encontrar, dada a escassez provocada pela guerra) e depois partiriam.