Rigor e Misericórdia - 1º Ato


Divisam as casas de granito branco e seus telhados de ardósia de formas angulosas. Sua memória é das ruas de pedras redondinhas e lapidadas, pouco movimentadas, seus transeuntes silenciosos e discretos, os ocasionais estalos das rodas das charretes sobre as pedras e o farfalhar agradável das copas das árvores sob a brisa constante que sopra do fundo do vale, onde o Arroioreal se encontra com o Javan.

O sol já se deita atrás das montanhas no oeste e uma estranha sensação percorre o corpo de Einar.

Dormem às portas do vilarejo.

Naquela noite, Bartolomeu tem um sonho. Estava com Ânn à beira de um rio cujas águas corriam mansas entre as pedras salientes. Era dia, meio nublado. Ela estava usando seu gibão de tiras brancas, aquela mesma veste estranha em que a viu pela primeira vez. Não se lembra de ter visto seu rosto. Mas fazia amor com ela, deslizava por entre suas pernas, sentindo seu calor e sua umidade. Não sabe quanto tempo se passou, há quanto tempo estava ali, com ela. De repente era noite escura, como se o sol tivesse se escondido no firmamento repentinamente, eclipsado por uma lua negra gigantesca. Olhou para Ânn e sua cabeça estava coberta com o capuz de tiras brancas que somente Adan havia visto. Percebeu, de súbito, que aquela era uma mortalha, que o gibão e a máscara são ataduras e que seu corpo estava inerte. Horrorizado por transar com um cadáver, no instante seguinte de seu sonho confuso viu apenas o corpo dela deitado na pequena praia sob um salgueiro e a olhava. Ele próprio não estava nu. Que vil sensação. E despertou confuso com o peito angustiado e o estômago revirado.

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Naquela manhã o sol não apareceu. Nuvens pesadas cobriam os céus de Flanaess e anunciam uma forte tempestade. Os aventureiros fizeram um breve desjejum e conversaram sobre os últimos desdobramentos de suas andanças. Einar expôs aos colegas seus motivos particulares para não entrar na pequena vila de Preston: temia encontrar com o ex-noivo de Ellin e por sua reação. O jovem rastreador não deu muitos detalhes, mas ficou claro que sua paixão frustrara os planos que pessoas importantes fizeram para o casamento de Ellin e um elfo daquele vilarejo e, com efeito, não seria sábio se expor neste momento.

- Levem Laura consigo e vejam se conseguem ajuda. Os esperarei aqui nas imediações, escondido nos bosques, onde não poderei ser avistado. 

- Você acha que o ódio que amealhou será maior do que o desejo de encontrar Ellin? - perguntou Bartolomeu, cogitando a possibilidade de que, diante da tragédia que se abateu, a rixa entre Einar e seu desafeto pudesse ser deixada de lado.

- Não, na verdade, eu não sei. Fico preocupado com o que vai ser de Ellin e de Edwin, meu amado filho, caso os encontrem antes de nós.

Gato Preto e Eldrin olharam desconfiados.

- Talvez até seja melhor (pensando por outro lado) que sejam todos alertados para o que aconteceu, porque não sei se serei capaz de resgatá-los e todo tempo é pouco. Mas confesso que não consigo tomar essa decisão agora. Não. Eu não posso entrar - falou Einar, demonstrando pesar em sua voz.

Decidiram, com isso, que o jovem rastreador ficaria mesmo nas cercanias de Preston.

- Vamos ver como as coisas se sairão. Está nas mãos dos deuses - decretou Bartolomeu antes de partirem.

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Uma multidão se aglomera nas ruas do vilarejo. Algo está acontecendo na rua atraindo a atenção dos plebeus. Aproximam-se e ouvem um gemido doloroso e esganado, algo parece se arrastar pelo chão, deixando um estranho rastro de sangue podre e fezes. Pensam se tratar de um cão extremamente ferido e maltratado. Mesmo sendo “apenas” um animal, condoem-se de seu estado deplorável. Mas não é um cão, e sim uma pessoa. Um ser humano, ou que resta de um, pois seu tronco negro queimado como pão torrado é arrastado com dificuldades pelos braços delgados de ossos expostos e carne dilacerada! Os membros inferiores parecem ter sido amputados na altura da pélvis por uma explosão violenta que a um só tempo queimou seu corpo por inteiro. Que tipo de selvageria poderá ter acontecido com aquela pobre alma?

- Celegail! Celegail! – uma senhora se aproxima aos prantos. Bartolomeu nota que se trata de Míriel, a mulher do estalajadeiro (uma elfa, cabelos lisos e negros como a noite) – Oh! Que os deuses tenham piedade! O que aconteceu com você minha filha?! – a mulher se ajoelha no chão, mas não graciosamente, e sim desabando como se as pernas fraquejassem. Ninguém naquela multidão tem coragem de deter seu brusco movimento, tomados que estão pelo choque de horror e emoção. Uma mistura infame de sentimentos capaz de embrulhar o estômago!

Os aventureiros olham horrorizados para a cena. Aquela não pode ser a bruxa Celegail, mas talvez fosse o que restou dela depois de tudo o que lhe aconteceu: de ser consumida por Lidna, de virar uma bruxa de verdade e, depois, de ter sido derrotada. Aquela não era uma face hostil, mas sim a de uma pequena garota, ainda jovem demais, talvez na sua primeira menstruação, cujo rosto desfigurado ainda preserva um pouco da inocência pueril para sempre arrancada pela Cabala do Fogo Eterno. Os poucos fios de cabelos dourados que ainda caem de sua cabeça descem colados pelo pescoço e ombros junto à pele derretida e repleta de cancros sobre os quais moscas e outros insetos já depositaram suas larvas asquerosas!

O soldado que havia sido resgatado por Bartolomeu e pelos demais aventureiros de dentro do sinistro templo das bruxas (aquele mesmo que o astrólogo encontrou em estado deplorável sobre um leito macabro propício para rituais negros) se desgarrou do grupo e se aproximou da turba. Intencionava chegar até a menina-bruxa, mas conteve o passo ao ouvir um grito na multidão.

- Míriel! – um meio-elfo de cabelos negros (como os da mulher) e ondulados, com olhos castanhos e um cipó adornando como uma delicada tiara, se aproxima com os olhos cheios de água – Míriel! – sua voz se esvazia como um balão que de repente perde seu ar. Olha para baixo e seus olhos se fecham, dobrando o joelho para abraçar a esposa num choro copioso.

Celegail não diz nada. A mandíbula está destruída, restando dela apenas tendões e um fragmento ósseo. Mas pode-se ver seu grotesco esforço, pois parte da musculatura da língua, ainda existente, se move derramando saliva, bílis e sangue no chão. Ela não pode pronunciar nada.

Bartolomeu se aproximou cautelosamente. Duvidava que aquela fosse mesmo Celegail, mas acreditava, sim, que aquela cena horrorosa fosse um artifício de Lidna. O astrólogo se ajoelhou de frente para a menina-bruxa e sem lhe tocar impôs as mãos enquanto empregava forte oração para que Wee Jas desse a ela voz para dizer o que tinha a dizer.

Foi em vão.

O sacerdote de Wee Jas verificou que uma das órbitas de Celegail estava vazia, podendo-se ver o interior de sua caixa craniana e seus miolos ensanguentados. O outra metade de sua face ainda retinha feições remotamente humanas e um olho perfeito, que com sua íris azul, mira profundamente nos olhos dele. Sua língua se mexe freneticamente e não é possível ouvir nada, senão grunhidos e gemidos indistinguíveis.

Subitamente Eldrin e Gato Preto são tomados de um sentimento que remotamente podem identificar como remorso. Os últimos meses de suas vidas têm sido dominados por decisões e ações imediatas de impacto direto no mundo e na vida de dezenas de pessoas. Passaram ao fio de suas espadas um sem número de adversários, comungaram com os mortos, expulsaram demônios e tiveram com os altos druidas da Floresta Escura. Nada os preparou para aquele momento: o momento em que foram obrigados a olhar face a face as consequências de seus atos e, por mais que sua vozes interiores gritassem desesperadamente por consolação, buscando em Lidna e Igna a responsabilidade pelo que ocorrera a Celegail, ainda assim uma profunda sensação de abandono e solidão os dominou.  O fato de que suas ações poderiam ter conduzido, quiçá, a um desfecho menos triste para a estória daquela garota outrora inocente é capaz de atormentar suas almas e fazê-los sentir como delinquentes morais que agiram pelos impulsos instintivos ou pela imoral certeza daqueles cuja empáfia nubla a razão! Nos olhos de Eldrin, ardiam ainda as chamas das bolas de fogo que num átimo disparou contra a cabala e sentia agora arder em sua própria mente o calor que outrora extirpou suas inimigas.

Bruenor olhava atônito e sem dizer nada. O cachimbo que acendeu mais cedo pendia dos lábios inertes e se apagou.


A criatura (Celegail) convulsionou, então, rapidamente e num movimento instantâneo e incontrolável de seu diafragma, regurgitou um bolo alimentar mal digerido no chão, envolto em uma gosma nojenta, bílis, sangue e saliva e então desfalece, morrendo para sempre.

Fortes trovões rugiram e uma pesada chuva começou a cair.

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Einar (em sua tenda) começa a escrever no seu diário e reencontra uma estória: das Ninfas de Angra Pelyth, de que Martin lhe contou certa vez. Ele lhe contou que algumas pessoas acreditam que cada árvore, arbusto e lagoa no mundo está ligado ao povo faérico, e que cada um contém um Espírito cujo único objetivo é protegê-lo. Se esta vastidão faérica é real ou não, é impossível dizer ao certo, porém é verdade que pelo menos algumas árvores, arbustos e lagoas são de algum modo conectados a Espíritos faéricos. Pois bem. Este mundo faérico, que inexoravelmente existe, ficaria completamente escondido do olhar dos homens comuns se a curiosidade das fadas não fosse tão grande a ponto de suplantar seu dever, e elas muitas vezes não deixassem seu reino para visitar os homens. E os homens são mortalmente atraídos pelas qualidades sedutoras destes Espíritos! As ninfas são a prole destas uniões ocasionais. Não têm nenhum dever juramentado, mas mantém-se inarredavelmente em comunhão com natureza e, por vezes, assombram e seduzem os homens para sua contemplação e prazer. Martin contou de uma ninfa que conheceu em Angra Pelyth. Chamava-se Merynine e ela era tão linda quanto uma mulher poderia ser. Ela chorava à beira da enseada. Ele perguntou por que ela chorava, e ela disse que era porque tinha perdido um presente que ganhou. Conquanto não poderia encontrar o objeto, perdido em algum lugar que nem mesmo a fada se lembrava, Martin a presenteou com algo simples e especial e ganhou sua simpatia e amizade. Aventurando-se, certa feita, Martin se feriu gravemente. Uma besta terrível o inoculou com uma poderosa peçonha. As ninfas, que conhecem tudo na região, o ajudaram. Levaram-no para seu reino e o curaram, salvando-o da morte certa, demonstrando poder curandeiro inigualável. Elas hão de saber como encontrar Ellin, Edwin e talvez como ajudar Laura, se isso for possível de algum modo. 

O jovem fechou o diário com alguma esperança tão fugaz que logo que os céus desabaram com intensa chuva foi tomado de sinistra tristeza.