Estrada para os Montes Resolutos - 31º Ato




Retornam para Preston e no caminho passam pela capela de Wee Jas. Ali reencontram a estreita trilha que ao sul leva até a Torre de Menagem Keeler e ao norte conecta-se com o vilarejo élfico. A maior parte do dia o tempo ficou seco e nublado, mas pouco antes do final da tarde uma chuva fina começou a cair e o vento leste que antes era fraco agora soprava com mais violência. Einar e Bartolomeu, que são nativos de regiões próximas, entendem que é um sinal de que o tempo irá esfriar, pois o vento sopra do alto das montanhas do Nevoeiro Cristalino trazendo consigo a friagem contínua que sempre as envolvem. Com efeito, quando o sol se escondeu sentiram a temperatura cair abruptamente e viram uma fina bruma pairar entre os caules das árvores.

A capela está como antes. Sua singela arquitetura, sua fachada lisa desprovida de qualquer traço de inspiração e suas janelas estreitas são uma visão desoladora em meio à neblina, na qual se destaca somente a torre do sino. Bartolomeu observa com desalento o terreno ao lado, onde um pequeno cemitério guarda o mausoléu de Irga. Tudo está silencioso, mas de repente os aventureiros ouvem um estrondo vindo de dentro da igrejinha e percebem que algo se move lá dentro.

- Eldrin, fique aqui com o Ringo, Laura e esse soldado. Vamos investigar - falou Gato Preto ao que o feiticeiro assentiu.

Aproximam-se e pela porta entreaberta da capela veem um grande troll de pé na nave da igreja. Ao seu lado um bugbear e mais adiante alguns esqueletos que parecem ter sido erguidos recentemente de suas tumbas!

- Rápido seus inúteis! Mais rápido! Encontrem-no e destruam todo o resto! – o bugbear veste uma cota de malha e possui muitos estranhos adereços, como um colar feito com contas negras e vermelhas, muitas fitas e pulseiras feitas de cipó. O troll, de seu turno, carrega um pesado martelo e observa o movimento com clara impaciência, fungando pesadamente através de suas grandes narinas.

Cansados e irritados, os aventureiros não hesitam e entram na capela de peito aberto para mais um enfrentamento.

- Ah! Bem que ela disse que intrusos viriam! Vocês mexeram com a pessoa errada! - disse o bugbear sem expressar tanta surpresa assim com a chegada dos heróis. 

****

Segue-se uma batalha rápida. Bruenor e Bartolomeu conseguem flanquear o troll que logo cai antes de causar muitos estragos. O bugbear se espanta com a ferocidade dos aventureiros, afasta-se para o fundo da nave e desaparece num piscar de olhos para espanto de todos. Einar não está disposto a aceitar a fuga do vilão e tenta a todo custo segui-lo, o que seria impossível se ele não fosse tão descuidado com seus passos desastrados que a todo instante denunciam sua posição (ainda que invisível).

O jovem rastreador persegue o bugbear, que sobre as escadas da torre da capela e se joga lá de cima numa tentativa desesperada de fugir dali. Ao fazê-lo, cai no chão torcendo o pé e desfazendo o véu de invisibilidade que até então o protegia. Ele corre para longe, despertando a atenção de Eldrin que sai de sua vigia para cercá-lo. Mas é desnecessário, pois Einar alveja a criatura duas vezes nas costas e o monstro cai ferido.

Enquanto isso, Bartolomeu, Gato Preto e Bruenor dão cabo de alguns esqueletos que encontram no interior da capela.

- Devem ter sido erguidos por necromancia a partir do cemitério ao lado, lembram-se dele? - falou Bartolomeu, entre um golpe e outro.

- Sim! Isso é obra da Lidna! Mas o que ela procura aqui? - falou Gato Preto antes de finalizar a última caveira com um golpe forte que separou o crânio do resto do corpo. 

- Parece que alguém tentou fugir! Estão precisando da gente lá fora - falou Bruenor.

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O bugbear caiu desacordado, mas ainda vivo. Bartolomeu faz questão de não permitir o "sono" do inimigo e o desperta a bofetadas.

- É melhor você dizer logo tudo, pois nosso amigo aqui não é muito gentil com criaturas como você - falou Gato Preto.

O bugbear não tenta nem sequer resistir. Sua alma é covarde.

-  Trabalho para Lidna. Eu e muitos nos bosques de Oyt "servem" a ela, porque é muito antiga, sábia e poderosa."

- Isso é o óbvio! Quero saber o que estão fazendo aqui? O que vieram buscar? - perguntou Bartolomeu ameaçadoramente.

O bugbear, contudo, não pode dizer muito, ou ela vai mata-lo (segundo alega) e com certeza vai ser menos doloroso morrer para os aventureiros do que pelos horrores que ela é capaz de produzir. 

- Eu não "saber" de nada sobre os planos dela. Ninguém sabe! - O coração de uma bruxa é insondável. Porém, a criatura relata que ela deu uma ordem a ele em seus sonhos. Mandou que fosse até a capela de Wee Jas para pegar um artefato. Ungush é o nome do goblinídeo, a raça a que pertencem os bugbears em geral. 

- Ele é inútil! É melhor vasculharmos melhor a capela! - falou Bruenor, dando um fim do monstro assim que todos concordaram.

Retornam para a igrejinha de Wee Jas. Já estiveram aí antes e já investigaram o lugar. Mas o quê poderia ter passado aos seus olhos anteriormente? "Somente um objeto com aparência mundana" pensou Bartolomeu. E foi assim, perlustrando o local com máxima atenção, que encontraram um estranho colar em que pende um arco prateado preso dentro do qual há um globo gelatinoso de aproximadamente dez centímetros. "Um olho de fomorian? Não é possível!" pensou o astrólogo. Vendo a expressão de surpresa e preocupação no rosto do colega, Einar perguntou:

- Você sabe o que é isso?

- Estou em dúvida ainda, mas se for o que estou pensando, é algo tão perigoso quanto é poderoso. Deve ser isto o que Lidna mandou aqueles salafrários procurarem aqui. 

- Talvez eu possa ajudar a identificar esse objeto, especialmente se for mágico - falou Eldrin.

- Sim, com certeza, até porque, se for o que estou pensando, é um dos objetos mágicos mais interessantes que você já viu em sua vida. Mas isso fica para depois. Temos que ir para Preston.

****

Deixam a capela e partem em direção ao vilarejo élfico. Já está tarde, porém, e por isso são obrigados a acampar na beira da estrada. Escolhem um local afastado, uma saliência rochosa sob o pé de uma faia grande o suficiente para abriga-los do vento e do frio. 

Bruenor pitava seu cachimbo, Bartolomeu contemplava as estrelas e Eldrin se ocupava de acender a fogueira cuidadosamente preparada por Einar com ramos e galhos secos que Gato Preto o ajudou a recolher. Então, o soldado cujo corpo carregavam consigo para cima e para baixo  finalmente despertou. Com olhares curiosos, fitavam o estranho agora desperto e foi o sacerdote de Wee Jas que se voluntariou para fazer a boca do grupo, acalmando o soldado (que se chama Eirol) e explicando-lhe quem eram, onde estavam e como o resgataram das garras das bruxas. Mas uma dúvida persistia, logo vocalizada pelo astrólogo.


- Eu não vi muita coisa. Nosso destacamento estava patrulhando as imediações de Preston. Fomos mandados pra lá porque o Grão-Mestre Relyan ordenou. Disse que havia uma ameaça iminente circundando o pequeno vilarejo e que uma criança já estava desaparecida. Suspeitamos dos gigantes, porque se esperava que sua caçada descontrolada empobrecesse o bosque e eles, esfomeados, se descuidassem a ponto de se exporem em nosso fronte. Assim, pequenos grupos de soldados poderiam dar conta dos gigantes e em poucos meses sua Herdade não seria mais um problema, pois estaria suficientemente fraca. Mas acho que subestimamos os gigantes! Ao invés de surpreendermos, nós é que fomos surpreendidos, pois caímos em uma emboscada. Eu levei uma pancada na cabeça. Só lembro-me de ter visto um vulto rápido. Não sei se foi uma pedrada ou uma pancada de porrete. Eu lembro também de, depois, ter visto uns vultos e estava tudo escuro. Parecia que estava acordando de um sono pesado. E foi então que eu ouvi sua voz me chamado, uma voz doce e delicada e eu a segui. Estava tudo escuro. Não via nada, mas sentia os pés descalços pisando no chão molhado. Então, eu vi seu rosto deformado e o cheiro de carne queimada. Ouvi os gemidos dos homens e o som de um caldeirão ardente. Ouvi também vozes que diziam de segredos e tesouros ocultos e do chamamento da Severa Senhora. “Durma, durma, pobre criaturinha” ouvi a grotesca e monstruosa criatura dizendo. Eu lutei. Juro que lutei. Meu coração estava cheio de pânico, de dor, de aflição, mas meus olhos se fecharam e senti um calor os braços. Na escuridão, deitado senti meu corpo flutuar na água parada e gelada e depois não me lembro de mais nada, apenas de, antes de perder a consciência, pedir a Trithereon que retribuísse minha devoção e me defendesse quando eu não pudesse fazê-lo. 

- E o que você vai fazer agora? Vai voltar para Geoff e se juntar ao exército novamente? - perguntou-lhe Gato Preto.

- Eu não vou voltar para o Forte Diligência! A pior coisa que eu fiz nessa vida foi ter ido pra lá! Quero é voltar a ver meus pais em Orlane, puxar um bom arado para a glória do duque e nunca mais lembrar dos horrores que vi. Os acompanho até onde puder, porque há perigos aqui, e depois vou-me embora!

E, assim, passou a última noite dos aventureiros no bosque antes de retornarem a Preston.

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