Estrada para os Montes Resolutos - 30º Ato



"Ela está em choque. Ou louca. Alguém que levou Edwin fez alguma coisa com ela, e perder tempo aqui só vai piorar o estado dela e tirar nosso foco das questões que podemos tratar agora. Depois cuidamos dela." As duras palavras de Bartolomeu atingiram Einar.

- Meu filho! Minha esposa! Para onde os levaram?

- As bruxas tem um covil perto daqui. A gente passou por lá antes de te achar, Einar. Creio que Lidna deve retornar - falou Gato Preto.

- Bobagem! Está fugindo de nós! - Bruenor disse.

- Não, Bruenor. O que Gato Preto falou faz sentido. O caldeirão dela ainda estava lá, não se lembra? - ponderou o astrólogo.

- Eu me lembro sim, e sei que para determinados rituais de feitiçaria uma bruxa precisa de seu caldeirão, então, ela vai voltar pra lá e algo me diz que vai ser em breve - disse Eldrin de modo um pouco afoito, enquanto mirava os olhos de Einar, como quem tem uma ideia.

Decidiram, então, voltar ao covil.

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Não tiveram dificuldade para achar o caminho, pois se lembravam bem e não era longe dali. Passaram, entes, pelo local onde pela primeira vez encontraram Einar. O jovem encontrou rastros  e os seguiu até um local próximo, onde encontrou Ringo (seu cavalo) a pastar serenamente.

- Não há nenhum sinal de Ellin. Pelos deuses! O que essas bruxas fizeram?! - indagou Einar com sofreguidão.

- Fique calmo. Vamos achá-la. Para o covil! - Bartolomeu ordenou o reinício da marcha.

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Escorregaram pelas pedras da encosta íngreme até encontrarem raízes e cipós que poderiam usar para pendular até a entrada da caverna, que nada mais era do que uma fenda no paredão rochoso.

Cuidaram para que seus passos não perturbassem por demais os cascalhos do chão e logo encontraram o lago subterrâneo e o pequeno barco que usaram antes para escapar dali. Estava tudo como ontem. 

Remaram até a margem oposta e chegaram ao covil imundo das bruxas. Era pequeno e cheio de coisas grotescas.

- Lidna não parece ter voltado ainda - falou Eldrin.

- Não sei se isso é sorte ou azar - grunhiu o anão em resposta pouco benfazeja. 

Enquanto Bartolomeu examinava o caldeirão (com cuidado para não inalar os gases fétidos que ainda pareciam escapar de seu interior putrefato), Eldrin vasculhava reentrâncias nas rochas onde as bruxas poderiam ter guardado pergaminhos, livros e etc., Gato Preto resolveu explorar o fundo do covil. Lá, encontrou uma gigantesca caveira que parecia ser de um dragão jovem ou de um wyvern. 

- Viram isso aqui?

- Eu já. É estranho, não é? - falou Einar - Parece que tem umas alavancas aí dentro, acho melhor não mexer... - mas Gato Preto não ouviu, pois tal como um pequenino, foi tomado de grande curiosidade e enfiou a cabeça dentro de um dos amplos buracos que outrora devem ter abrigado os olhos da criatura. Viu que, de fato, havia cordas de sisal, algumas roldanas e alavancas (como Einar descreveu). Observou, ainda, que aquele crânio era grande o bastante para abrigar um tipo bizarro de assento esculpido com ossos para que alguém ali dentro se sentasse. Sentiu, então, uma vibração e ouviu um estalo.

- Gente! Isso aqui está vivo! - foi só o que teve tempo de gritar o ladino antes que aquela criatura estranha começasse a pairar no ar e, de um modo bastante desajeitado, iniciasse um voo sem rumo pela caverna.

Ahahahahahahaha! Todo mundo ouviu a risada sádica ecoar pela caverna.

- Lidna! - Bartolomeu gritou em desafio.

- Cuidado, se abaixem! - berrou Einar quando a caveira voadora passou por eles. Gato Preto estava preso a ela e, ao invés de tentar se desprender, preferiu agarrar-se ainda mais a ela, como quem tenta domar um cavalo xucro.

O gigantesco crânio voador, então, empreendeu um voo torto e capenga, chocando-se contra o teto da caverna, provocando com isso um grande e vigoroso estrondo. Gato Preto saltou no último instante, temendo se ferir com o solavanco. Caiu de mau jeito e torceu o tornozelo, mas com o corpo quente, sentiu o impacto apenas como uma fisgada de leve – nada que lhe prejudicasse os movimentos.

- Esse troço tem cordas, alavancas e até mesmo um assento! Não é um monstro, é um trenó mágico! - gritou Gato Preto.

Todos ainda podiam ouvir com clareza os risos e gargalhadas sádicas ecoando pela caverna, reverberando em cada saliência da rocha de modo absolutamente enlouquecedor.

- Quem diabos está rindo? O que está acontecendo? Mostre sua cara!!! – gritou Bruenor, com o machado em mãos, olhando fixamente para o crânio que, enquanto isso, arrastava-se com vigor pelo teto rochoso e saliente.

- É Lidna! Ela está aqui! - gritou Bartolomeu

Roncos fortes como trovões estalam por onde o crânio passa naqueles breves instantes. É o som de sua estrutura óssea raspando e trombando contra as pedras e raízes no teto. Gato Preto, Bartolomeu e Eldrin estão convencidos de que se trata de algum tipo de veículo abandonado pelas bruxas em seu covil: um trenó mágico, imbuído nefastos poderes arcanos ou profanos. Einar foi quem primeiro examinou e viu o objeto, mas mesmo assim, não tirara conclusões tão açodadas quanto a dos colegas, pois a prudência indica que, em se tratando de bruxas, aquilo poderia ser tudo, inclusive uma armadilha mortal. Sem ter visto tantos detalhes, Bruenor foi o único que assumiu como premissa que, como crânios de criaturas mortas não saem voando a esmo por aí, só poderia se tratar de um monstro.

Todos estão certos e, ao mesmo tempo, também estão errados. Sem dúvida aquele troço pode ser encarado como um trenó voador, mas não se limitava àquilo. Poderia ser uma armadilha ardilosa das bruxas, mas então para que uma cadeira se não havia ninguém ali para controla-la? O modo ameaçador com que iniciou seu voo e a guinada brusca que quase atirou o astrólogo, Eldrin e Gato Preto contra o teto da caverna poderia indicar ser o astuto anão o verdadeiro dono da razão.

Mas o que logo percebem, quando o “trenó mágico das bruxas” começa um movimento circular sobre suas cabeças fazendo um arco paralelo ao teto sobre as cabeças dos aventureiros, batendo, fissurando e quebrando algumas rochas. É que talvez aquele crânio voador fosse tudo isso numa coisa só: uma inefável construção maligna criada para servir à sua ama em todos os aspectos desejados em seu design. Inarredavelmente serve ao propósito de transportar alguém, mas não é um cavalo dócil que responda a comando de qualquer ginete. Antes, parece-se com um pesadelo xucro e indomável, somente capaz de responder aos anseios daquele cuja maledicência seja até mesmo superior à própria essência da besta demoníaca. Sem dúvida sua aparência inerte é capaz de induzir o incauto a pensar ser um objeto inofensivo, atraindo-o para suas mais desengonçadas investidas, as quais poderiam matar uma pessoa comum. Contudo, toda armadilha tem uma lógica que lhe é intrínseca e é passível de ser decifrada e mesmo as mais traiçoeiras arapucas mágicas podem ser entendidas e desarmadas por um experiente ladino e aqui, todavia, o objeto reage de forma única e improvável às ações dos aventureiros, que se não fossem tão experimentados, já poderiam estar mortos. Por outro lado, uma criatura seria capaz de provocar alguma empatia, ainda que do pior tipo. E ali os aventureiros estão diante de algo que PARECE inanimado, mas não é. 

As rochas começam a se desprender e a cair. A caverna não deve colapsar, mas a hipótese não está descartada. O que preocupa, mesmo são os blocos cada vez maiores de pedra que caem aleatoriamente conforme o crânio perturba aquele local.

“Será?”, pensou Eldrin, “Será que as bruxas eram artífices poderosas o suficiente para criarem um objeto mágico não só lhe imbuindo do feitiço desejado, mas também emprestando-lhe uma parte de sua própria personalidade?”. O feiticeiro mal conseguiu terminar de formular o pensamento e um bloco de rocha trincado desprendeu-se do teto caindo ao seu lado, o que o trouxe para a realidade daquele inusitado encontro.

Tudo isso se passou em poucos segundos que pareciam uma eternidade no pensamento dos aventureiros que olhavam atônitos para o descontrole da cena. O trenó completa apenas cerca de metade do seu arco, esbarrando em quinze metros lineares de rochas e depois mergulha uma descida furiosa em direção aos aventureiros, como um estouro de boiada.

****

Uma confusa batalha se segue. Gato Preto, Eldrin e Bartolomeu engajam numa inútil tentativa de domar o trenó mágico (como se isso fosse possível). Bruenor acertou o "monstro" (como via aquilo) pelo menos umas duas vezes quando ele deu um rasante sobre sua cabeça. 

Logo fica claro para os aventureiros que o trenó não é um simples veículo para a bruxa, mas sim algo realmente imbuído de um espírito maligno capaz de tomar decisões. Ou essa seria uma de suas certezas, pois em dado momento, entre as luzes dançantes das tochas de Einar e Gato Preto, através das quais saltam os aventureiros num balé de movimentos rápidos e precisos, palavras de poder arcano e encantamentos divinos, notam  uma distorção planar e uma sombra fugaz passar pelo limiar entre a quinta-essência e a própria materialidade. Seria talvez imperceptível, afinal se trata de uma sombra carregada de malevolência que ao ser avistada pode fazer pesar a cabeça mesmo do mais valente paladino de Heironeous! Mas um descuido a fez ter passos pesados e as pedras de cascalho no chão se moverem como berlindes. Sim! É ela, Lidna, arrastando sua carcaça da qual exala toda podridão, com seus chifres contorcidos e seu olhar perverso. Ela está perto de seu caldeirão. Os aventureiros quase podem ouvi-la chamar por ele e por todas as coisas que são suas e estão ali, quase perdidas. Parece tranquila por saber que seus indesejáveis visitantes estão entretidos por demais para lhe fazer qualquer mal.

De chofre, Eldrin dispara um raio de fogo contra o trenó mágico. Gato Preto alcança uma das cordas de sisal que estavam, a esta altura, penduradas a balançando do lado de fora de sua carcaça e puxa a caveira para baixo, em sua direção. O golpe violento na corda fez com que o trenó guinasse em direção ao solo. O ladino saltou para longe como um verdadeiro gato. 

- Corram! Peguem a bruxa! - gritou Bruenor enquanto deslocava seu corpanzil para perto do trenó e lhe desferia dois golpes poderosos com seu machado.

Einar e Bartolomeu correram de volta rumo ao caldeirão. O jovem rastreador retesou seu arco e soltou uma flecha que atingiu em cheio a anca da bruxa! Lidna já está próxima ao seu caldeirão. Seus olhos ardem de ódio e sua boca repleta de presas se abre exalando cheiro fétido:

- Eu tentei lhes oferecer a nossa hospitalidade! E o que fizeram? Mataram minhas irmãs e destruíram minha casa! Agora, insolentes, retornaram para ver o que sobrou, coletar seus espólios? A Cabala da Chama Eterna existe há centenas de anos! Huhuhuhuhu! Eu vi o seu futuro! Estejam certos que Istus já teceu as teias do seu destino! Nada é de graça e nada é por acaso, não é mesmo língua de Syrul?

Bartolomeu enrijeceu. 

- Nada é de graça! - prosseguiu a bruxa - Mas você se dobrará à nossa vontade, porque a Severa Senhora nunca se engana! – ela direciona tais palavras ao Bartolomeu, e então se dirige aos demais, com ar triunfante e misteriosamente sádico mira em Einar - Você entenderá! E saberá nos encontrar! E quando isso acontecer, talvez tenhamos algo a lhe oferecer! Hahahahahahahaha!!! – ela toca no seu caldeirão e desaparece num piscar de olhos, rápido, como se engolfada numa trama arcana que percorreu os confins do plano das sombras para agarra-la e traga-la para o inefável.

- Não! Merda!!! - gritou Bartolomeu, lamentando que a bruxa tivesse escapado com o caldeirão.

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Eldrin e Bruenor deram cabo do trenó, que se despedaçou no chão.

Reunidos no covil, decidiram rapidamente que nada mais tinham a fazer ali. Recolheram alguns objetos que lhes pareceram úteis e saíram pelo mesmo local em que entraram. 

- Temos que pegar a Laura e dar o fora desse lugar - falou Eldrin - A bruxa deve ter uma conexão com este covil. Ela ficará mais fraca com o tempo, até que ela encontre outro, mas até lá seremos presas fáceis para essa feiticeira. 

- E iremos para onde, então? - gritou Bruenor, irritado e ainda acelerado pela luta.

- Para Preston! - respondeu Bartolomeu, prontamente.

Einar abaixou a cabeça e assentiu, mas não parecia confortável com a decisão e retornaram para a cabana. Colocaram Laura e o corpo do soldado desfalecido sobre o lombo do cavalo de Einar e rumaram para a civilização.