Estrada para os Montes Resolutos - 29° ato

Laura

Com colaboração de MestreCavernoso e Einar

Enquanto isso Einar tinha saído da cabana, ansioso por buscar as duas vidas que ainda poderiam existir. Laura pegou Edwin e saiu, fugindo. Para onde ela foi, para onde ela foi? Conheço essas matas, sei onde ela pode ter se refugiado, só preciso de uma direção. E o jovem mateiro procurava pistas que levassem até sua criada, mas a chuva e a escuridão tudo ocultavam.

Nem Bartolomeu, que pegou a boneca e saiu da cabana, conseguiu ver algum rastro. Toda a região fora pisoteada e encharcada. Como não conhecia Laura, nem Edwin, orou para que Wee Jas lhe mostrasse onde estava a lamparina com o óleo que ele ainda tinha nos dedos, e a Senhora dos Olhos Escuros atendeu sua prece: a vinte metros de onde estavam, próxima a uma árvore. O sacerdote suspirou com tristeza. Perto demais para ter sido salva.

Einar, veja: a lanterna de Laura - disse, mostrando o objeto.
A lanterna. Ela só pode ter se refugiado no armazém. Poderá estar a salvo - disse o jovem, com esperança em sua voz.

Bartolomeu preferiu guardar seus pensamentos pessimistas para si. Que o jovem Einar crie suas expectativas e as desfaça por si mesmo. Os anos se encarregarão de dotá-lo desse ceticismo que as pessoas costumam chamar de sabedoria. Com sorte, não o tornarão também um cínico.

O jovem Einar esticou o braço para abrir o alçapão que levava ao rústico armazém que Martin pouco utilizava. Com o lume de sua lamparina iluminando o caminho, desceu as escadas com cautela, pois não sabia o que podia encontrar ali. Um murmúrio podia ser ouvido, baixo como um gemido. Os caixotes e barris que dividiam espaço com ferramentas e um pequeno defumador, num canto protegido de maneira precária por uma cortina, lançavam sombras mais ou menos profundas no ambiente, mas, atrás da cortina, o vulto de uma pessoa podia ser entrevisto, sentada no chão. 

Bartolomeu e Einar se aproximaram. 

Laura?

Silêncio.

A cabeça estava baixa, joelhos dobrados e as pernas comprimidas contra o peito. Mas Einar reconhecia as roupas e o cabelo preto, liso e embaraçado. Ao chamá-la novamente, ela ergueu o rosto e ele pôde ver que suas feições, antes gordas e de bochechas sempre rubescidas, estavam magras e pálidas, marcadas por rugas e sulcos. Seus olhos estavam úmidos e negros, como se as pupilas tivessem tomado quase toda a órbita. Tentou balbuciar alguma coisa, mas as palavras morriam antes que o som saísse. Levantou-se, esfregando as mãos nas roupas sujas de sangue, placenta e lama. Aproximando-se de Einar, recuperou a voz e o pranto:

- Eu lamento! Hãããããã – Laura emitiu um gemido de dor e choro – Eu lamento! Senhor, ela o levou! Os olhos dela! Aqueles olhos! Meu bebê! É minha culpa é minha culpa! Dama Rubra, o que você fez? Severa Senhora, o que eu fiz?

Bartolomeu franziu forte o cenho ao ouvir a aia chamar Wee Jas de "Severa Senhora". Ele sabia que aquele era um dos epítetos de sua deusa, mas jamais ouvira alguém chamá-la dessa maneira. Ninguém, a não ser as bruxas da Cabala do Fogo Eterno. Seus olhos profunda e exageradamente negros denunciavam que ela fora vítima de algum encanto. O que fizeram com essa mulher?

Os aventureiros tentaram interrogá-la, mas Laura não falava se não palavras desconexas, frases sem início, meio ou fim, e às vezes nem isso, mas apenas palavras interrompidas na metade, entre gemidos, soluços, gritos de desespero e pedidos de perdão. 

Einar entrou numa espécie de transe, enquanto Eldrin e Gato Preto ouviam a tudo, tentando fazer sentido das palavras. A fala desconexa de Laura parecia criar uma aura de desesperança e vazio, os pensamentos dos aventureiros sendo tragados para a dor que ela sentia. Arrependimento, culpa, horror. A ambiente estava pesado, a luz da lamparina tornava-se sutilmente mais tênue, bruxuleante, nos cantos do armazém.

O som surdo da queda do corpo de Laura no chão interrompeu essas sensações. Por cima dela, Bartolomeu, com a mão ainda meio cerrada do golpe na têmpora que levou a aia ao desmaio. O sacerdote sentiu o olhar pesado de censura que lhes dirigiram seus companheiros. 

Ela está em choque. Ou louca. Alguém que levou Edwin fez alguma coisa com ela, e perder tempo aqui só vai piorar o estado dela e tirar nosso foco das questões que podemos tratar agora. Depois cuidamos dela.

As palavras e o gesto do sacerdote traziam um pragmatismo insensível para a situação, mas ninguém ousou questioná-lo. Gato Preto e Eldrin (e também Bruenor, do lado de fora do armazém, de guarda) conheciam bem essa frieza, pois estavam presentes quando o companheiro torturou um homem-lagarto, torturou e assassinou um orc, um druida ûr-flan e um goblin (chegando mesmo a consolar este último, momentos antes da punhalada) e ainda executou à sangue frio um aventureiro do grupo. Tudo isso independente da patrulha moral de Duncan e Wurren e suas censuras. O sacerdote flertava com um caminho sinistro, e a dúvida era se sua fé estava moldando seu comportamento ou se ele sempre fora assim, e até que ponto ele conseguiria, em meio a tantos feitos de moralidade questionável, manter-se íntegro.

Bartolomeu entendia o olhar de reprovação dos companheiros, e invejava a ingenuidade hipócrita deles. Talvez ele teria se mantido tal como eles eram, não fossem seus anos de cárcere, comendo comida podre misturada com terra, lambendo o chão úmido do orvalho da madrugada para saciar a sede; vendo companheiros sendo esfaqueados por outros companheiros enquanto dormia, sendo torturado por puro sadismo ou pela denúncia de algum prisioneiro que inventava uma história para conseguir um prato de comida fria. 

Fora miraculosamente poupado da morte por gangrena e dor (física e psíquica) inúmeras vezes, graças ao seu pragmatismo, ao seu ódio e seu apego a fazer diferença com sua vida. Sua pele era marcada por perfurações, rastros de chicote, e seus dedos jamais tocariam flauta como tocavam em sua juventude, pois eram tortos, rijos, fruto das incontáveis vezes que foram quebrados, destroçados, esmigalhados. Não sabia como mantivera todos, nem como conseguiu consertá-los razoavelmente, sozinho, com talas improvisadas, cuspe e qualquer emplastro remotamente medicinal de que dispunha. Era um sobrevivente, e faria de tudo para que aqueles com quem se importava também o fossem. Desacordar uma aia enfeitiçada e louca era a menor das coisas que estava disposto a fazer.

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Comentários

  1. Bartolomeu caminha sobre a linha tênue que divide o bem e o mal, o que quer que essas coisas signifiquem pra ele.

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