Estrada para os Montes Resolutos - 28° ato

às vezes, o inimigo está debaixo de nossos lençóis, e não temos como saber. Fonte: BnF, Français 96, fol. 62v


com colaboração de MestreCavernoso e Einar


Antes que Bruenor, Eldrin e Gato Preto pudessem reagir, mais três cães surgiram. Iniciou-se uma luta encarniçada. Bartolomeu e Einar, dentro da cabana, ouviram uma risada aguda e maligna ecoar pela casa.

Ugrasha? - Bartolomeu pensou em voz alta, um cheiro forte de carniça invadiu a sala. Se levantou a tempo de ver uma luz verde tenebrosa sair da lareira e, com ela, um crânio descarnado flutuando, olhos ardendo com uma alaranjada chama infernal e uma aparência e risada estranhamente familiares.
Nhanhanhanahnhááááá. Procurando seu filho, Einar?– uma risada fanha e rouca como um grunhido de uma besta invadiu a cabana. Einar sentiu uma fisgada na cabeça e prendeu a respiração por breves instantes, numa tentativa vã de controlá-la, mas era impossível. Esvaziou os pulmões e continuou a arfar como se tivesse corrido da Colina do Gancho à Bissel*, tal como na história que Martin tinha lhe contado.
Onde está Elin? E Edwin? -Einar perguntou, preparando e soltando uma flecha certeira no estranho inimigo.
Nhenhehahahahaha Nhanhanhanhanháá– a risada diabólica da caveira ecoou tão alto que até Eldrin, do lado de fora da cabana, conseguiu ouvir e sentir sua maledicência – Não há nada para você aqui Einar! Teve audácia de vir até Ela, de adentar em seu bosque, em seu covil, de lhe aborrecer com seus assuntos enfadonhos e então refuga?! Nhenhehahahahahha Nhenhehahahha Nhanhanhanhanháá. Quando pôs os pés nestes bosques e seu coração clamou em desespero Ela te ouviu e ali sondou seu coração e lhe acudiu! Você estava disposto a tudo! Achou que poderia refugar? Isso não se faz! Nhenhehahahahahha Nhanhanhanhanháá! 

Einar tentava falar, mas sua voz falhou.

Pensou que desfaria o pacto, Einar? Nhanhanhanhanháá. Pensou errado, mortal. -o crânio continuou. O pacto não pode ser desfeito, não, não pode. Se arrependeu, tolo? - raios de chama foram atirados na direção de Bartolomeu e Einar, que conseguiram se esquivar.
Diga, maldita, foi Lidna que explodiu nessa cabana? - e Bartolomeu convocou a Adaga Rubra, arma de Wee Jas.
Nãão, não foi não. Lidna está bem, obrigada por perguntar. Nhanhanhanhanhááááá!! - três mísseis de energia são disparados na direção de Bartolomeu, que rodopia, mas eles acompanham o giro e o acertam nas costas.
ONDE ESTÁ MEU FILHO??? - o arqueiro lança uma flechada com tanto ódio que ela sai sem direção, cravando em uma viga de madeira logo atrás da criatura.
Duas vidas pelo preço de uma, duas vidas pelo preço de uma. Você não pode se arrepender depois de rastejar pedindo ajuda, nhanhanhanhanhá. Você refugou! Não consegue compreender? Nhenhehahahahahha! Você é muito estúpido! 
Diga onde está o filho de Einar, demônio! - e Bartolomeu desferiu um golpe tão violento que fez o crânio sair girando pela sala até se chocar contra a lareira.
Lidna não se esquecerá de você, Impostor de Syrull. Você e todo seu sangue imundo, passado e vindouro, irão... - mas a adaga de Wee Jas esfacelou o crânio em mil pedaços, não deixando que ele concluísse a maldição. Um grito agudo, como o som de dor de uma bruxa, pode ser ouvido dentro da cabana e por todos fora dela.

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Ao mesmo tempo, era derrotada a última das bestas-fada, criaturas com corpo de um enorme cachorro e uma cabeça com feições humanas, sem focinho, que os aventureiros já tinham encontrado no covil da Cabala da Chama Eterna. Quando a caveira foi estilhaçada, a criatura ainda tentou fugir, mas Gato Preto impediu, matando-a. Dirigiu-se, então, com Eldrin e Bruenor, à cabana, pois foram desfeitos o obstáculo de fogo e a luminosidade esverdeada que extravasava pelas frestas das janelas.

Com o fim do combate, as sombras pareciam menos opressoras, embora a noite continuasse muito escura e a chuva ainda caísse incessantemente, encharcando tudo. Os aventureiros sentiam os braços e pernas pesadas. 

Einar, não tendo obtido nenhuma resposta do crânio morto-vivo, olhava para a cabana revirada: reparou no pano ensanguentado, ainda com uma placenta mole no chão, próximo a uma bacia de água derramada. Próximo a cama, invisível a qualquer um dos aventureiros em meio à bagunça, aos panos e itens caídos, abaixou-se para pegar um pente: o presente que deu a Ellin quando se enamoraram. Ela nunca se desfez dele e o levava consigo onde fosse. Havia alguns fios presos a ele, finos e delicados. Só de tocá-los, seu coração se encheu de calor e pesar. Mas não sabia sequer onde estava seu corpo. Os olhos do jovem se encheram de lágrimas de amor, de saudade, de amargor e arrependimento. E vergonha também, uma vergonha inconfessável por ter tão desesperadamente amado sua mulher a ponto de negligenciar seu único filho e arriscar tudo ao procurar ajuda das bruxas. 

Mas ele não era mais um garoto. Não podia mais sê-lo, depois de tudo o que aconteceu. Conteve o choro, engolindo o pesar, o arrependimento e a vergonha, deixando nos olhos apenas o brilho do amor que sentia por sua mulher. Retesou a face, cerrando os dentes e tentando se acalmar. Limpou o suor e a lama presas ao rosto enquanto começava a revirar o quarto em busca de pistas do que aconteceu ali em sua ausência. 

Na cama ainda estavam o lençol e o cobertor em que sua amada Ellin se aqueceu nos últimos dias. Não pareciam ter sido revirados, ao contrário do restante da cabana. Quando os levantou, sentiu o cheiro floral de sua esposa. Afastou as lembranças que tentaram assaltá-lo, com medo de não conseguir se controlar mais. Viu que sob a cama havia uma miúda poça de sangue, o que era estranho, pois o parto se dera na cadeira, e não ali. Examinou com atenção, reparando que um pingo de sangue escuro e viscoso escorria do estrado da cama. Einar abriu violentamente o colchão de palha com sua adaga, arrancando, desfazendo com suas mãos o próprio fruto de seu trabalho, rasgando lençol, derrubando o que porventura estivesse ao alcance, sem cuidado com aquilo que, com tanto trabalho, suor e dedicação transformara em lar, um lar para sua mulher e para seu filho.

No meio do colchão de palha havia uma boneca tosca, feita de cânhamo, costura grosseira, sem olhos, sem boca, com aspecto vagamente um boneco hominídeo. O objeto seria completamente inexpressivo se entre os vãos de suas pernas não houvesse um rasgo grosseiro e por ela a boneca não tivesse sido recheada com algo pútrido. O cheiro era nefasto. Não era uma podridão natural. Ela parecia se propagar no ar, e Bartolomeu imediatamente percebeu que aquilo era um trabalho, uma bruxaria. 

Einar manuseou o boneco com perplexidade, não querendo sobre ele fazer qualquer juízo neste momento. Furou o dedo em um alfinete enterrado na barriga do boneco e percebeu que o recheio foi feito com tripas de bode. Perfurado pelo alfinete, o sangue podre manchou o cânhamo e escorreu pela abertura entre as pernas. Einar sabia o que isso significava e, nada obstante o esforço, sentiu horror e asco, largando-o. Desde quando estava ali? E como? Seria ele a causa de tudo? 

Seria essa boneca a causa de tudo? Raiva tomava o jovem, que tinha sua casa devassada por estranhos. Queria que eles sumissem, um a um. Mas eles o ajudaram. Não estaria vivo se não fosse por eles. Queria expulsá-los e agradecer a eles pela própria vida.

Mas e a vida de Laura? De Ellin? E a vida de Edwin? Ellin estava morta, no cavalo. Fui enganado. Essas eram as palavras que ressoavam em sua cabeça.

Duas vidas pelo preço de uma -deixou escapar em voz alta, como que em transe.
Há um rastro fresco de óleo aqui. Alguém pegou uma lanterna e foi para a noite -Bartolomeu esfregava os dedos besuntados, olhando a boneca com o canto dos olhos.

Bruenor, Eldrin e Gato Preto estavam parados, sem saber o que fazer. O mestre anão estava visivelmente afetado, perturbado com aqueles elementos que aos poucos iam sendo revelados: um homem desesperado que faz um pacto com as bruxas pela sua família, e é enganado de maneira vil por elas.

E pensar que você cogitou se aliar a elas, Bartolomeu! Se aliar àquelas demônias! - o anão cuspiu aos pés do sacerdote.
Nós vamos dar um jeito nisso, meu amigo. Vamos salvar o que tiver para salvar - disse o sacerdote de Wee Jas, colocando a mão no ombro do anão e olhando em seus olhos. Não havia mágoa: Bartolomeu sabia que o anão falava por frustração e dor, mas se surpreendeu com a empatia que o guerreiro nutrira em tão pouco tempo pelo jovem desgraçado. Jamais o vira assim.

As palavras sossegaram Bruenor, que continuou tossindo para esconder as lágrimas que cismavam em rolar, serenas.

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*uma antiga história popular que Martin contou a Einar relatava como Cronan, um jovem soldado de infantaria keolandês, correu da Colina do Gancho, no Grande Ermo, até Bissel, incansavelmente, para levar aos generais a notícia de uma invasão kettita iminente. Cronan ficou conhecido como o Filho de Kord, o Atlético. Muitas outras façanhas foram atribuídas ao Filho de Kord).

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