Estrada para os Montes Resolutos - 27° ato

Einar em seu cavalo, antes de toda a tragédia ainda não contada acontecer


com colaboração de MestreCavernoso e Einar

O homem coçava os olhos como se estivesse deitado há muito tempo, dormindo ou desmaiado. O arco continuava em punho, com uma flecha na outra mão. Parecia ter visto poucas primaveras em sua vida, e a última tinha lhe sido especialmente brutal, a julgar pelos olhos fundos. Bruenor demandou que o jovem dissesse quem é.



Einar.
– E eu sou Bruenor e estes são meus companheiros
-os demais acenaram e, antes que pudessem falar, fora cortados.
Vocês viram uma mulher, jovem e bela?
Não, mas que diabos você estava fazendo aqui, caído no chão, ao relento, com um homem negro e poderoso em pé ao seu lado, e uma ninfa e um urso tentando se aproximar de vocês?
Não sei, eu não me lembro. Eu estava combatendo uma bruxa, e de repente desmaiei.
Bruxa? Nós combatemos três delas em seu covil, perto daqui, e apenas uma fugiu. Será que foi essa que você encontrou? Qual era o nome dela, Bartolomeu?
– Lidna. Me diga, há quanto tempo isso aconteceu?
- o sacerdote queria situar as duas histórias no tempo.
Vocês viram uma mulher, jovem e bela, no covil das bruxas? - Einar olhava fixamente para aquele que o anão disse ser Bartolomeu.
Não havia nenhum corpo de mulher naquele antro. Apenas corpos de homens, todos soldados - o sacerdote forçava a memória, tentando se lembrar de algum vestígio de uma camponesa, mas não havia um fiapo de lembrança: eram todos homens.

Ele teria reparado, assim como reparava agora, a dez passos de distância do jovem, em meio a uma chuva forte, que seu pescoço era ornado por uma amuleto religioso, um círculo negro com sete estrelas que parecia estranhamente familiar para Bartolomeu, ainda que ele não soubesse dizer nada além disso.

Mas me diga, há quanto tempo você encontrou Lidna? -Bartolomeu repetiu a pergunta, e havia certo imperativo em sua voz, o bastante para cortar os pensamentos em que Einar se afundava.
Ainda não tinha anoitecido totalmente. Lidna... Era a hora do crepúsculo, o momento apropri -Einar cortou as próprias palavras, mais por dor que por cautela- Têm certeza de que não encontraram nenhuma mulher? Uma jovem, bela? -a voz de Einar ganhava um timbre desesperado, como se ela se partisse no meio das palavras.
Certeza de que não encontramos nenhuma. Ela se encontrou com você antes de a encontrarmos, pois quando chegamos ao covil já era noite densa. E já se passaram três horas desde que ela fugiu. Estava ferida. O que você veio ter com ela? - perguntou o sacerdote de Wee Jas.

O jovem Einar não parecia mais ouvir. Andava de um lado para o outro, já sem empunhar o arco, que estava nas suas costas. Olhava com atenção o chão, buscando as pegadas de seu cavalo, mas a chuva, a noite e a terra encharcada dificultavam a procura. O animal estava comigo, estava com ela, antes de se assustar com a bruxa e sair em galope. Assoviou, chamando o cavalo treinado, mas com aquela chuva forte seu chamado seria abafado a pouca distância de onde estava. Levantou a cabeça de repente: A cabana. Meu filho, pensou. Com os olhos desesperados e mareados, se dirigiu aos aventureiros:

Escutem, tenho um pedido a lhes fazer: preciso encontrar meu cavalo. Não: preciso retornar a minha cabana, sim, a cabana. Laura, Edwin. Se vocês a expulsaram do covil, talvez ela vá para lá. Preciso voltar, um de vocês pode vir comigo em meu cavalo, eu preciso... -a chuva abafou o soluço de pesar que tomou o coração do jovem, e camuflou as lágrimas que rolavam em seu rosto. 

Einar não ouviu Gato Preto dizer que o ajudaria, nem os protestos de Bruenor, pois já se dirigia, em desabalada carreira, pelas matas. Não havia cavalo algum.

Ele está desesperado, e se Lidna estiver em sua cabana, será nossa chance. Vamos! - Bartolomeu seguiu o jovem desconhecido, acompanhado dos demais. 

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A cabana ficava próxima da clareira. Einar arfava, mas continuou se dirigindo à porta entreaberta de sua morada. A vegetação em volta estava estranhamente seca, com galhos retorcidos e sulcos profundos na terra, como se um raio pequeno em torno da cabana tivesse experimentado um inverno rigoroso -coisa que não fazia o menor sentido, pois toda o restante da floresta estava verde, úmida, viva. Havia algo muito errado ali.

Bartolomeu chegou à porta da cabana junto com Einar. Enquanto isso, uma daquelas bestas-fada deu um bote em Bruenor, saltando de um arbusto murcho. Uivos. Havia mais deles.

Einar não encontrou ninguém na cabana, apenas duas lamparinas acesas. A cama estava vazia, as cadeiras tombadas, nenhum sinal dos seus. Enquanto ele ia de um lado para o outro do aposento, Bartolomeu estancou sob a entrada: havia um inconfundível cheiro de bruxa queimada no ambiente. O sacerdote deu as costas para a cabana, chamando seus companheiros:

Há mais bestas pelas matas: venham se abrigar na cabana, há um cheiro estr- AHHHH!! - as palavras do sacerdote foram interrompidas enquanto ele era arremessado para dentro da cabana, batendo forte em uma das paredes, uma coluna de fogo impedindo que qualquer de seus amigos adentrasse no recinto.

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