Estrada para os Montes Resolutos - 26° ato

para aqueles que sabem o que procurar, o céu de Flaeness é cheio de respostas


Eldrin recuperou sua forma normal, de meio-elfo. Ele próprio parecia bastante surpreso com a transformação que fizera: para o jovem feiticeiro, a magia ocorria espontaneamente, fruto de uma força que fluía por suas veias; daí seus avanços serem de certa maneira imprevisíveis, como um rastro que ele sentia e seguia, uma possibilidade entrevista mas, a menos que experimentada e controlada, que não se podia saber ao certo o resultado. Aquela transformação era fruto de uma dessas sensações, uma sensação de algo que poderia acontecer. Não um macaco gigante, mas algo.

Descansaram por um tempo na caverno úmida, recuperando o fôlego da batalha com as bruxas, o desmoronamento do salão, o corredor inundado e os cães-fada. Não havia mais ninguém ali além deles e do corpo do soldado, que a muito custo Bartolomeu conseguiu salvar. 

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Bruenor se levantou, impaciente. Aquele buraco sinistro na terra não o agradava nem um pouco. O anão estava num estado permanente de tensão desde que adentraram a capela de Wee Jas, e o incômodo só se agravou desde que entraram pelo portal. Corajoso e teimoso, não verbalizou o desconforto, mas não conseguia esconder a tensão e o mal estar: olhava constantemente para os lados, o músculos do braço estavam sempre tensionados, buscando a segurança do cabo do machado sempre à mão, os olhos semicerrados, à procura, desconfiados de qualquer nuance na escuridão que seus olhos podiam perscrutar. Mortos-vivos e criaturas das trevas causavam temor no experiente anão, acostumado a inimigos menos sobrenaturais, como orcs, gigantes, goblins e trolls. As próprias energias que Bartolomeu manipulava em seu flerte constante com a morte arrepiava os pêlos de sua barba. Mas ele se mantinha firme e quieto, sem nunca recuar.

O covil era pequeno e estava mais para um antro, cheio de bugigangas, montes de tralhas ao lado de prateleiras com algum senso de organização, mas uma busca rápida revelou o que tinha para ser revelado. Em meio a caveiras humanas com olhos que tinham uma tênue luz avermelhada, alguns tomos antigos, um caldeirão no chão, pilhas de ossos, pentes, raízes retorcidas e amarradas em um padrão estranho entremeadas de sementes e pedras, espelhos partidos, farrapos costurados sem formato regular, frascos gosmentos e um grande crânio de um animal que tinha alguma semelhança com um dragão ocupavam o pequeno aposento. 

Gato Preto pegou alguns frascos que tinham poções mágicas. Preferiu não pensar nos ingredientes utilizados em sua confecção, e pensar apenas no proveito que teria com seu uso. Bartolomeu pegou uma caixinha finamente decorada, trancada, em cujo interior havia algo claramente maligno. Investigaria sua natureza quando tivesse tempo, mas parecia algo importante. Eldrin chamou o sacerdote, apontando para um livro velho, aberto em cima da mesa.

Tratava-se do diário da bruxa sobrevivente, Lidna, e estava escrito em keolandês arcaico, língua que Bartolomeu domina, tendo mesmo convivido com alguns falantes nativos dela, quando de sua criação entre os elfos. O diário continha os resultados das pesquisas e investigações da Cabala, relatando sonhos, achados, profecias e suposições. Havia notas com caligrafia distinta, como se outras pessoas consultassem o tomo. O livro parecia demasiado importante para ter sido deixado para trás, o que indicava que, de fato, a bruxa não teve tempo de passar em seu covil.

Lidna relatava, por exemplo, sua busca pelos conhecimentos perdidos da Cabala, denotando o Livro das Horas de Rilikandren (encontrado com Bellak, e levado por Wurren quando ele deixou o grupo), o Livro de Borob (o Tomo da Língua Silenciada encontrado em Stonebridge e que, segundo Ânn, teria sido roubado da biblioteca de Niole Dra, deixado aos aventureiros como herança e levado por Duncan quando ele deixou o grupo), o Pergaminho de Feann, Os Fragmentos Sobrenaturais de Calga e o Enquirídio de Turi. Eram esses, segundo se podia compreender, os cinco tomos secretos considerados sagrados para a Cabala, os quais reuniam material suficiente para reacender a chama dos antigos conhecimentos arcanos do povo suelita:

A mágica está se esvaindo do mundo aos poucos porque seu uso foi banalizado e poucos são aqueles que se dedicam ao estudo genuíno de suas fontes. É que o poder arcano deve ser minerado como um metal precioso que está enterrado na terra e quanto mais se usa esse poder mais escasso ele se torna, até que alguém descubra uma nova numa camada mais profunda de conhecimento, um novo veio, uma nova fonte. Os conhecimentos perdidos da Cabala poderiam ser o mapa para uma nova era de poder arcano em Oerth!


Tais eram as considerações das bruxas. Bartolomeu parou um instante para pensar em seus antigos companheiros, e desejar que eles estivessem bem. Enquanto os demais ainda tentavam encontrar algo de valor no antro da cabala, Bartolomeu retomou a leitura, até parar em uma seção que lhe capturou a atenção. Começou a ler em voz alta um trecho do diário que tratava de Celegail.

Lidna narrava como seduziram a pequena Celegail no passado, a descrevendo como uma menina rebelde, que queria sentir-se livre das amarras dos pais e ver o mundo; como não podia, encontrou nos livros da Capela de Wee Jas inspiração para preencher sua realidade com as histórias que não podia viver. Lidna descreveu como a Cabala se aproximou da pequena, disfarçando suas intenções, seduzindo-a aos poucos com promessa de liberdade e poder (poder para ser livre e protagonista nas histórias, em vez de só ler a respeito delas). Eventualmente, convenceram Celegail a fugir de casa e se abrigar com as bruxas, adotando-as. Lidna conta que ela e Igna trataram muito bem a menina por um ano, nutrindo seu espírito com ensinamentos sobre Wee Jas e o panteão suelita e seu corpo com as mais suculentas refeições. Até que ela ficou bem gordinha. Então, um dia, a surpreenderam com uma perversa lição sobre criancinhas que abandonam os pais, desmembrando-a e tirando seu couro de forma a prolongar ao máximo seu sofrimento, torturando até mesmo sua alma para, então, cozinhá-la em seu caldeirão e consumi-la numa pérfida refeição. Segundo o relato, foi assim que Lidna emprenhou e pariu Celegail novamente. O diário conta, ainda, que faltavam alguns poucos anos para que Celegail se tornasse uma bruxa definitivamente, lamentando que estivesse adquirindo características das bruxas annis.

Bartolomeu ergueu os olhos do diário e fitou seus companheiros. Estavam todos paralisados, afetados com a perversidade da história, e como as bruxas se reproduziam. Mesmo com todas as coisas que já presenciaram, jamais suspeitariam que essas criaturas fossem tão vis. Nas páginas finais do diário, escritas há quatro semanas, Lidna contou que viu nove nomes no caldeirão, durante um ritual de augúrio que frequentemente fazia, os anotou e guardou no mausoléu da vó Irga (essa era a lista de nomes que Bartolomeu encontrou e guardou). Ela também viu um homem de mantos brancos cavalgando um wyvern. E suas vestes estavam manchadas por ciúme, traição e morte.

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Após todas essas relevações, e não se tendo encontrada nada mais de valor no covil, era hora de se preocuparem com uma coisa bastante importante: como sair daquele buraco? Não podiam voltar ao salão, e, ainda que o pudessem, não tinham mais nenhum pergaminho com a magia Escuridão, que foi a chave para adentrar no recinto das bruxas. Deveriam buscar uma saída naquela caverna. Bruenor, o mais acostumado ao subterrâneo, percebeu que o ar não era confinado como o de uma caverna normal e, se concentrando, pode sentir um cheiro de frescor no ar; não chegava a ser uma brisa, e sim um cheiro, e vinha do lago. 

Com efeito, havia uma piroga no meio do lago. Bartolomeu a puxou, valendo-se de sua corda com arpéu. Couberam todos ali, um pouco apertados. Com auxílio de uma longa vara jogada na margem, atravessaram o lago, passando por uma passagem estreita e sinuosa, até chegarem a uma caverna inundada cuja entrada era escondida por uma cachoeira barulhenta. Não havia correnteza, apenas um filete de água escorria para fora da gruta. Atracando em uma das margens, buscaram uma saída, uma vez que a queda era muito alta, desaguando num rio caudaloso como o Javan, que tiveram que atravessar para chegar a Preston. Talvez fosse o próprio.

Bruenor distinguiu uma escadaria precária escavada na rocha úmida do exterior. Era uma passagem perigosa, pois qualquer escorregão implicaria em um mergulho profundo junto ao final da cachoeira. Com toda a cautela, chegaram ao topo.

Chovia fino e as nuvens não recobriam todo o céu, deixando pequenas falhas que permitiam entrever o brilho suave das estrelas contrastando na escuridão do manto da noite. Era o suficiente para Bartolomeu, íntimo conhecedor das estrelas de Flaeness, se orientar: pela posição da Donzela dos Mares, a estrela que representa a carranca/timoneira da constelação de Cachalote, o barco lendário de Osprem, deusa suloise dos mares, os aventureiros estavam um pouco mais ao sul da capela de Wee Jas, talvez a um dia de voo de pássaro. Seria uma caminhada longa, embrenhados nas matas, até Preston. O rio era de fato o Javan, e ainda não se podia sentir o cheiro dos pântanos. Não tinham ido muito a leste, felizmente.

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O céu se fechou repentinamente e a chuva se tornou pesada. Os mantos, encharcados já há alguns dias e ainda mais após a inundação do corredor no covil da Cabala da Chama Eterna, não apresentavam mais nenhuma resistência à água. A sensação era incômoda, mas não havia por que reclamar, nem remédio para o problema, nem aguardente para aquecê-los, então apenas continuaram caminhando.

Não se passou muito até acontecer um encontro inusitado: numa clareira, um homem negro como ébano estava diante de um corpo caído, sendo desafiado por um enorme urso pardo e uma dríade da floresta. Porém, foi só o homem direcionar o olhar para os dois que eles se afastaram temerosos. Depois, olhou para os aventureiros, que sentiram suas pernas fraquejarem, os joelhos procurando o solo. Desapareceu de súbito.

A dríade sumiu nas matas, mas o urso investiu contra os aventureiros. Se Wurren ainda estivesse com eles, talvez pudesse acalmar a fera, descobrir se ela tinha fome, se tivera seu território invadido, ou se estava possuída por alguma vontade exterior. Sem a presença do druida, porém, o grupo tratou a ameaça irracional da mesma forma que está acostumado a tratar as bestas que encontram: fazendo-a se calar ante os ferimentos provocados pelo aço e pela magia. O urso não teve a menor chance.

Viraram-se ao mesmo tempo para o homem que havia se levantado, chegando mesmo a atirar uma flecha certeira no urso, antes do animal cair.

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