Estrada para os Montes Resolutos - 25° ato

o covil das bruxas não era desprovido de perigos: armadilhas e criaturas ainda testavam a resistência e bravura dos aventureiros

Os corpos das bruxas misturavam-se aos dos soldados, contribuindo para a cena de sacrifício macabro para a Deusa da Morte. Nada mais havia nos corpos se não trapos rasgados e vísceras. As duas saletas ao redor não ofereciam mais nada, aparentemente, mas Bartolomeu não teve tempo de investigar a fundo, pois assim que Eldrin e o sempre furtivo Gato Preto colocaram os pés no grande salão abobadado, vizinho ao salão do ritual, as lajotas do teto começaram a se soltar, e mesmo as paredes apresentavam fissuras.

Enquanto os dois desviavam das pedras que caíam, Bruenor se apressava para também atravessar o salão. Bartolomeu, alarmado, correu para pegar o único corpo ainda vivo que encontrou, numa das saletas, fazendo apenas um gesto rápido mas preciso, que enviou um raio em direção ao portão gradeado que impedia o acesso ao corredor sul, que não parecia atingido pelo desmoronamento. O próprio salão em que ele se encontrava ainda estava incólume, mas em breve ele ficaria preso nele, pois não havia saída aparente. 

As rochas que caíam eram numerosas demais para serem evitadas, e mesmo as colunas já começavam a desmoronar. Graças  à fibra heroica de que eram feitos, o grupo conseguiu sobreviver ao que seria a morte certa para qualquer nobre ou camponês comum. Confiando no instinto e suportando a dor das pedras que resvalavam seus corpos, conseguiram chegar à segurança do corredor. Bartolomeu chegou por último, bastante escoriado, mas trazendo nos braços o corpo do soldado desacordado, que conseguiu proteger dos destroços. Gato Preto era o único que não tinha sido atingido por um  único pedregulho, atravessando incólume todo o salão, com uma agilidade e rapidez sobrehumanas.

O corredor era curto, tendo ao final alguns degraus que davam para outro portão gradeado. Quase ao mesmo tempo, todos se escoraram nas paredes e deslizaram até sentar no chão, recuperando o fôlego. e suspirando aliviados enquanto o salão terminava de desmoronar subitamente, lançando uma onda de poeira por todos os lados e empesteando o ar. Pretendiam fazer um breve descanso antes de seguir caminho.

Gato Preto decidiu investigar o que havia além do portão mas, ao se aproximar, acabou acionando algum tipo de armadilha, fazendo com que uma torrente de água varresse o corredor. Bartolomeu, Gato Preto e Eldrin foram arrastados com a violência da água, estatelando contra o portão, fechado, que dava para o salão arruinado. Bruenor, com suas pernas firmes de anão, conseguiu resistir ao impacto, e se dirigiu lentamente ao portão.

Enquanto o corredor enchia-se de água, os aventureiros tentavam sem sucesso retornar ao local onde estavam, mas apenas quando tudo estava quase submerso e a água tinha perdido sua força, conseguiram fazer avanços. Bartolomeu tentava se virar com o corpo do soldado, evitando que ele se afogasse. Conseguiu chegar ao portão, que Bruenor tinha levantado com esforço, submerso, e chegou ao final de outro lance de degraus, cujo topo estava seco. Começou a retirar a água que o corpo que carregava tinha ingerido ou respirado, fazendo uma massagem na caixa toráxica, aliado a alguns socos leves. Colocou o corpo de bruços e com alívio viu que a água saía. O meio-elfo não tinha muita experiência com afogamentos, então fez um monte de coisas que julgou adequado, e Wee Jas atendeu seus pedidos.

Ao mesmo tempo, Eldrin e Gato Preto tinham dificuldades, pois não estavam acostumados a nadar, e avançavam lentamente. Bruenor aguentava firme embaixo d'água, portão levantado, esperando os dois passarem. Bartolomeu ouviu uns barulhos estranhos vindo de trás, virando-se a tempo de ver seis bestas que pareciam cães, mas muito maiores e com uma cabeça enorme. Uivaram como deve uivar Cérbero, fazendo o frio percorrer a espinha daqueles que ouvissem, e partiram para cima do sacerdote, que só teve tempo de fazer uma prece para sua deusa. Ferido como estava, o meio-elfo não tinha a menor chance, e ele só teve tempo de fazer uma prece, pedindo a proteção de sua patrona, a deusa Wee Jas.

Wee Jas ouviu seu apelo, e cinco das seis bestas não conseguiram atacar, estancando suas bocarras a um palmo do sacerdote, que estava ajoelhado ao lado do corpo do soldado. Mas a sexta besta, ainda maior que as demais, cravou seus dentes no ombro direito de Bartolomeu, erguendo-o e arremessando seu corpo a três metros de onde estava, quase na água. O sacerdote caiu já sem sentidos. Foi nesse momento que Eldrin e Gato Preto surgiram, seguidos por Bruenor.

A batalha que se seguiu foi violenta. Os uivos das criaturas abalava até o mais corajoso dos aventureiros, mas ele se mantiveram firme. Eldrin, numa demonstração de puro poder mágico, se transformou em um macaco gigante, o Oozaru. Seus ataques eram inofensivos contra os inimigos, que pareciam invulneráveis ao ataques não mágicos, mas Bruenor e Gato Preto, que tinha armas mágicas, estavam usando todos os seus truques e resiliência para suportar os ataques das bestas e atacá-las.

Foi nesse momento dramático que Bartolomeu acordou. O clérigo estava entre a vida e a morte, sangue escorrendo e empapando sua túnica. Mas ele então recebeu o beijo de Wee Jas, despertando do torpor, não cruzando o portal por onde todas as almas anseiam passar, as margens do Aqueronte. A alma de Bartolomeu manteve-se firme e resistiu, angariando assim a graça de sua deusa. Uma dessas bestas estava a sua frente, então o sacerdote conjurou os poderes que regem a morte e esticou sua mão subitamente cadavérica, que entrou no flanco da criatura, transferindo parte de sua essência vital para o corpo combalido de Bartolomeu. A criatura caiu, dura, e o sacerdote se levantou, revigorado.

A maré da batalha mudou, e Eldrin/Macaco Gigante, percebendo que seus ataques eram incapazes de ferir, agarrou a maior das criaturas, estrangularendo-a com seus braços poderosos. Bartolomeu curou as feridas de Bruenor e, juntos, terminaram de matar as bestas. Por último, retalharam a chefe da matilha, presa por Eldrin em seu abraço mortal.

Todos respiravam, por fim, aliviados e também surpresos com a transformação que testemunharam o jovem feiticeiro realizar. Bartolomeu levou a mão ao seu símbolo sagrado, agradecendo a dádiva recebida. Estavam no que parecia ser o covil das bruxas, debaixo da terra, em meio a raízes grossas e retorcidas, estantes com livros, pergaminhos mofados, crânios, um caldeirão e o cheiro inconfundível de maldade no ar. Mas os inimigos foram derrotados.

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