Fantasia medieval e oralidade



Imagem de um skald (um bardo nórdico), encontrada aqui


Publicado originalmente em Bar dos Bardos e modificado pelo autor para A Cidadela

Introdução: a fantasia medieval e a oralidade

No mundo de Masmorras e Dragões (Dungeons and Dragons, vulgo D&D), assim como em boa parte dos cenários de fantasia medieval, temos magia, deuses que interferem direta e indiretamente nas vidas mortais, eruditos que viajam por variados planos de existência, reinos milenares e mais uma imensa gama de seres e acontecimentos fabulosos. Contudo, apesar de todas essas maravilhas, algumas características da ambientação medieval histórica permanecem. Foram feitos avanços para incorporar questões mais contemporâneas, em especial na 5ª edição, que inclui não apenas a igualdade de gêneros, mas também as discussões da "terceira onda do feminismo", quebrando a binaridade dos gêneros.

Ainda assim,  o analfabetismo fantástico permanece. O aldeão médio não sabe ler um tomo dos monstros de Flaeness nem escrever uma carta para sua amada. Os heróis geralmente não estão sujeitos a essas limitações, mas eles são a exceção, e inseridos num contexto em que, fora dos salões nobres e das bibliotecas nos templos de Delleb, o conhecimento e a história são contadas por meio da tradição oral. 

Os bardos têm um papel especial, num mundo iletrado. São eles quem levam, pelos diferentes povoados e reinos, as notícias, as histórias, bravatas e lendas dos homens e dos deuses, ajudando a construir o caldo de conhecimento popular.

Será o conhecimento que se propaga pela oralidade tão estático quanto nos diz o senso comum? Terá ele essa característica de permanência, de mera repetição ao longo de séculos? Claramente não é assim que funciona, e o texto que trazemos hoje ajuda a ilustrar a dinâmica da oralidade na construção do conhecimento histórico.

O texto de hoje é baseado no maravilhoso livro “O mundo de Odisseu”, de Moisés Finley, um pesquisador estadunidense radicado na Inglaterra por conta de acusações de ser comunista. Mesmo num mundo letrado e economicamente desenvolvido, o bárbaro que gostamos de atribuir às margens da história e do tempo sempre encontra um lugar cativo em nossas ações. Estará ele tão longe assim ou nós o atualizamos e alimentamos continuamente, com muros, preconceitos, autoritarismos e medos infundados?

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Exemplo de poesia heroica contemporânea

Na introdução ao livro de Finley, o pesquisador Bernardo Knox discute um pouco de que forma é possível usar um meio que não preserva os fatos históricos como fonte histórica -o caso da poesia oral heróica. Ele dá como exemplo uma pesquisa de 1953 de Tiago Notopoulos, em Creta, onde bardos orais ainda podiam ser encontrados. Esta será a primeira de algumas curiosidades encontradas no livro.

O pesquisador pediu uma história sobre a captura do general alemão a um bardo que tinha lutado na Segunda Guerra.

O acontecimento em questão é conhecido e documentado: em abril de 1944, um major e um capitão ingleses entraram em Creta, contactaram guerrilhas locais e sequestraram o general alemão em comando da ilha, Carlos Kreipe. O que se segue é uma tradução minha do relato contidos nas páginas ix a xii da Introdução de Bernardo Knox.

O general morava na Villa Ariadne, em Cnossos […]. Todos os dias, à mesma hora, o general ia de carro para o sul até a pequena cidade vizinha de Arkhanes, localização do quartel general, e retornava às oito para jantar em casa. Os dois oficiais britânicos, usando uniformes alemães, pararam o carro no caminho de volta para Cnossos e os guerrilheiros [partisans] cretenses subjugaram o motorista e o general. Os oficiais dirigiram então o carro, passando pelos os bloqueios alemães em Heraclião (o general silenciado com uma faca em seu pescoço) e deixaram o carro na estrada costeira para Retimno. Eles trilharam pelas montanhas para a costa sul até o local de encontro com o submarino inglês e levaram o general Kreipe para Alexandria, e depois para o Quartel-General do Oriente Médio, no Cairo.
Vejamos como essa história foi recontada pelo bardo.
Uma ordem vem dos quartéis-generais inglês e americano no Cairo: capturar o General alemão Kaiseri, vivo ou morto; o motivo: vingança por sua crueldade com os cretenses. Um guerrilheiro cretense, Lefteris Tambakis [o nome é real, mas ele não participou dessa operação], apresenta-se ao general inglês [o major e o capitão são combinados em uma pessoa de hierarquia superior] e se voluntaria para a perigosa missão. O general lê a ordem e o herói aceita a missão pela honra do exército cretense, se dirigindo então a Heraklion, onde ele fica sabendo que uma bela moça cretense é a secretária do general Kaiseri.
Disfarçado, o herói vai até a casa da moça, onde está apenas sua mãe. Ele então lê as ordens do general inglês para ela. Quando a moça retorna, ele lê novamente as ordens para ela. Dizendo que a honra dos cretenses depende dela, ele enumera as crueldades perpetradas pelo alemão. Se ela ajudar na missão, seu nome se tornará imortal na história de Creta. A moça consente e pede três dias para executar o que lhe foi pedido. Para que os cretenses obtenham sua honra, ela sacrifica sua honra de mulher ao general Kaiseri, assumindo papel de espiã. Ela entrega ao herói os planos do general para o próximo dia.
Nosso herói então vai para Cnossos, encontrar-se com as guerrilhas e o general inglês. “Yiassou general”, ele diz, “vou levar a cabo a missão”. As guerrilhas [guerrillas] vão para Arkhanes obter um carro longo que consiga bloquear a estrada. Nosso herói, montado a cavalo ao lado do carro que bloqueia a estrada, espera pelo carro de Kaiseri. O general inglês ordena que as pistolas estejam preparadas. Quando o carro de Kaiseri reduz a velocidade, ele é atacado pelos guerrilheiros. Kaiseri tem seu uniforme retirado [apenas o boné, no evento real] e implora por misericórdia, pelo bem de seus filhos [um tema recorrente na poesia cretense].
Após a captura, os alemães, furiosos, começam uma caçada com cães [aviões, no evento real]. As guerrilhas começam então a trilha para o Monte Ida e, por etapas, o grupo chega ao distrito de Sfakia [local onde moram o cantor e sua audiência; na verdade o general deixou a ilha pelo sudoeste do monte]. Os guardas têm que proteger o general da multidão enraivecida. Logo chega o submarino inglês e leva o general ao Egito. Nosso bardo conclui o poema com um epílogo tradicional -que nunca antes na história do mundo tal feito havia sido realizado. Ele então dá o seu nome, a sua vila e seu serviço ao seu país.
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Conclusão

Vemos, assim, como em menos de dez anos desde o fato histórico relatado, a transmissão oral de seu conteúdo sofreu sensíveis modificações. No mundo iletrado de D&D, podemos esperar por situações semelhantes nos acordes dos habilidosos bardos, o que confere uma dinâmica do fato e da verdade que não é de todo alienígena ao nosso tempo em que, a despeito da alfabetização, dos meios de comunicação e das notícias em tempo real, as fake news estão em voga, como um eco das distintas formas que as histórias podem assumir -dependendo de quem segura a lira.

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Fonte: Finley, M.I. The World of Odysseus. Introduction by Bernard Knox. New York: New York Review, 1982.

Comentários

  1. Sutil menção ao deus oeridiano dos escribas e historiadores... gostei!

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