Estrada para os Montes Resolutos - 24° ato

As tentações do Profeta Improvável

Bartolomeu nada disse. Estava ainda aturdido com toda a cena, e tentava dar alguma ordem aos pensamentos conflitantes que passavam por sua cabeça ornada com duas orelhas pontiagudas. As bruxas eram seres inteligentes mas muito distintos dos humanos: uma raça antiga, com valores estranhos e envolta em mistério e associada a algumas lendas vis e macabras. Pensando bem, contudo, a própria história de humanos e elfos podem ser assim resumidas, também. Essas três a sua frente eram servas de Wee Jas, e a deusa claramente atendeu ao seu chamado: havia uma energia muito familiar no ar espesso do salão: era um lugar sacro, e não conspurcado como a mina de Ugrasha, a despeito dos corpos dilacerados, eviscerados e espalhados pelo chão. Serão esses os limites inferiores da fé por Wee Jas? Mesmo perante todo esse sacrifício, ela ainda atende?, pensava o clérigo neófito da Deusa da Morte, enquanto perambulava pelo aposento, sentindo as energias, o cheiro de sangue, o fedor das bruxas, em meio aos vapores dos braseiros e incensos que tentavam confundir seus sentidos. Seus companheiros estavam imóveis, tensos.

Abaixou-se ao lado de um corpo intacto numa saleta vizinha e viu que o soldado ainda estava vivo. Um fiapo de vida, apenas, mas o bastante. Bartolomeu fez ainda algumas perguntas para as bruxas, de forma a avaliar suas intenções, e elas responderam, exaltando, ainda, a desconfiança do Profeta Improvável: não esperavam menos de um escolhido da Severa Senhora.  

Era um truque barato para seduzir o clérigo, e Bartolomeu, muito atento e perspicaz, percebeu isso logo que começaram a falar. As bruxas pareciam cada vez mais atraentes, os cabelos ondulavam como se uma leve brisa passasse no local, e o decote de suas vestes pareciam chamar cada vez mais sua atenção. Bartolomeu lembrou-se imediatamente de Ânn, e da vez em que ela tentara seduzi-lo. Havia uma familiaridade na forma macabra e luxuriosa, um tesão que dava vontade de cravar os dentes na pele, arranhar a carne, beijar com a boca com gosto de sangue. Mas as bruxas não eram Ânn, e seu sangue élfico o alertava contra essas tentativas de encantamento. 

Igna, Celegail e Lidna se dirigiram ao sacerdote, falando uma logo a seguir da outra, como se fracionassem uma mesma fala em três partes, como parecia ser característico entre elas:

- E então, o que o Profeta de Severa Senhora tem a dizer?
- Contamos tudo a você, dirimimos todas as dúvidas e contamos segredos além delas. 
- Irá nos ajudar com a missão encomendada por nossa deusa? 

- Gosto de cumprir minhas promessas. Por isso, neste momento, não poderei atender à missão que vocês me propõem. Não quero me comprometer com o que não tenho certeza se poderei cumprir. - Bartolomeu tentava uma saída diplomática para a situação.

A reação das bruxas foi imediata: 

- O quê? Como ousa!? Depois de tudo que lhes disse? 
- Negarão ajuda às irmãs da Cabala? Que tipo de brincadeira é essa?
- Ele não é o Profeta Macabro.
- É um fantoche de Syrul! - disseram as três em uníssono.
- Vocês servem à Severa Senhora ou acham que ela deve servir a vocês? Seu arauto me anunciou, e suas dúvidas são precipitadas e infundadas. Se se levantarem contra mim, a Cabala do Fogo Eterno se apagará -a voz do sacerdote estava confiante e pronta para um combate que ele preferia evitar.
- Não sairão daqui com vida! Vamos lhes mandar para o seio da Severa Senhora, para que ela decida o que fazer com suas almas!

As bruxas se transfiguraram diante dos olhos dos aventureiros, perdendo as feições humanas sedutoras e assumindo, cada uma, uma feição mais horrorosa que a outra. Era impossível saber qual das duas naturezas, a humana ou a monstruosa, mais se aproximava da verdadeira aparência dessas criaturas, mas agora não passavam de velhas retorcidas pela maldade e crueldade.

- Então é assim que vocês ficam, quando tem o coração partido? - Bartolomeu tinha a estranha mania de fazer troça do perigo.
- Acabaremos com vocês, como acabamos com todos os que se colocaram em nosso caminho.
- Celegail, seus pais ainda esperam por você, em sua estalagem - o sacerdote tentava, ainda, alguma conciliação.
- Celegail não existe mais - respondeu a própria.

Era inevitável o confronto.

Eldrin não estava ali para brincadeiras, e conjurou uma poderosa bola de fogo no meio das três bruxas, antes que ela se aproximassem, jogando cada uma para um canto, com a força da explosão. Bruenor e Gato Preto se aproveitaram do momento de caos para desferir golpes violentos contra as criaturas. Bartolomeu conjurou seus Servos do Aqueronte, os espíritos dos mortos, que se deleitaram com as almas das bruxas que, uma a uma, caíam. Antes que alcançassem Lidna, porém, mesmo muito ferida, desapareceu como num passe de mágica, tal como Ugrasha antes dela

O encontro com as bruxas teve fim de maneira mais rápida do que começou. Inconstantes e vaidosas, preferiram arriscar a própria sobrevivência em vez de aceitar um não de um mortal, por mais profeta que fosse.

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- Fico feliz que não tenha se aliado a elas, Bartolomeu. Por um momento, pensei que você fosse aceitar o pedido desses seres vis -falou Gato Preto, aliviado.
- Confesso que considerei bastante a proposta, pois elas eram servas de Wee Jas. Mas acredito que existam caminhos de sua fé que jamais serei capaz de seguir. Ou, então, pensando bem, talvez fosse esse o nosso propósito aqui: acabar com a cabala

Bruenor não conseguia esconder o incômodo. A linha que o sacerdote de Wee Jas trilhava às vezes era tênue demais para ele. Duncan e Wurren eram mais previsíveis e confiáveis, mas Bartolomeu flertava com forças sobrenaturais e macabras cotidianamente. Conseguiria ele ser muito diferente dessas bruxas, após muito tempo lidando com as forças da Morte?

O sacerdote colocou a mão no ombro do mestre anão, e deu um sorriso sincero. 

- Sei que tudo parece e é confuso, caro Bruenor. Mas não temam: o Profeta Improvável não haverá de falhar com seus asseclas! - mesmo em meio a tanta tensão, Bartolomeu não perdia o bom humor. 

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