Estrada para os Montes Resolutos - 23º Ato


Ilustração de 1591, representando o demônio dando bonecas mágicas para bruxas. Como se vê, bruxas e demônios tem o hábito de andarem juntos. Bom, pelo menos nos mundos de D&D tem sido assim.


Acordaram inspirados naquela manhã.

- Escuridão! - falou Gato Preto.

- O quê? - Bruenor indagou, confuso.

- Ele está falando do enigma... - ponderou Bartolomeu, falando baixinho - ... faz sentido.

- Estava pensando nisso durante a madrugada, ao observar a estrelas. - comentou Eldrin.

- Quer dizer então que vocês todos tiveram uma intuição durante a noite e eu não?! - o anão estava bravo.

- É o que parece... às vezes algum anjo (ou demônio) falou em nossos sonhos... - zombou Bartolomeu, enquanto examinava um dos pergaminhos encontrados no sarcófago - A-há! Esse pergaminho cheio de runas é na verdade um pergaminho mágico! Suas inscrições são sinais arcanos e suspeito que possa conter a solução definitiva para nosso enigma.

Examinaram, então, as inscrições e descobriam que eram instruções para conjurar um feitiço de escuridão. Se entreolharam sem surpresa, deixando Bruenor perplexo e inseguro.

***

Quando o feitiço é conjurado, uma escuridão profunda cai como um pesado cobertor sobre a capela de Wee Jas. Os aventureiros quase podem sentir a densidade das partículas escuras que nublam a visão e tornam sua respiração sôfrega. São poucos, no entanto, os instantes de medo, pois logo a seguir seus olhares são atraídos para uma centelha de energia mágica que logo se abre num arco que forma uma espécie de cortina translúcida através da qual veem com alguma nitidez um salão amplo repleto de pilares antigos. Trata-se de um portal, muito certamente. Para onde ele leva, só atravessando para saber.

Não hesitam. Bartolomeu entra primeiro, mas logo é seguido pelos demais.

Se veem, então, dentro de um grande salão. Deve ter uns 250 metros quadrados. Olham em volta e notam que os dezesseis largos pilares sustentam uma abóbada pesada repleta de pinturas sinistras que descrevem anjos, demônios e deuses numa contenda eterna sobre a vida dos seres viventes de Oerth, enquanto Wee Jas paira na extremidade entre o mundo e o submundo zelando pelas almas dos homens que gravitam para longe de seus corpos inertes.

A parede imediatamente oposta, chamada de parede oeste, tal qual a leste, possui sete alcovas grandes e vazias. É de uma delas (na parede leste) onde o portal que trouxe os aventureiros se abriu magicamente. Tão magicamente como agora se fecha, deixando-os nas sombras projetadas pelas chamas imensas que ardem com vigor sobre dois pratos de granito cinza que ladeiam uma escadaria de cinco degraus, ao norte, desaguando em outro salão que parece ainda maior. Ao sul vislumbram uma grande parede desoladoramente desprovida de características dignas de nota, exceto por uma grade levadiça existente sobre um arco ogival que leva a um corredor escuro de pedra escavada, muito diferente da arquitetura refinada daquele lugar.

Ao se aproximarem das escadas, ouvem sons estranhos que não se podem confundir com nada que seja mundano, mas entre eles identificam o som de água fervente e sussurros femininos de palavras que aos ouvidos de Bartolomeu parecem sagradas, mas para os demais parecem mais como feitiços negros.

Sobem e observam, horrorizados, um salão pelo menos tão grande como o primeiro, mas na parede norte três pedestais sustentam três grandes caldeirões de onde emanam energias mágicas nefastas que sobem em direção ao teto como uma fumaça retorcida que em muito se assemelham aos espíritos que Bartolomeu conjura para auxílio dos aventureiros. Aqui, todavia, erguem-se como um turbilhão que forma a imagem fantasmagórica do que parece ser um demônio – uma criatura de feições humanas retorcidas por chifres e outros traços somente associados a criaturas baixas. Diante daquele altar de horror, três mulheres esguias erguem seus braços delicados e pálidos, deixando cair sobre as costas os mantos negros que vestem. Elas usam chapéus de grandes abas, mas ao contrário do que o imaginário popular poderia sugerir, não são pontiagudos, mas sim de cone baixo e coroa praticamente plana.

- Oh mãe de todas, dê-nos a sua graça e seu entendimento! Queridas irmãs, erguemos nossas vozes a vós para que fortifiquem nosso templo! A Cabala da Chama Eterna suplica por vossa ajuda!

- O espírito da Severa Senhora repousa sobre vós! Dizei! - o espírito demoníaco responde com voz grave.

- Não há mais muitas de nós por essas terras! Reunimo-nos sob vós porque ouvimos acerca de Icrácia e isto inquieta nossas almas. Homens vadiam a terra e mesmo das reentrâncias das Fornalhas ou das sombras da Floresta Escura se escutam rumorosos cochichos sobre seus segredos abomináveis.

- Onde está Ugrasha?! - replicou o espírito.

- Ela se perdeu do caminho da Chama Eterna há muito, tomada pelo desespero e pela dor, seu único objetivo é a vingança pelo que os homens fizeram a Hegeil. Ugrasha renegou seu fé, oh Severa Senhora, e agora serve a mestres sombrios dos Jazigos das Desolações Cinzentas do Hades. A Cabala agoniza e este é o nosso pedido de socorro.

- Acalmai. Pois a Severa Senhora ouviu sua súplica muito antes que pudessem cogitá-la. Eis que enviou em seu socorro um profeta improvável.

A sombra desaparece e os braseiros se incendeiam com vigor, projetando naquela parede norte, onde uma enorme estátua de Wee Jas se ergue, as sombras menores de três incautos aventureiros e a quarta e maior sombra, como que num passe de mágica, do astrólogo que, perplexo, observa as mulheres virando-se para eles com faces cadavéricas capazes de secar a saliva de sua boca e embrulhar seu estômago!

****

Logo fica evidente que aquelas bruxas não enxergam os aventureiros como uma ameaça, mas antes como enviados de Wee Jas. Portanto, sua reação não é agressiva, quando muito de alguma prudência. 

- O Profeta! - murmurou uma delas com olhar espantado! - A Severa Senhora nos ouviu!

- Não há profeta algum aqui! - respondeu Bartolomeu, sentindo que era ele que deveria assumir a liderança do grupo naquele momento, mormente porque se estava diante do que aparentemente era um culto à Wee Jas, sua deusa - Eu sou Bartolomeu, um sacerdote de Wee Jas, e esses seus meus amigos, Bruenor, Eldrin e Gato Preto. Estamos investigando o desparecimento de uma comitiva de homens, soldados mais especificamente. Quem são vocês e o que fazem aqui?

- Eu sou Lidna.

- Eu sou Igna.

- Eu sou Celegail.

- Nós oferecemos nossa hospitalidade ao profeta da Severa Senhora e aos seus asseclas! - disseram as três a uma só voz.

- Não tenho asseclas, mas apenas amigos. Andamos juntos por opção, não por dever. Mas ainda não disseram o que fazem aqui e o que diabos é esse ritual macabro que acabamos de presenciar - respondeu Bartolomeu, em tão altivo, enquanto tentava esconder sua preocupação e espanto por notar que Celegail é provavelmente a filha dos estalajadeiros de Preston.

- Vocês estão no último reduto da Cabala do Fogo Eterno.

- Nunca ouvi falar de vocês! - disse Bruenor, com grosseria.

- Calma, mestre anão - sussurrou Eldrin.

- A Cabala do Fogo Eterno é a mais antiga e fiel igreja de Wee Jas em todo o mundo, guardiã dos segredos mais antigos da Severa Senhora, que remontam aos tempos mais antigos, anteriores aos Cataclismos Gêmeos. Nossa Cabala foi fundada por Erskene quando ela recebeu um presságio da Severa Senhora em seus sonhos e escapou da Chuva do Fogo Incolor pela Passagem de Slerotin junto com as doze tribos. Seu grande conhecimento e cultura foram sempre admirados pelas diversas Casas Nobres suelitas que lutaram para estabelecer sua cultura no Vale Sheldomar. Contudo, nas guerras do norte, quando Vecna, O Sussurrado, subjugou e quase destruiu os migrantes que se assentavam sobre as margens do Rio Sheldomar, seus sacerdotes Ur-Flan perseguiram nossas irmãs, e de tal modo aterrorizaram o povo que o Concílio dos Nobres resolveu lançar a Cabala no ostracismo, uma punição que nos exilou para os confins da terra. Nosso legado foi destruído, os conhecimentos mágicos dos tempos antigos, dos predecessores da Chuva do Fogo Incolor foram ou confiscados ou destruídos. Tudo se perdeu. Ou isso era o que se pensava, até que duas irmãs sobreviventes daqueles tempos tiveram uma visão em seus sonhos. Sonharam que nem todos os segredos da Severa Senhora tinham se perdido, pois os lacaios de Vecna recuperaram uma parte e os levaram para a mais secreta biblioteca pessoal d’O Sussurrado, no coração de seu império: Icrácia. - explicou uma das bruxas, aquela de nome Celegail.

- As irmãs se chamavam Hegeil e Ainnlein e elas se expuseram e deram a vida para recuperar nossos segredos antigos. Mas foi em vão, pois os homens são maus e irascíveis. Elas foram presas, torturadas e mortas, como se fossem hereges, bruxas vulgares. Nossas esperanças haviam acabado completamente, até que os gigantes desceram de suas montanhas. Toda a terra tremeu e quando a terra se agita, os vermes saem de seus ninhos. - completou Igna.

- Nossa amada irmã Celegail ouviu rumores sobre Yegghazicllp (iega-zikíup). Os gigantes disseram que nas ravinas profundas dos Montes Resolutos há um feiticeiro sinistro contra o qual nem mesmo o Talf ousa se meter. Por lá ele é conhecido como O Coletor de Impostos, ou simplesmente como O Coletor. Ele possui diversos lacaios e nós ouvimos que, na verdade, é um ávido colecionador e estaria reunindo o conhecimento perdido de Erskene, que nossa Cabala jurou proteger. Mas nós somos poucas, somos uma fração do poder de outrora. Agora, porém, a Severa Senhora trouxe um Profeta Macabro e com ele seus asseclas! - Lidna disse.

- Então é isso?! Vocês fizeram um ritual sanguinolento para falar com a Severa Senhora e agora creem que eu e meus colegas podemos ajudá-las - confirmou Bartolomeu.

- Muitos buscam os segredos perdidos, ninguém senão as Senhoras da Cabala é digno de sequer tocar-lhes os manuscritos. Oramos e elevamos nos preces e vocês apareceram imediatamente, conforme o espírito nos falou!

- Tenho dúvidas. Wee Jas ficou satisfeita que sacrificassem esses homens? - Bartolomeu olhava com desgosto para as figuras estripadas, muito certamente, a esta altura, os soldados que buscavam encontrar.

- O sacrifício de humanos é o mais elevado de todos. O sangue que corre nas veias de homens, elfos, e anões é a própria essência dos deuses, é o que anima sua existência. Goblins e outros seres abaixo deles são indignos e seus patronos são falsos deuses. Corellon, Moradin e Grummsh? São deuses com pouco ou nenhum interesse por assuntos humanos. Quando você sacrifica humanos, porém, os seus patronos voltam seus olhares e escutam suas preces. Vocês estão aqui, afinal... - Igna explicou, demonstrando impaciência. Celegail ficava em silêncio mais ao fundo, observando suas irmãs.

- E então? Cumprirão o seu dever para com a própria Severa Senhora?! - Lidna perguntou.

Os aventureiros se entreolharam assustados e um frio tomou conta de suas barrigas.

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Comentários

  1. O Profeta Improvável! Gostei! Por mais que não saiba bem como vai tornar útil todas essas informações sobre Vecna, Bartolomeu gostou da sinceridade das bruxas. Finalmente alguém que fala claramente, dá explicações e pede com educação. Esse tratamento, aliado ao fato de serem discípulas da Severa Senhora, vão pesar na resposta que Bartolomeu vai dar à Cabala do Fogo Eterno.

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