Estrada para os Montes Resolutos - 22° ato

uma noite sinistra e enigmática aguardava os aventureiros
imagem: A igreja de Auvers, de Vicente van Gogh (1890)


Acordaram antes do nascer do sol, depois de uma noite molhada, fria e mal dormida. Conseguiram manter ao menos as botas secas por dentro, amontoando-as emborcadas debaixo de uma diminuta fenda na rocha perto da qual se abrigaram. Colocaram ataduras de pano mais ou menos seco nos pés pela manhã, para que aguentassem o dia longo e chuvoso de caminhada que teriam pela frente. Não havia como fazer uma fogueira, pois não havia lenha disponível, então o desjejum foi de comida fria, frutas secas úmidas e restos de outras coisas que encontraram em seus alforges, pois aquelas matas não ofereciam meios de subsistência, apenas água.

Foram 3 dias e meio para o retorno até Preston, um pouco mais longo do que a ida, por conta das condições do tempo. Estavam ensopados. Bartolomeu providenciou uma refeição na noite do segundo dia, após orar para sua deusa, já que as provisões de que dispunham estavam se tornando escassas e era prudente guardá-las para, ao menos, dois dias mais. Eidar mostrava muito mais sinais de cansaço que os demais aventureiros, já acostumados à hostilidade das matas e a viver com comida racionada. 

Chegaram à Preston quando o sol já rumava para o ponte e a chuva tinha dado uma trégua. Se despediram brevemente, e o soldado novamente agradeceu muito por ter sido salvo e que estava ciente da dívida que, se um dia tivesse condições, haveria de pagar. Desejou sorte aos aventureiros na busca pelos outros dez soldados, e desapareceu na tarde fria.

O destino do grupo, porém, ficava mais ao sul, em direção ao antigo templo de Wee Jas, onde, ao que tudo indicava, estavam as bruxas.

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Segundo as informações obtidas na cidade durante a visita anterior, e também com base nas observações da coruja de Isaak, o templo não deveria ficar a mais de uma hora do vilarejo. Andaram, porém, por quase duas horas sem nada encontrar, decidindo então voltar, pois havia algo errado. Trovões e ventos fortes anunciavam que não teriam muito tempo antes de uma tempestade, mas no caminho de volta, quando já era noite, encontraram uma construção antiga com uma torre. Bartolomeu fitou perplexo a igreja, à distância. Tinha quase certeza de que tinham passado por ali, mas foram incapazes de vê-la. O astrólogo suspeitava de algum feitiço, mas seus companheiros tinham argumentos mais mundanos: provavelmente tinham pego algum desvio na trilha precária, por exemplo. A explicação, porém, era insuficiente para alguém com senso de direção e sentidos apurados como o meio-elfo. De qualquer forma, não insistiu. 

Ao se aproximarem, ouviram ruídos de ossos sendo dilacerados: era um troll que se refestelava com sua presa, um javali. Atacaram-no furtivamente, não dando chance para que ele gritasse ou mesmo soubesse ao certo o que o atingiu. Eldrin se encarregou de fazer o corpo arder com suas chamas, para selar sua morte: por experiência própria, sabiam que essas criaturas eram difíceis de morrer. Ainda investigando os arredores do templo, descobriram um cemitério antigo, envolto em espessas brumas. No centro, um carniçal, que também não teve tempo de reagir enquanto uma chuva de flechas e feitiços o derrubava.

Sem mais ameças aparentes, partiram em direção à entrada do templo.

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A construção tinha toda a aparência de um lugar deteriorado pelo tempo, completamente abandonado. Não havia rastros próximos à entrada, heras cobriam as paredes e entravam por fendas nas janelas, enquanto a porta dupla estava empenada e com algumas partes podres. Uma vez dentro, examinaram com cautela todos os cômodos, apenas para encontrar um lugar abandonado e sem sinais de uso recente, a não ser por uma inscrição na parede do altar, com os seguintes dizeres:

a magia é a chave para todas as coisas

A frase tinha sido feita por cima da bela representação de Wee Jas, uma mulher com cabelos ruivos e esvoaçantes, segurando uma adaga em uma das mãos e cercada por uma grande ossada. A inscrição tinha sido feita com sangue, e estava relativamente fresca.

No altar, uma cópia muito antiga do Livro Branco de Wee Jas, fechado. Era o mesmo livro que Ânn tinha dado para Bartolomeu, em sua tenda, junto do colar dourado da caveira, coisa que parecia ter ocorrido há muitos anos mas que, na verdade, não tinha dois meses. O sacerdote folheava o livro, imerso nessas lembranças agora dolorosas, perdendo-se nas perguntas cujas respostas se foram quando encontrou o corpo sem vida de Ânn no maldito templo ur-flân sob o templo druídico, na Floresta Escura. Ao virar uma das páginas, reparou que ela tinha sido usada há pouco tempo, pois nela havia uma marca de dedo com um pouco de sangue ainda não completamente seco: . Era a única página que tinha sido manuseada. Virando-se para seus amigos, compartilhou a descoberta:

- Está tudo fora de lugar aqui. O lugar está claramente abandonado, porém foi usado há pouco tempo. Sabemos disso porque a coruja de Isaak viu ao menos uma criatura sob este umbral. Porém, nada aqui denuncia uso recente, a não ser por esta inscrição na parede e uma página manuseada deste tomo: um ritual para velar o corpo de um sacerdote da fé.
- Um sacerdote como você? -era Gato Preto quem perguntava.
- Sim.
- Não pode ser então uma mensagem?  Ou uma ameaça?
- Sem dúvida, mas como poderiam elas saber do nosso destino? Esta página foi folheada há alguns dias. E, vejam, tem uma anotação aqui, no canto:

o que pode ser observado, mas cuja presença impede de ser visto

-Tudo só fica mais estranho -conclui o ladino- Talvez seja uma boa investigar mais lá fora. A coruja de Isaak não as viu aqui dentro, correto?

E assim fizeram. O cemitério poderia guardar algumas respostas mas, a princípio, apenas esqueletos e carniçais se revelaram. Mesmo contando apenas com quatro membros, formavam um grupo formidável, e seriam necessários muito mais que um punhado desses seres malignos para causar problemas para as armas afiadas e magias de que dispunham. Quando nenhuma cova mais se abriu, investigaram a única construção do local, um pequeno mausoléu muito antigo, com espaço apenas para um sarcófago e uma estante arruinada. Uma placa de bronze com o nome Irga pôde ser encontrada entre os escombros. Estava em keolandês arcaico, língua que, apesar de morta, Bartolomeu dominava. Tivera acesso a muitos escritos nessa língua, entre os elfos, e até mesmo entabulou conversações com alguns elfos mais velhos que a sabiam. Devia haver muitos poucos humanos capazes disso, em Flaeness. 

Investigando o sarcófago, o sacerdote encontrou ainda uma gaveta escondida, com alguns pertences, entre eles dois pergaminhos conservados. Um deles continha runas arcanas, aparentemente, enquanto o outro trazia uma lista com nove nomes. Entre eles, Bartolomeu. Compartilhou suas descobertas, do lado de fora do mausoléu, quando foram, então, surpreendidos pela tempestade. Correram para o abrigo do templo. 

Bartolomeu tentou ainda uma última cartada, para tentar decifrar os enigmas daquela noite: segurando a fita que a coruja de Isaak o entregara, conjurou os poderes de Wee Jas para identificar outras como aquela. A magia o levou até a porta do templo onde, numa poça, havia uma outra fita argêntea. 

Usando os bancos da igreja, reforçaram a porta contra os ventos, a chuva e qualquer outra coisa que por ali tentasse entrar. Acenderam os braseiros, tiraram as capas para que pudessem secar, e aguardaram o nascer do sol, enquanto trovões, relâmpagos e uma chuva inclemente tomava conta da noite suspeita.

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