Estrada para os Montes Resolutos - 21° ato

A coruja de Isaak descobre o destino de seu mestre


Bartolomeu fazia ataduras em seus companheiros feridos: era o máximo que podia fazer para aliviar suas dores, apesar das preces para Wee Jas. Sentia-se esgotado; não sem fé ou foco, mas sem forças, apesar de não carregar nenhum ferimento. Ninguém tinha ânimo para conversar, e sentiam-se ainda ameaçados, combalidos naquela caverna hostil e escura. Ao cabo de algum tempo, começaram a ouvir ruídos distantes e estranhos, e decidiram que era hora de partir.

De fato, a entrada da gruta fora tomada por vermes do tamanho de um homem, que sugavam os corpos dos trogloditas e orcs, subiam pelas paredes e mesmo no teto. Como tinham muita carniça à disposição, não deram muita atenção aos aventureiros que, por sua vez, evitavam seus caminhos: estavam exaustos e não tinham interesse em arrumar mais uma batalha. Os vermes pareciam vir de uma entrada muito úmida próxima ao longo túnel em aclive que levava à entrada da caverna. Não investigaram nada, só pensavam em sair daquele buraco na terra.

Na superfície, ninguém os esperava, nem mesmo o prisioneiro que libertaram. Encontraram um lugar razoavelmente adequado passar a noite, entre rochas altas que se interpunham à ventania e à chuva pesada daquela noite: dormiriam um pouco menos molhados, já que uma fogueira não era nem possível nem aconselhável.

Montaram o acampamento como puderam, já que ninguém dispunha de tenda. Antes que anoitecesse, o prisioneiro que escapou se aproximou. Ele se chamava Eidar, se desculpou por ter fugido o mais rápido possível da masmorra, mas não conseguia ficar nem mais um minuto por lá, depois de tudo o que viu. Fora separado de dez de seus companheiros do Forte Diligência assim que chegaram aos subterrâneos e não tinha como ter certeza sobre a sorte e o paradeiro deles. Era o líder do destacamento, e apenas um outro ficara com ele: Gurdin. Infelizmente, não sobreviveu à primeira sessão brutal de tortura. Caso não tivesse sido resgatado, ele, Eidar, seria o próximo, e teria dado as mesmas respostas para as perguntas que foram feitas a seu companheiro: nada sabiam sobre o porquê de os gigantes não estarem mais recebendo suprimentos, ou quem estava matando as patrulhas que enviavam pelas matas. O Forte Diligência era uma sombra do que já fora, sendo atualmente um ponto para onde vão os jovens demais ou os velhos e feridos.

Assistiu ainda ao interrogatório sofrido por dois orcs; queriam saber para onde tinham ido os demais desertores e o que havia sido feito de diversos presentes e mensageiros que enviaram para falar com as bruxas. Era veterano de guerra, portanto aprendera rudemente a falar orc e a língua dos gigantes, e tinha, por meio dessas torturas a que assistiu, conseguido saber que os gigantes estavam procurando mais aliados na área, e já tinham encontrado ao menos um grupo disposto a auxiliá-los: as bruxas. Seus companheiros pareciam terem sido entregues a elas. Em troca, estavam recebendo ajuda por meios mágicos. Não sabia mais que isso.

Eram notícias ruins, mas notícias. As bruxas que acabaram ignorando ao sair de Preston pareciam se negar a serem deixadas incógnitas. Deveriam voltar para lá e investigar a situação, se tinham esperanças de salvar os homens. Ademais, não podiam permitir que os gigantes tivessem esperanças de conseguir suprimentos, pois isso tornaria mais custoso tomar a fortaleza.

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Não conversaram mais nada naquela noite, apenas pensavam na proximidade da morte, no corpo queimado de Isaak e na fragilidade da vida. Não fora nada inteligente o feitiço que ele lançou para se transportar magicamente até o alcance do gigante e quase sucumbir perante sua pesada espada, mas a explosão da forja, que selou seu destino, fora mero azar. Existiria magia poderosa o suficiente para recuperar um ferimento daquela gravidade? Bartolomeu não sabia, mas desejava ter um dia forças para fazê-lo.

Enquanto seus companheiros, um a um, dormiam, o sacerdote se cobria com sua capa e observava a noite e a chuva, pensando. Apesar de todos os poderes extraordinários que sua deusa o concedia, nenhum dava mais satisfação que a capacidade de curar com um toque de suas mãos. Podia convocar espíritos do Outro Mundo, observar através de portas inexpugnáveis, criar água com um estalo de seus dedos, conjurar uma adaga espectral, mas nada disso se comparava a salvar uma vida. Nenhum desses poderes faria sentido se não fossem usados para evitar mais mortes. 

E era exatamente isso que vinha fazendo no último mês e meio. Tão pouco tempo para tudo o que tinha feito. Matava monstros para evitar que eles matassem humanos. Matava em tempos de guerra para, um dia, quem sabe, poder curar as cicatrizes criadas por todos esses anos de invasões e batalhas. Seria esse o papel de um sacerdote da deusa da morte, salvar vidas? Bartolomeu achava que sim.

A chuva forte finalmente deu uma breve trégua, virando uma garoa fria. Bartolomeu, perdido em pensamentos, ainda estava atento; afinal, era seu turno de vigia. Pensou ter visto algo no galho de uma árvore próxima. Observou durante um tempo, até que pode ver dois pequenos olhos amendoados. Era a coruja de Isaak. 

-Sinto muito, mas Isaak não retornará mais ao seu encontro. Não havia nada que pudéssemos fazer. -o sacerdote falou em élfico.

Aquela não era uma ave qualquer, o astrólogo sabia, mas entabular uma conversação assim estava além das suas capacidades. Ela inclinou a cabeça, como se nada estivesse compreendendo.

Wurren certamente poderia solucionar o problema. Mas Wurren não estava mais lá. Estava, era possível, ainda com Duncan, investigando sobre as inquietações da fé de ambos. Buscando no fundo de suas memórias, lembrou-se de uma das canções que entoavam na passagem das estações, um cântico para as florestas. Acreditava-se que animais e plantas podiam entendê-las. Era chegada a hora de colocar isso à prova. Lentamente, Bartolomeu entoou o Cântico do Inverno, uma melodia de lamento que falava de recolhimento, perda, tristeza e da necessidade de se preparar para tempos difíceis, para então poder reencontrar a fartura. Parecia a mensagem adequada a se dar para a coruja.

A ave entendeu o recado. Fitou ainda longamente o sacerdote, antes de esticar suas asas e alçar voo. Enquanto a observava, Bartolomeu reparou que ela deixou algo cair durante o voo. Levantou-se e pegou, do chão, uma fita prateada, símbolo dos Cavaleiros da Guarda. Seria essa uma última pista que a companheira de Isaak deixava, para auxiliar na busca?

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                                                                                                                                     Ato anterior

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