Estrada para o Montes Resolutos - 20° ato

as chamas simbolizam a morte, e também o renascimento: sob outra lógica, sob outra forma e, talvez, em outra vida


Bartolomeu e Eldrin olhavam ansiosos para os túneis à frente e o estreito corredor que levava à forja. As paredes eram muito grossas, com reentrâncias musgo, e talvez isso tivesse abafado os ruídos das curtas batalhas. Felizmente, os gigantes não haviam urrado em desafio uma vez sequer, pois sempre foram pegos de surpresa. Os dois companheiros contavam com essa pequena sorte para terem tempo suficiente para escapar tão logo os demais tivessem acabado a desavisada investigação da forja.

E desavisada a investigação foi.

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Gato Preto deslizava entre os caixotes de lingotes de metal, coletando o que podia. Não havia mais nada ali, mas aquelas barras de metal precioso eram valiosas o suficiente. Bruenor olhava as enormes armas e armaduras forjadas pelo gigante de fogo: eram de fina qualidade, afiadas, bem feitas, as peças habilmente encaixadas. Eram o trabalho de um mestre, por mais que custasse ao anão admitir isso. Uma pena serem tão grandes, pensou com seus botões.

Isaak andava lentamente pela sala, cansado e ferido. Sabia que deveria sair dali e procurar algum alento para seus sangramentos junto ao sacerdote de Wee Jas, mas seus pés o levavam em direção à forja, os pensamentos confusos, latejantes. Não estava acostumado a sofrer golpes de espadas gigantes. Era um estudioso; um aventureiro mas, antes, um curioso investigador do mundo. Queria ampliar seus horizontes, testar seus conhecimentos em meio a esse mundo hostil e revelar os segredos que pudesse arrancar da terra e dos espólios dos inimigos. Sabia que não devia, mas havia alguma coisa naquela forja, um lampejo de energia rubra, o que era aquilo? Inclinou o tronco para olhar o que havia no fundo ainda fumegante do local em que o gigante de fogo trabalhava.

Por puro instinto, Gato Preto agachou-se atrás de um dos caixotes. Bruenor olhou assustado para trás, após ouvir o inconfundível barulho de combustão vindo da forja. Isaak foi arremessado três metros para trás, o corpo em chamas. Não tinha mais forças para se levantar, não tinha mais consciência, só sentiu brevemente a pele arder, perder sua visão e mergulhar numa escuridão profunda, sem tempo para pensamentos ou de saber o que acontecia.

Bartolomeu e Eldrin ouviram o inconfundível urro de batalha de Bruenor. Ah, não, pensaram em desalento, enquanto corriam para a sala da forja, onde encontraram um cenário pior do que podiam suspeitar: Isaak estava no chão, em chamas, e em cima dele um elemental do fogo enorme, os braços e as pernas como longas labaredas estendendo-se pela sala. O mestre anão se aproximava dele, machado em punho, enquanto Gato Preto se esgueirava por trás da criatura. 

Bartolomeu queria salvar com urgência a vida de seu companheiro e evitar maiores riscos, então falou para a criatura:

- Aqueles que te escravizaram estão nos salões acima. Nós apenas matamos o seu captor, o gigante desta forja. Sua vingança encontrará os verdadeiros culpados nesses corredores, e não aqui.

Mas a criatura não quis ouvir as palavras do sacerdote, e esticou suas labaredas em direção aos demais. Bartolomeu já tinha o truque pronto, antes que ele pudesse agir: água começou a brotar de dentro do elemental do fogo, escravizado há sabe-se lá quanto tempo naquela forja. A água era tanta que nem toda ela evaporou, escorrendo e apagando o fogo que queimava Isaak.

Mas o elemental não se acovardou. Atacou Bruenor com tudo, mas as forjas de Moradin eram as mais quentes do mundo, e o elemental não conseguiu arrefecer a bravura do mestre anão. Gato Preto e Eldrin atacaram a criatura como podiam, mantendo distância das labaredas. Antes que ela pudesse iniciar mais um ataque, Bartolomeu fez ainda mais água brotar de dentro do elemental, dessa vez fazendo suas chamas encolherem, até que restou apenas uma pequena chama, que rolou pelo chão molhado e se apagou para sempre.

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Bartolomeu correu para o corpo de Isaak: ainda estava vivo. Mas então ele viu que suas mãos foram consumidas pelas chamas, e seus olhos jamais seriam capazes de enxergar novamente a luz do dia. Se o jovem mago saísse dessa, a vida tal como ele a conheceu estaria presa para sempre no passado: jamais conseguiria conjurar uma magia ou ver o rosto de seus companheiros, sua pele retorcida o impediria de sentir o frio ou o calor, mas a dor o acompanharia por todos os seus dias. Seria uma vida miserável. Bartolomeu segurou a cabeça de seu companheiro desacordado e olhou para seus amigos de pé: todos sabiam exatamente a que tipo de vida Isaak estava condenado. Bartolomeu sacou a adaga e, enquanto cortava a garganta de Isaak, falou: Espero que façam o mesmo comigo, quando necessário for.

Bartolomeu já tinha poupado a vida de mais de um amigo moribundo, nas batalhas em Hornwood: era melhor a morte pela mão de amigos que pela mão de inimigos, e era melhor uma morte limpa a uma vida miserável. Esquecendo-se da urgência que tinha em sair dali, encomendou a alma de seu companheiro para Wee Jas, enquanto jogava seu corpo na forja, que, apesar de tudo, ainda ardia fortemente. Isaak, morto pelo fogo, teve seu corpo consumido por inabaláveis brasas.

Retornaram silenciosos à caverna dos trogloditas, para descansar antes de iniciarem o caminho para a superfície.

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