O mito da Terra Plana e a idiotização da Idade Média

Mapa-mundi de O apocalipse segundo São Severo (1086)


Publicado originalmente em Bar dos Bardos e modificado de leve pelo autor para A Cidadela


“Histórias das terras e lugares lendários”, Umberto Eco se propõe a discutir as lendas relacionadas a lugares imaginários que tiveram desdobramentos no mundo real , criando “fluxos de crenças. É da realidade destas ilusões que este livro pretende tratar.” [pág.9]

A primeira dessas lendas é o mito de que, durante a Idade Média, acreditava-se que a Terra seria plana. O autor cita que, durante a Antiguidade, era óbvio que os cientistas já sabiam da esfericidade da Terra, a ponto de tentar estabelecer o diâmetro da terra a partir da diferença no comprimento da sombra de um graveto colocado em latitudes distintas (Eratóstenes), ou mesmo dividir a terra em 360 meridianos (Ptolomeu).

Todavia, a Idade Média supostamente teria se esquecido de todo esse conhecimento acumulado, ancorando-se literalmente nas linhas bíblicas, que estabelecem que a Terra tem o formato de um tabernáculo. Para embasar tal afirmação, são citados um punhado de obscuros autores cristãos medievais, ignorando-se vários autores mais conhecidos que declaravam que a Terra era esférica (São Tomás de Aquino, Dante, Rogério Bacon e Isidoro de Sevilha, por exemplo).

Reconstrução do cosmos em forma de tabernáculo, Topografia cristiana, de Cosme Indicopleustes

De onde, então, surgiu essa ideia de que o medievo cria na Terra plana? Segundo Umberto Eco:

O pensamento laico oitocentista, irritado com a oposição de várias confissões religiosas à teoria evolucionista, atribuiu a todo o pensamento cristão (patrístico e escolástico) a ideia de que a Terra era plana. Tratava-se de demonstrar que, assim como estavam enganadas sobre a esfericidade da Terra, as igrejas também podiam estar equivocadas sobre a origem das espécies. Para tanto, aproveitaram-se da oposição de um autor cristão do século IV, Lactâncio (em seu Institutiones divinae), às teorias pagãs da redondez da Terra. [pág.13]

O mito da Terra plana é, portanto, fruto de esforços [imorais?] dos cientistas do século XIX em desacreditar o pensamento religioso. Basicamente, seria o mesmo que, daqui a 400 anos, dizer que a sociedade do século XXI acredita que a Terra era plana e tomar por base declarações e publicações do movimento terraplanista.

Idade das Trevas, da estagnação, da ignorância; é esse o retrato que tentam pintar da Idade Média, desde o Renascimento. Quantas besteiras não devemos acabar levando pra mesa de jogo, em nossas fantasias medievais, fruto da nossa própria incapacidade em desbaratar essas distorções que nos são ensinadas como verdade histórica? A própria diferença entre nobreza e plebe era muito tênue, na Baixa Idade Média, mas, ainda assim, acabamos reproduzindo um mundo estratificado, fortemente hierárquico. Será que isso não diz mais sobre nós do que sobre o medievo? Mas esse é assunto para outra postagem.

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Fonte: ECO, Umberto. História das terras e lugares lendários. Tradução de Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 2013.


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