O disparo para a cruel verdade, parte V

e chegamos assim ao fim da narrativa de Eldrin, em que ele tenta expurgar os fantasmas de seu passado


Parte V - o fim da tempestade

texto de Leandro Azul e Sacripanta

- AHHHHHHHHHHH

O grito de Eldrin ameaçou tomar de assalto também o quarto da estalagem, tal como fizera com a casa de seus pais. Ele ergueu abruptamente o tronco, olhos abertos mas sem consciência de onde estava, fagulhas saindo de suas mãos espalmadas para a frente, como que para se proteger. Alaïs fez um gesto rápido, contendo a explosão antes que ela começasse. Estava preparada para isso.

Eldrin despertou do transe, suando aos borbotões. 

- Finalmente, você se lembra -era a voz doce de Alaïs, ao seu lado.

Eldrin se lembrava não apenas da explosão, mas também de ter recobrado os sentidos e se desvencilhado dos escombros. Por algum milagre, fora salvo. A casa não tinha pegado fogo, apenas foi jogada pelos ares. Seu pai e sua mãe não tiveram a mesma sorte: grandes toras caíram sobre eles, e não era possível salvá-los, mesmo que tivesse forças para tanto. Vince foi poupado de grande parte dos destroços, mas o ferimento na barriga foi cruel demais para que tivesse sobrevivido. Clef, arremessado para fora da casa, livrou-se dos escombros, por mais que eles tivessem voados pelos arredores, e não havia sinal do primogênito. 

Fez um funeral para sua família, ateando fogo em tudo antes de partir. Procurou por Clef, mas sem sucesso: o irmão desaparecera. Foi assim que as memórias se juntaram: após isso, Eldrin se tornou um andarilho, sem família e sem rumo, economizando o desjejum para poder almoçar, e comendo pouco no almoço para não dormir com fome. Vagou durante anos, desenvolveu sozinho suas habilidades mágicas, mas sempre com um medo irracional que o impedia de soltar tudo o que podia. Não se lembrava mais do motivo, pois o tinha esquecido. Estava liberto.

----------

Ficaram calados por um bom tempo, até que sua amiga começou a ficar preocupada. Alaïs era bem treinada nas artes da mente, e sabia bem dos perigos de desenterrar memórias dolorosas. Nem todos conseguiam encarar a verdade. Mas Eldrin afastou rapidamente os temores. Estava bem, apenas tinha muita informação para processar. Antigas perguntas retornaram: onde estaria Clef? Em que, afinal, ele tinha se metido, e o que exatamente era aquela mílícia? A imagem da adaga era a mais nítida de todas, e ele achava que ela tinha importância para a compreensão de toda a história. Será que aquele era o destino, não teria sido possível outra saída, uma em que seus pais e seu irmão Vince não morressem?

Alaïs não tinha resposta para essas questões, mas aconselhou Eldrin a não perder tanto tempo com elas. As coisas são como são, e é possível aprender com os erros do passado, mas não consertá-lo. Essa era parte da nossa missão em vida, e ele tinha a chance de ver em perspectiva as consequências daqueles atos e tentar entender sua importância, dentro de um tempo finito que se iniciou quando ele foi adotado por Tebas e Luna e que se estenderá sua morte. As respostas viriam sem maior sofrimento do que o que ele já passou. Eldrin assentiu. Havia sabedoria nas palavras da sacerdotisa.

- Meus pais foram buscar auxílio em um templo de Lendor. Não é esse seu deus?
- Sim. Ficamos sabendo da tragédia em sua casa, mas não conseguimos encontrá-lo. Não até agora. 
- Então não é fortuito nosso encontro?
- Eu não colocaria assim. Nós realmente o procuramos por um tempo. Você não se lembra, mas passei uma noite na sua casa, e foi assim que seus pais souberam do templo de Lendor, onde Gilberion era meu superior, mas agora estou indo para o templo em Portão de Ferro. Pretendo aprofundar meus estudos lá, para depois retornar. Temo que serei necessária aqui mais cedo do que tarde: nevascas rubras ameaçam cobrir essa região. Mas o reconheci ontem, nesta estalagem. Ou como recompensa pelos nossos esforços em encontrá-lo, quem sabe? Não acho que você teria conseguido lidar com todas essas memórias, na época. Se foi acaso, então foi fortuna.

O meio-elfo sentia-se parte de eventos que fugiam ao seu controle, mas não se sentia mal com isso. Tinha a sensação de que, a partir de agora, conseguiria pegar sua vida pelas rédea, mesmo com todo o peso que ela adquirira após essa manhã.

- Posso acompanhá-la? Portão de Ferro não parece o nome de um lugar da região. 
- Eu adoraria sua companhia -disse Alaïs, com um sorriso-. Mas seu caminho é o sul: o bando de seu irmão, que eu não sabia que tinha sobrevivido, foi para lá. Autointitulam-se Armada do Conclave e são um grupo mercenário, mas pouco sei além disso. Tinham muitos contatos exteriores ao vilarejo. Formavam um bando estranho, e foram embora depois que um dos membros do grupo assassinou a filha de um importante comerciante do vilarejo. Dizem que conseguiram o casamento com uma aposta, mas são boatos com que meu templo nunca se preocupou. 

Eldrin parecia meio triste e, mais uma vez, Alaïs parecia ler seus pensamentos: 

- Mas não se entristeça: tornaremos a nos encontrar, Eldrin. Pegue este sinete: poderei saber onde você está, se usá-lo e ainda pensar em mim.

Dizendo isso, deram-se conta que já era noite. Eldrin estava fraco, esgotado física e mentalmente. Desabou num sono pesado e tranquilo, o primeiro em muitos anos. Sentiu um beijo e um barulho de porta se abrindo. Quando conseguiu acordar, Eldrin saiu pela porta do quarto: a nevasca tinha passado.

----------

Eldrin passava o dedo no sinete, lembrando-se de Alaïs e de como recobrou a consciência da sua história. O primeiro surto de magia selvagem. O casamento com a jovem filha de um comerciante, por meio de uma aposta, e seu posterior assassinato. Clef e sua adaga. Ainda havia muita coisa não resolvida no coração do feiticeiro, uma mágoa revivida com a infeliz história de Wulftheim, um ódio aflorado que ele não conseguiria mais dissociar do amaldiçoado estalajadeiro, até que um dia seus próprios fantasmas fossem expurgados. Via em Wulftheim sua própria sina, sua ingrata missão, que ele, por bem ou por mal, haveria de resolver.

----------

                                                      Parte IV                Parte III                 Parte II                Parte I


Confiram a história original no médium de Leandro Azul


Comentários