Estrada para os Montes Resolutos - 19° ato

a ilusão de recompensas reluzentes e fáceis de pegar já foi a perdição de muitos aventureiros

Descansados, retomaram a incursão: a caverna era suspeita demais para deixá-la sem antes conseguir mais informações, ainda mais por ser tão próxima à herdade. Num dos acessos ao túnel que julgavam ser o principal, havia uma porta antiga, selada precariamente por rochas, impedindo que ela se abrisse. Retiraram todas as pedras, para então descobrirem um salão de arquitetura completamente diferente de tudo o que já haviam visto: as pedras encaixavam-se perfeitamente, mas possuíam ângulos estranhos e irregulares, como um mosaico formado por peças distintas. Cinco colunas sustentavam a estrutura, mas sem a menor necessidade, pois não tinha mais que dez metros de profundidade por cinco de largura e, esticando o braço, conseguiam tocar no teto. Havia pedras opacas decorando todas as colunas, mas sem qualquer simetria aparente. Ao fundo, um altar vazio, completamente negro no tampo e de âmbar nas laterais. 

Nada ali parecia belo, apenas muito estranho. Acima do altar, recuado para dentro da parede, Bartolomeu, sempre curioso, investigava o templo e percebeu que havia como que uma massa informe, de um negro também opaco, que se remexia lentamente. Subiu no altar e se aproximou, pensando se tratar de algum tipo de prisão, mas parou de súbito. Era melhor não remexer nessas coisas estranhas das entranhas da terra. Deu meia volta e deixou o salão. Seus companheiros fizeram o mesmo, e sentiram um alívio ao colocar de volta as pedras para selar o local.

Bartolomeu, ao sair da sala, tomou uma poção de invisibilidade, sem saber ao certo por quê. 

O túnel tinha sido parcialmente obstruído por pedras ali colocadas: claramente não eram fruto de desmoronamento. A passagem dava para uma parte mais bem trabalhada da caverna, com escoras precárias nas paredes, sinais de criaturas semi inteligentes, como orcs. Bartolomeu, invisível, foi à frente, como batedor. Matou um dos hobgoblins de guarda e foi visto pelo outro, mas o matou sem dificuldades. Era estranho estar invisível mas poder ser visto pelos demais. Estaria a poção muito velha?

Adiante, viram celas cheias de orcs famélicos, já sem forças para sequer gritar. Mas nenhuma cela continha os homens do Forte Diligência. Gritos cortaram os corredores, até que descobriram uma câmara de tortura, com dois gigantes da colina com tenazes incandescentes: um orc sofria acorrentado a uma mesa, enquanto um humano pendia de uma gaiola. Pegos de surpresa, os gigantes não foram páreo para o grupo. 

Contudo, seus gritos trouxeram ajuda: um feroz gigante do fogo, de armadura e com uma enorme espada, ameaçava a retaguarda dos aventureiros, vindo por um acesso estreito ao túnel principal. Eldrin não pensou duas vezes: conjurando suas forças mágicas, hipnotizou o inimigo, dando tempo para que os demais organizassem o ataque conjunto: o inimigo caiu vítima de machadadas, flechas e magias. Era um oponente formidável, e conseguiu ferir Bruenor, mesmo lutando em uma posição muito desfavorável.

Respirando aliviados, libertaram o prisioneiro, que nada sabia sobre os demais homens que com ele foram presos. Estava em choque. Deixaram-no em um canto enquanto Gato Preto investigava a passagem de onde veio o gigante, para, quem sabe, descobrir o paradeiro dos prisioneiros. Mas coisa pior o aguardava: um enorme ferreiro estava nessa outra sala, recoberta de armas, lingotes e pedaços de armadura forjados por nada mais, nada menos, que um poderoso gigante do fogo! O ágil ladino escondeu-se na sombra projetada pela própria criatura, mas Eldrin desavisadamente o seguiu até a entrada da sala, sendo avistado. Fugiu de volta pelo acesso estreito, e foi isso que o salvou, pois o gigante era corpulento demais para passar pelo local sem ter que se espremer.

- Vamos mantê-lo preso nessa passagem! É nossa chance! - disse Bartolomeu, surpreso com a presença de um segundo gigante de fogo naquele local. Com as duas mãos estendidas, fez um gesto como se espremesse alguma coisa invisível entre seus dedos: eram as forças do gigante, que temporariamente se esvaíam ante o toque macabro da morte.

Eldrin sacou o último truque de sua manga: fez com que a espada do gigante caído se erguesse e empalasse o novo inimigo, atravessando sua perna e seu torso e se cravando na parede da passagem. Nenhum de seus companheiros podia ver isso, porém: tratava-se de uma ilusão que apenas o gigante podia ver -e sentir, pois urrava de dor.

Isaak adiantou-se e se teletransportou para trás do gigante, se expondo a graves riscos. Seus amigos, porém, já se acostumando às proezas mágicas do novo companheiro, imaginaram que ele tinha um plano que valia a pena o risco. Ao invés disso, o mago apenas se afastou, amedrontado com o enorme inimigo, que não hesitou e aproveitou a oportunidade para quase despedaçar o mago confuso. Não fosse o feitiço de Bartolomeu, e ele teria sido partido ao meio, mas faltavam forças ao gigante. O mero peso da espada, porém, era o suficiente para que Isaak quase caísse prostrado, gravemente ferido. Nem Bruenor, que se lançava à morte de maneira contumaz, agira de maneira tão suicida e despropositada.

Com o gigante imobilizado, os aventureiros não tiveram problemas em atacá-lo. O inimigo, porém, retribuía, e foi Bruenor quem mais sofreu com os ataques. Mas o mestre anão manteve-se de pé, forte, como o matador de gigantes que dizia ser. Ao final da batalha, estavam exaustos. 

- Vamos sair daqui. Estamos nos limites de nossas forças - disse o sacerdote de Wee Jas. Ele mesmo não tinha nenhum ferimento aparente, mas sentia-se cansado por ter invocado os poderes de sua deusa repetidas vezes: com efeito, Bruenor apenas estava de pé porque o sacerdote mais de uma vez estancara seus sangramentos e curara parte das feridas recebidas pelo maior guerreiro do grupo. Todos estavam abatidos: Eldrin parecia quase esgotado, e Isaak respirava com dificuldade. Eram um alvo fácil para qualquer inimigo.

Gato Preto, porém, ignorou as palavras de Bartolomeu, e Bruenor não queria admitir que estava fraco, portanto eles adentraram na forja do gigante, ficando apenas Bartolomeu e Eldrin do lado de fora, aguardando ansiosos o retorno, temerosos que mais inimigos viessem dos numerosos túneis atrás deles. O destino cobraria seu preço pela ação desavisada.

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