Estrada para os Montes Resolutos - 18° ato


a carta de Deghan continha informações valiosas e ajudou os heróis a decidir os novos rumos de suas aventuras: sempre para onde aponta o perigo


-E agora? Iremos atrás dos soldados capturados ou continuaremos nosso longo caminho ao sul, para Caer Gliss? 

-Essa tal herdade não parece ser local para brincadeiras. Além disso, acabamos de ser alertados a não nos aproximarmos de lá.
-Mas deixaremos os homens à sua própria sorte?

Assim debateram os aventureiros, após o misterioso elfo desaparecer.

- Ora, mas não é estranho aquele elfo aparecer assim repentinamente, apenas para nos dizer para não seguir adiante? Eu acho isso muito suspeito, e estou disposto a ir adiante, rumo à herdade dos gigantes, só por causa desse conselho atrevido! -Isaak falou, num rompante. E a ponderação do mago fez todos ficarem calados.

Bartolomeu tinha ficado calado, alheio à discussão. Os mensageiros devem transportar suas missivas com celeridade e discrição. Violar a correspondência que portam é fazer recair sobre si a ira das forças que protegem essa nobre profissão da curiosidade e dos perigos inerentes ao transporte de cartas, contra o tempo e contra os inimigos. Sua missão é sagrada, e os reis fazem os mensageiros prestarem juramentos solenes para proteger o conteúdo de suas mensagens com a própria vida, se necessário for. Bartolomeu era agora um mensageiro: levava uma valiosa informação para as frentes de batalha, para as mãos do capitão Ferdan. Ele sabia bem no que se metera, ao aceitar o pedido do inconformado Degan.

Bartolomeu pensou ponderou brevemente sobre qual é o deus dos mensageiros, mas não conseguiu se lembrar de algum, concluindo que não deve existir um. Sem qualquer cerimônia, puxou a carta de seu alforge e quebrou seu selo, lendo seu conteúdo primeiramente para si e depois, em voz baixa, para seus companheiros.

A carta continha informações de fato valiosas: indicava onde estavam os 3 principais refúgios dos gigantes, seus baluartes de defesa. Acessos, número aproximado de inimigos, rotas prováveis de ronda, a carta era um prato cheio para o exército resistente. Um desses refúgios era a Herdade do Gigante Rei da Colina, mais ao sul, certamente a mesma fortaleza a que o elfo cinzento se referira e para onde os soldados cativos foram levados.

Um assalto ao local, portanto, não atrasaria a missão, pelo contrário, poderia coroá-la com ótimas notícias: a de que restam apenas duas, e não três fortalezas gigantes. Uns pensam nos tesouros, outros na possibilidade de matar muitos gigantes, e ainda há os preocupados com os soldados, ou então com a libertação da Floresta de Oyt das garras dos inimigos. Cada um a seu modo, todos concordam em seguir rumo à herdade. E assim o fazem imediatamente.

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Andam pelo coração da floresta por dois dias, sem qualquer tipo de incômodo, até finalmente avistarem a construção gigantesca, erguida numa extensa clareira feita com o corte de todas as árvores do local e das imediações. As paredes eram feitas por troncos amarrados com barras de ferro. Havia uma torre e um portão. A construção era funcional e feia, assim como um gigante. Apenas alguns inimigos estavam à vista, guardando as entradas. A coruja de Isaak não conseguiu muitas informações adicionais, pois o pátio interno era pequeno e sem ação.

Bartolomeu, porém, tinha outras intenções. Observava seus inimigos à distância, do alto de um morro, enquanto a noite surgia. Meditava, pensando que aquele poderia ser o momento de pagar ao menos parte de sua vingança. Desejou ver o que se passava dentro da construção, e Wee Jas concedeu esse desejo. Viu gigantes da colina magricelas, enfraquecidos, alguns jovens demais. Falavam em fome, em falta de reforços, e no bloqueio do Passo do Chifre. Pareciam um bando passando fome e sem esperanças, gritando entre si por desespero. Nada disso despertou pena no sacerdote, porém. Ainda respiravam, e isso era mais do que mereciam, depois de tudo o que causaram na região.

Contou a seus companheiros tudo o que viu e ouviu. Se o Passo do Chifre estava bloqueado para os gigantes, isso significava que a capital de Sterich, Istivin, deve ter se libertado do domínio dos inimigos. Em breve, o mesmo poderia acontecer a Gorna. A maré da guerra estava virando. Foram todos dormir com os corações aliviados, naquela noite, ainda que não soubessem exatamente o que fazer.

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No dia seguinte, caçaram grupos de orcs que tentavam retornar à fortaleza. Estavam em farrapos, cansados e famintos. Foram todos mortos com facilidade. Os orcs tinham sido marcados na pele, a fogo, com o símbolo dos escravos, o mesmo que Bartolomeu também carregava.

Dispuseram os corpos em uma gruta por onde corria um rio. Lá, porém, avistaram um troglodita, escondido no que parecia a entrada de um fosso. Bruenor avançou sorrateiramente em direção a ele. Era engraçado ver o anão assim, mas ele se mostrou bastante capaz. O troglodita espiava o grupo, sem suspeitar da aproximação. Morreu sem saber de onde veio o golpe, mas seu corpo caiu no fosso, alertando seus companheiros. Um burburinho foi ouvido, e os aventureiros desceram para ver do que se tratava: prenderam uma corda a um dos troncos próximos ao buraco e iniciaram uma longa descida pela superfície escorregadia.

O local era muito úmido pois um rio passava por dentro da rocha -era possível ouvi-lo sem dificuldade- e  muito fedido. Quando finalmente o chão se aplainou, um cheiro putrefato ficou cada vez mais forte, conforme avançavam pela escuridão. Era uma caverna natural, com muitas colunas de pedra, criando muitas sombras e locais por onde os inimigos podiam se esgueirar. Ainda assim, os trogloditas não foram páreo para os aventureiros. Sobrevieram, porém, os orcs. Muitos orcs, vindos de todas as direções. Bruenor se lançou precipitadamente ao combate, como de costume, e se viu cercado pelos maliciosos inimigos. Os demais contiveram a retaguarda e foram ao encontro do anão.
Numa encruzilhada natural da caverna, se reuniram contra os inimigos que o cercavam.

Bartolomeu invocou os espíritos da morte, enquanto Bruenor e Gato Preto brandiam suas armas com certa urgência e Eldrin e Isaak disparavam raios mágicos em direção aos orcs. Estava tudo sob controle, até que Eldrin, ao tentar conjurar uma magia, acabou colocando todos os seus amigos em perigo: o feiticeiro, involuntariamente, teve um surto de magia selvagem, e acabou disparando uma bola de fogo no local onde estava, queimando todos os seus amigos e os inimigos mais próximos. Gato Preto e Bartolomeu conseguiram se livrar do pior, usando as pedras para se proteger das labaredas, mas os demais não tiveram tanta sorte: ninguém caiu, mas as chamas feriram gravemente Bruenor, Isaak e Eldrin.

A resistência se tornou mais desesperada: orcs continuavam se aproximando e os ferimentos dos aventureiros começaram a cobrar seu preço: os golpes e os reflexos ficavam mais lentos, os passos mais incertos. Foi a primeira vez que viram Bruenor sentir medo de morrer, alvejado por inimigos em uma caverna escura e imunda. O mestre anão deu um grito de desespero, brandiu seu machado na direção de um inimigo, mas errou o golpe e foi acertado na cabeça por um orc encorpado que tomava a dianteira. O capacete de Bruenor voou enquanto ele cambaleava para trás, levando um chute na barriga e se escorando nas paredes de pedra da caverna, os olhos arregalados, a vida se esvaindo pelo sangue que escorria de seus braços. Eldrin e Isaak estavam na mesma posição, feridos, cansados, a ponto de serem atropelados pela turba de inimigos.

- Ainda não é a hora de morrer, meus amigos. A deusa da morte é minha fiadora, e não serão esses orcs patéticos que nos levarão até ela! - disse Bartolomeu, surgindo no flanco exposto com a saída do anão.

O clérigo e os espíritos dos mortos tinham dado conta dos orcs que o ameaçavam, e agora assumia o lugar do anão na frente de combate. Junto com Gato Preto, que atacava saído das sombras, conseguiram acabar com os inimigos que restaram, até que ouviram mais se aproximando, por outro corredor.

Eldrin deu a eles boas vindas com uma poderosa bola de fogo, mas um orc brutamontes surgiu do meio das chamas, se colocando bem no meio do grupo, quebrando a formação e ameaçando a todos. Os golpes do orc eram selvagens e amplos, e todos deram dois passos para trás para evitar o pior. Eldrin, porém, ainda tinha um truque na manga: ele lançou uma ilusão na mente do brutamontes, fazendo-o acreditar que estava imobilizado por tentáculos negros que surgias das paredes de pedra. Isso deu tempo para que todos os aventureiros golpeassem o inimigo, dando fim ao último orc sobrevivente.

Respiraram aliviados e foram procurar abrigo para curar seus ferimentos e descansar um pouco, longe de todos aqueles corpos. Mas não foram à superfície, pois a investigação da caverna não tinha acabado: um corredor fora construído na caverna por mãos semi inteligentes, se estendendo ao sul, até se perder de vista. 

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