Estrada para os Montes Resolutos - 17° ato

Ruínas élficas, construções de pedra, bruxas, trolls, elfos cinzentos, gigantes, criaturas de outros planos de existência, uma floresta antiga e misteriosa: há de tudo em Preston e em seus arredores, formando um prato cheio para aventureiros sem  medo nos corações.


Texto do Mestre Cavernoso e do Sacripanta

Acordaram cedo, como de costume, em meio ao feno e aos animais sendo alimentados por Pia. Lavaram os rostos com a mesma água servida aos animais, tiraram uma ou outra pulga que tinham ganhado durante a noite, descobrindo alguns carrapatos mais antigos também: já fazia alguns dias que não se banhavam, suas roupas estavam rasgadas, sujas de sangue e seus cabelos emaranhados. Não fossem as armas e o porte atlético do grupo, poderiam passar por um bando de mendigos; não fossem os bons modos e o olhar firme mas não ameaçador, poderiam passar por bandoleiros.

Mas, olhando para o asseio de Pia, ainda que ela trouxesse baldes d'água e revirasse esterco e feno, era patente o estado lastimável do grupo; era adequado para se embrenhar nas matas, mas inapropriado para os salões e a vida na cidade. Bartolomeu entendia melhor a hostilidade constante, agora que o contraste era tão visível, no limpo e asseado vilarejo de Preston. Aproximou-se de Pia, agradeceu pela estada, perguntou como poderia retribuir o favor e relatou, mais uma vez, o encontro da noite anterior.

- Vocês não precisam pagar nada. Achei muito sensato vocês não tentarem invadir nenhuma das construções vazias. A dor ainda é muito recente. Olha, eu não deveria te contar, mas pros diabos com isso: Celegail é a filha de Míriel e Erimil, que há mais ou menos uma década deixou o vilarejo para se juntar às bruxas. Os trolls andam com elas, mas nunca trouxeram maiores problemas a Preston. Na verdade, acredito que as bruxas desgostavam dos gigantes tanto quanto nós. Não gostamos delas, elas não gostam de nós, mas convivemos em paz. Duvido que o sumiço da criança tenha qualquer coisa a ver com elas e o templo de Wee Jas que ergueram ao sul.

Bartolomeu deu um sorriso largo. Adorava sinceridade. Saber que Celegail era filha de Erimil e que a relação com as bruxas era pacífica era importante para decidir como abordá-las, caso cruzassem seu caminho -o que era muito provável, já Caer Gliss ficava ao longo da estrada sul. As bruxas eram seres de difícil compreensão, e que adoravam Wee Jas por sua vaidade e habilidades mágicas. Mas tudo parecia invertido no mundo delas: viam o feio como belo, e tinham suas próprias convicções, estranhas aos olhos humanos e mais próximas de criaturas via e vagamente "inteligentes", como trolls. Mas não eram inerentemente más, como os orcs, gnolls e goblins.

- Se continuar nos tratando assim, Pia, vou tomar um belo banho e acabar passando o mês no seu estábulo -disse o sacerdote, num misto de agradecimento e gracejo.
- Nesse caso, vai ter que me ajudar com todo esse esterco e com os animais, meio-elfo das Matas de Gadhelyn -respondeu a elfa, que certamente já tinha ouvido sobre o canto de Bartolomeu na taverna: a vila era pequena e as palavras corriam rapidamente.

Bartolomeu sorriu, se despediu e preferiu entender que seu gracejo fora aceito. Um outro dia, talvez, volte e fique para conversar mais com a bela Pia.

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Tomaram o desjejum na taverna, demoraram um tempo para ver se Wulftheim dava as caras, afinal o ex-estalajadeiro não fora visto desde que acordaram. Erimil mostrou-se mais calado: parecia preocupado, pensativo, e claramente não queria retomar a conversa do final da noite anterior. Míriel não apareceu no salão.

Decidiram então rumar para o noroeste, investigar o paradeiro dos soldados desaparecidos do Forte Diligência, antes de se voltarem para o sul, rumo a Caer Gliss. Não encontraram mais que armadilhas élficas pelo caminho. O sol começava seu caminho rumo ao leste e o aventureiros já pensavam em abandonar a busca, quando encontraram uma clareira da floresta, com um laguinho ao centro e diversas rochas protuberantes nas quais diversos tipos de fungos cresciam se aproveitando da umidade do terreno e da baixa insolação. Era um bom lugar para comer alguma coisa, descansar e, depois, rumar para o sul. Mas, ao se aproximarem, avistaram um corpo caído ao pé de uma árvore alta e frondosa.

O cadáver era fresco, não devendo ter mais de dois dias, o que se percebia pelo estado dos tecidos, pelo odor e por alguns tipos de moscas que o orbitavam. Não era difícil também perceber a causa da morte: estava distraído, possivelmente bebendo água do lago, e as marcas no solo indicavam que ele se levantou e, firmando a perna de apoio no chão e girando o corpo para a direita, aparou o ataque de um inimigo que surgiu de surpresa. A chuva lavou os respingos de sangue no chão naquele local, mas Eldrin viu um pedaço de espada caído entre a relva e notou que pertencia ao soldado morto. Outros adversários se aproximaram e houve um combate. Havia mais homens ali. A vítima diante dos aventureiros foi, então, atingida por uma lança bem nas costas, provocando o ferimento fatal. Caiu ao pé da árvore e agonizou até falecer.

Isaak se distanciou um pouco, observando os arredores e viu que uma horda chegou do norte. Orcs adultos, pensou ao encontrar pelos das infames criaturas nos galhos e arbustos próximos. Certamente havia acontecido um grande combate ali. Juntando as peças do quebra-cabeças, o mago concluiu que um destacamento de aproximadamente vinte homens parou por ali para beber água e encher os cantis, quando foram atacados por uma pequena infantaria de orcs. Eram organizados e treinados. Não eram orcs selvagens, por assim dizer. 

Gato Preto, distraído e cansado, ressentia não ser familiarizado com bosques e matas. Sentia falta de ambientes urbanos. Era um gato de sarjetas e esgotos, acostumado com o submundo das cidades humanas. Sentou-se, então, em um tronco caído para descansar um pouco, mantendo-se atento ao que acontecia envolta.

- Está bem, Isaak. Eram muitos orc e eram muitos homens também. Cadê os outros corpos? – perguntou Bruenor, com impaciência. De fato, havia um único cadáver no local e as marcas de combate eram muitas e muito eloquentes para serem ignoradas.

- Gigantes, caro anão. Gigantes! – respondeu uma voz não familiar. Os aventureiros olharam em volta com preocupação, tentando identificar de onde veio – Mas eles não são o único perigo nos bosques de Oyt. Cá existem bruxas, fadas e dragões. Mas ninguém é tão poderoso ou perigoso como Tunedur, senhor das sombras e príncipe de Oyt.

Bartolomeu fechou os olhos e seu semblante ficou pesado. Tunedur, senhor de Edhellond, pensou o astrólogo em élfico. Os elfos selvagens e mesmo alguns altos elfos temiam sua figura e evitavam seus territórios. Tunedor não era exatamente mau, mas seus modos misteriosos e seu extensivo contato com entes extraplanares poderosos (que, segundo os boatos, lhe servem de conselheiros) e estudos de tomos de magia antiga, faziam dele uma figura temível. Parece que os aventureiros haviam adentrado as terras de Tunedur, ou talvez o velho elfo cinzento tenha expandido seus domínios.

- Ora! Quem está falando, afinal? Mostre-se ou o terei como um inimigo! E quando encontra-lo vou parti-lo em dois! – bradou o anão.
- Isso não seria sábio... – um sujeito saiu de dentro do tronco de uma faia, que se abriu magicamente como se nele houvesse um portal escondido - ...até mesmo porque eu não vim até aqui para confrontá-los, mas para lhes avisar que os gigantes que mataram esse homem estão por perto, em seu covil a poucas léguas ao sudoeste daqui e, portanto, também não seria sábio seguirem daqui pra frente. Nós estamos observando o covil há semanas e está muito bem protegido.

Era um elfo, claramente, pois suas orelhas pontiagudas sobressaíam entre os fios de cabelos dourados e olhos púrpuros, sinais óbvios de sua ascendência cinzenta, de seu sangue nobre. Vestia uma delicada armadura de escamas prateadas sobre um gibão de couro. Nas costas, um escudo grande de madeira, uma aljava e um arco. Na cintura, uma bainha recheada com uma espada longa esguia e levemente curva. No peito, um broche de lua crescente cravejada com esmeraldas segura uma capa verde com detalhes dourados que protege os ombros e cai pelas costas.

- Eu não tenho medo de gigante algum! Mato gigantes como quem palita os dentes! – responde Bruenor, sentindo-se estranhamente acuado.
- Espere, Bruenor – ponderou Bartolomeu, para então se dirigir ao elfo, abaixando o capuz e exibindo sua linhagem remotamente élfica – Bartolomeu é como me chamam. Você sabe o que aconteceu com os homens que andavam com estes soldados?
- Não foram mortos. Os gigantes os capturaram e os levaram para a herdade de Molgrog, o gigante das colinas chefe das invasões nos bosques de Oyt. Eles estão muito enfraquecidos, tudo o que resta destes é sua herdade, mas ainda assim há muitos gigantes por lá.
- Mas quem é você, que surge assim do meio das árvores? -era Eldrin que repetia a pergunta de Bruenor, de forma menos agressiva.
- Não vim aqui entretê-los, apenas comunicar que estas matas estão protegidas pelo meu povo e ninguém os protegerá daqui pra frente. Não há mais esperança para os homens que foram capturados, e o mesmo acontecerá com vocês, se decidirem se embrenhar no território dos gigantes: encontrarão apenas perigos e morte certa -mas o tom do estranho não era apenas de alerta, parecia também de ameaça velada, percebeu Bartolomeu.

Os aventureiros se entreolharam, com se buscassem nos olhos dos outros respostas para suas dúvidas. Quando voltaram seus olhos para o elfo cinzento, ele já tinha desaparecido.

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