Estrada para os Montes Resolutos - 16° ato

a inseparável coruja de Isaak


-Que diabos será isso, Bartolomeu? -perguntou Isaak, mas ver o olhar incrédulo que estampava a face do sacerdote, continuou, mais propositivo- Talvez possamos buscar alguma resposta aqui mesmo no vilarejo.

Bartolomeu assentiu, e se dirigiram à taverna, que já estava quase fechando: Erimil esfregava o chão enquanto sua mulher passava um pano nas mesas, havendo apenas um casal mais ao canto, bebendo silenciosos, próximos à janela que dava para a praça imersa na escuridão da noite sem lua. 

-Boa noite, Erimil. Isaak e eu vimos algo estranho hoje nas matas e gostaríamos de saber se o senhor poderia lançar uma luz ao evento -perguntou o sacerdote, de forma polida, como é contumaz entre os elfos. Teria falado em élfico, mas o mago não parecia compreender a língua mais bela.
-Pois não, Bartolomeu, pode me contar o que te inquieta -disse o taverneiro, pondo o esfregão dentro do balde.

O meio-elfo narrou as descobertas noturnas, omitindo que foi a coruja de Isaak quem fez a exploração. Erimil acompanhou todo o relato com atenção, demonstrando surpresa com cada fato. Porém, poucos detalhes escapavam aos olhos perspicazes de Bartolomeu, acostumado a maquinações e tramóias: o taverneiro sabia o bastante para não achar nada daquilo novidade, mas não queria falar, preferindo fingir ignorância. Míriel, sua  mulher, porém, não conseguia esconder as emoções tão bem. O sacerdote percebeu isso e passou a dar mais detalhes da cena, dizendo ainda que vira um casebre mais ao sul da estrada, onde havia outras criaturas, mas não pôde ter uma visão mais nítida delas. 

- Erimil, será Celegail? -perguntou, num rompante, a barda.
- Shhh, que diabos está a falar, mulher? -o marido a repreendeu brandamente, como que suplicando para que ela não falasse mais.
- Quem é Celegail? -perguntou Bartolomeu, alternando o olhar entre o marido e a esposa.
- Não é nada, meu caro. Antigos fantasmas que nada têm a ver com o que você viu. Deixe isso para lá. Passem bem -Erimil queria encerrar a discussão.

Bartolomeu percebeu que não conseguiria mais nenhuma informação ali. Tentou ainda encontrar o olhar de Míriel, mas em vão: ela virou o rosto, como quem esconde as lágrimas.

- Até mais, Erimil e Míriel. Vamos para o estábulo em que Pia gentilmente nos permitiu passar a noite. Que Vandria Gilmadrith nos proteja nessa noite escura -dizendo isso, o sacerdote deixou o salão.

Vandria Gilmadrith era a deusa élfica da guerra e da justiça. Uma deusa para tempos de selvageria e batalhas, em que é preciso conter as emoções e agir em coesão com os outros. Mas era também a deusa da dor e do pesar que se sente quando alguém querido é morto. Bartolomeu não sabia bem por que pediu proteção a essa deusa para essa noite; as palavras apenas assim lhe saíram.

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Bom, ao menos temos um nome. É menos do que eles poderiam ter dito, mas mais do que tínhamos -apesar de tudo, Bartolomeu parecia animado.
- De fato. Quem sabe aqueles guardas não têm mais informações? -disse Isaak, apontando para os dois patrulheiros que viram mais cedo na taverna.

Bartolomeu recontou a história, e dessa vez achou genuína a surpresa dos guardas: 

- Muito estranho haver trolls por aqui. Mas por que vocês se aproximaram tanto? Não se deve sair da vila assim, é muito perigoso, meus senhores.
- Sabemos bem disso, mas já lidamos com trolls antes e achamos melhor investigar um pouco, para avaliar se eles poderiam ser uma ameaça para Preston -disse Isaak- Mas, me digam, quem é Celegail? E sobre esse casebre, vocês não sabem o que é? Não fica longe daqui.
- Não estamos aqui há tanto tempo, mas nunca ouvimos falar nesse nome. Mas, ao sul daqui, existe um templo antigo de Wee Jas. Recomendo guardarem distância desse local.
- E de qualquer templo, devo acrescentar -disse o guarda que até então tinha ficado calado-. São todos iguais, esses sacerdotes, preocupados apenas com os nobres e os animais: águias, corujas e leões, especificamente. -o companheiro olhou para ele, com os olhos arregalados, mas a censura foi ignorada, e ele continuou- Para nós, sobra apenas desprezo. Talvez, se por um dia, eles deixassem o conforto de seus templos e conhecessem a vida do cidadão comum, eles nos veriam com mais simpatia e dariam mais valor a tudo que temos que fazer para sobreviver, ao invés de mendigar moedas em troca de "dádivas dos deuses".

Bartolomeu queria aplaudir o guarda, que falava com o coração. Era bom finalmente ouvir um discurso sincero.

Mas devem haver alguns que caminham longe dos templos e partilham das agruras da vida, não? -perguntou.
- Ah, meu senhor. Se esses existem, eu nunca os vi.

O meio-elfo estendeu a mão, dizendo:

- Bartolomeu sacerdote de Wee Jas que jamais dormiu em um templo, à sua disposição -e fez uma leve mesura.
- Sa-sa-sa-sacerdote? Meu grandioso senhor, me perdoe a ofensa. Foram palavras que me escaparam mas nas quais eu não acredito. Longe de mim difamar os prestimosos trabalhos dos clérigos durante essa guerra. Se não fosse por eles, nós...
- Deixe disso, meu caro. Quero parabenizá-lo pela sua clareza de pensamentos,  e também pela honestidade de suas palavras. É difícil encontrar os dois juntos em uma mesma pessoa. E devo acrescentar: você tem toda a razão! A mesquinharia dos sacerdotes enfurnados em seus templos é patética. Por isso escolhi essa vida itinerante.

O outro guarda ria à larga, mas o companheiro estava com as bochechas rosadas, tentando amenizar a fúria que nem de longe Bartolomeu exibia. Por fim, suplicou:

- Por favor, meu caro senhor. Vossa Excelência! Por favor, não me castigue, não me deixe cair em desgraça com a Donzela da Morte!
- Posso garantir que sua honestidade acabou de angariar a graça de Wee Jas! Os deuses devem estar próximos aos homens, e não trancafiados em templos luxuosos. Qualquer questão que você quiser discutir, pode me procurar que serei grato em conversar com você. E lembre que, ao menos uma vez, encontrou um sacerdote que não é intolerante e mesquinho como os demais.
- Sim! Farei isso, meu bom senhor. Mas por favor, não me amaldiçoe. 
- Passem bem, bravos guardas! Que sejam sempre sinceros nas ações, assim como são nas palavras!

E, dizendo isso, cada um seguiu seu caminho. Bartolomeu ria. Sentia-se feliz em Preston, e sabia que era melhor aproveitar a felicidade enquanto ela estava ao alcance das mãos. Num piscar de olhos, tudo podia mudar.

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De volta ao estábulo, todos foram dormir, menos Bartolomeu. Contemplou as estrelas, observou a pacata vila, seu silêncio, sua escuridão. Mais de uma vez se viu tentando a se deixar tragar pelas sombras que ornavam a bela Preston, ameaçando revelar memórias da ocupação gigante, do sangue derramado nas pedras e paredes, os ecos dos gritos dos feridos. Mas, ao menos essa noite, manteve longe esses pensamentos, e se concentrou na beleza que renascia na vila, tão pouco tempo após a retomada. 

Será assim quando esses malditos gigantes forem expulsos? Será que tudo voltará ao normal tão rapidamente? E Bartolomeu devaneou, imaginando a floresta sem gigantes, enquanto esperava para ver se Míriel, ou o guarda, ou alguém viria procurá-lo e esclarecer a questão do templo de Wee Jas e de Celegail. Mas o cansaço veio, e o sacerdote encerrou seus devaneios e suas orações, e foi dormir.

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