Estrada para os Montes Resolutos - 15° ato

foi uma noite de canções e de lamentos, no vilarejo élfico

A taverna diferenciava-se das demais construções apenas pela porta decorada com vidros losangulares coloridos, e pela música que transbordava pelas frestas, abafada. Ainda assim, Bartolomeu a reconheceria mesmo que fosse surdo: o Lamento da Filha da Noite, uma canção melancólica e de uma tristeza avassaladora sobre a morte dos elfos. Guerras, dor, ambição, tolice, amor, cólera, ousadia, a música possui versos incontáveis, e cada bardo a conta a sua maneira. 

Enquanto seus companheiros abriam a porta e entrava na taverna, alheios a tudo aquilo, pois a canção era em élfico, Bartolomeu ficou imóvel do lado de fora, inundado por toda a música que jorrava pela porta aberta. A barda (era uma elfa que cantava) cantava em voz baixa, como se falasse para si, como se assumisse sua parcela de culpa em todas as mortes de seu povo por entender que ela própria estava vulnerável ao mesmo destino.

A taverna tinha uma decoração simples, mas havia uma ou outra peça especiais, meio que escondidas junto a itens mundanos. Era o caso de uma cadeira no estilo cinzento, feita de chinirè, e também de uma caixa marchetada que ficava atrás do balcão, objetos valiosos e invisíveis aos olhares dos humanos. Os aventureiros pediram a cerveja contumaz, junto com uma refeição quente de carne com queijo azul, uma iguaria que dificilmente seria encontrada em qualquer taverna humana em tempos de guerra. Para Bartolomeu aquele era um momento especial, a primeira vez que tinha contato com a cultura de seu povo desde que fora feito prisioneiro. A música tinha parado. Pediu vinho branco, tinto, cerveja, uma outra bebida destilada feita com o que sobra das uvas com que se fez o vinho e também fumo, além da refeição. Cada bebida foi servida num copo diferente, feito de osso, mas o destilado veio num copo grosso e baixo de vidro, o que dava um toque luxuoso à bebida translúcida. 

O sacerdote sorria livremente enquanto arrumava seu cachimbo, seus pensamentos indo para longe, para o que parecia ser outra vida, uma vida em que nem idade para beber ou fumar ele tinha. Degustou cada bebida devagar, como se isso o ajudasse a recuperar o início de idade adulta entre os amigos, que lhe fora roubado com a guerra. Sentia-se bem, mas não em casa, e na verdade não sabia se algum dia voltaria a se sentir em casa. Uma tristeza profunda o tomou, e esse semblante denunciava a herança élfica de Bartolomeu mais que o seu domínio do idioma ou suas orelhas. Pegou sua flauta gasta e de notas imprecisas, limpou-a, e começou a Canção da Trilha de Lágrimas, um lamento sobre os muitos lares que já tiveram os elfos, em Flaeness e em outras terras, outras épocas, e a crença que as lágrimas derramadas a cada morada perdida iriam apontar para o caminho da Terra dos Elfos -ainda que ela não esteja nesse mundo, e sim junto aos deuses imortais.

As lágrimas rolavam pelo rosto do meio-elfo enquanto ele falava da expulsão de seu povo das Matas de Gadhelyn, e da trilha de lágrimas que cismava em levá-lo de volta ao lugar de onde fora expulso. Eldrin entendia as palavras do companheiro, e os demais, o sentimento, mas nenhum entendia Bartolomeu por completo. A barda Míriel e seu marido Erimil, o taverneiro, baixaram a cabeça e escutaram, comovidos, o relato-canção do meio-elfo. Ao final, enquanto enxugava as lágrimas que não conseguiu conter mas que não viraram pranto, percebeu um leve aceno de Míriel, como apenas os bardos trocam entre si.

Em dado momento, Erimil se sentou na mesa com os aventureiros, perguntando quais os assuntos dele no vilarejo e falando um pouco sobre a vida em Preston, que fora retomada há poucos meses devido à ajuda de um grupo de aventureiros, segundo informou o anfitrião. Além dos guardas, desaparecidos há duas noites, também uma criança estava desaparecida, talvez levada pelos trolls. Mas Erimil acreditava que talvez outras forças estivessem por trás do rapto, pois os trolls jamais colocaram em perigo os habitantes, se limitando a algumas poucas incursões aos pastos.

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Era uma taverna, e não um estalagem. Por isso, conseguiram permissão para passar a noite em um estábulo nos fundos da casa de Pia, que tinha forte ascendência dos elfos das florestas (jocosamente chamados também de "selvagens"), sendo um pouco mais baixa, os cabelos ondulados e os olhos de um verde profundo. Na verdade, para Bartolomeu, era uma elfa selvagem com algum traço dos elfos dos vales.

Ainda encantado com tudo, o sacerdote não queria dormir, resolvendo então passear pelo vilarejo completamente escuro. Sendo seus moradores todos elfos, e dada a escassez de recursos em função da guerra, era natural economizarem combustível para as casas. Isaak se juntou ao sacerdote, e eles andaram em silêncio pelas poucas ruas, chegando ao topo do penhasco em que fora erguida Preston. O rio passava ruidoso ao fundo. Era possível ver a presença de algumas cavernas e de caminhos habilmente escavados na pedra, sinal de que, talvez, houvesse mais do que aquelas poucas casas da superfície. Não era incomum elfos habitarem no seio da terra, ainda mais havendo um bosque e um rio nas cercanias.

Estavam já na fronteira com Oytwood, entre pastos pequenos e plantações. De repente, Bartolomeu e Isaak viram duas luzes tênue, à distância. Pareciam fogos fátuos, à primeira vista, mas oscilavam apenas na horizontal, e se distanciavam. Isaak pediu à sua coruja para investigar melhor, e ela viu um troll puxando lentamente uma carroça com duas lamparinas por uma trilha antiga, acompanhado por uma criatura bípede deformada à frente. Trocavam algumas palavras incompreensíveis e se dirigiam a um casebre tomado por heras e com uma das paredes bastante inclinada, bem à frente no caminho. Nesse local, dois outros trolls vagavam próximos, e um outra criatura deformada observava a trilha, ao lado da porta.

Isaak retornou de seu transe, e chamou seu companheiro de asas de volta. Que diabos será isso?

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