Estrada para os Montes Resolutos - 14° ato

animais fantásticos habitam nos rios aparentemente calmos de Greyhawk... ou será a imaginação de nossos heróis?

O casebre e os arredores não forneceriam mais pistas para os aventureiros: o local fora abandonado sem maiores preparativos e, não fosse a camada de mofo e poeira, seria possível dizer que seu dono estava para voltar em breve: os utensílios domésticos, algumas parcas economias e pertences estavam todos lá, como se tivessem sido repentinamente deixados para trás -inclusive o barco. O corpo no deque tinha morrido afogado, provavelmente levado até ali pela correnteza do rio. 

O grande enigma era o que os homens-sapo faziam naquela região, distantes de seus pântanos. Para Bruenor, a resposta era óbvia: os homens-lagarto os expulsaram. Tentaram o mesmo com os homens de Stonebridge e Folly, e agora continuavam seus planos contra os demais habitantes do pântano. Mas Bartolomeu não aceitava a resposta fácil, afinal, eles mesmos desbarataram seus intentos, dando um fim a Kharlixes e também a seu fantoche, o grell/Sess’inek. O povo-lagarto era pacífico por natureza e, sem esses dois algozes, voltariam para sua terra, sem ambições de contenda e conquista. Permanecia a questão, porém. Mas não havia tempo para investigá-la: precisavam chegar a Preston.

A estrada era plana e os aventureiros avançavam com rapidez. A certa altura, porém, ouviram um barulho à frente, primeiro como um sussurro, depois alto como uma trombeta. Aproximaram-se com cautela, apenas para estancarem o passo e fitarem o grande inimigo que se colocava a sua frente. 

Nem sempre espadas, magias e flechas são suficientes para vencer os inimigos, ainda mais quando ele parece ser tão mais poderoso que não há esperança de vencê-lo pela força. É nessas horas que é preciso contar com a astúcia e a sorte. 

A estrada acabava subitamente, engolida por algo que parecia uma enorme serpente marinha. Deslizava por entre as rochas, espirrava água por todos os lados. Parecia a guardião de Preston, o vilarejo que ficava no topo de uma colina escarpada, muitos metros acima de onde estavam. Talvez pudessem subir o rio para encontrar uma passagem mais segura, mas essa poderia ser uma esperança  vã. Como sempre fazia, resolveram enfrentar o perigo, aproveitando-se que era a hora propícia, o lusco-fusco, o pôr-do-sol, momento em que, sabidamente, os dragões e criaturas do gênero enxergam mal. Poderiam passar despercebidos pela fera.

Assim, os aventureiros aproximaram-se lentamente, saltando de pedra em pedra, em silêncio. A serpente fluvial continuava sua ronda furiosa. Parecia estar em todos os lugares do rio ao mesmo tempo, com seu ronco incessante, espirrando água por todas as rochas. Em determinado momento, em que o salto era impossível, Issak teletransportou-se até uma rocha mais afastada, levando consigo uma corda com arpéu em uma ponta, enquanto a outra ponta ficou presa na rocha em que os demais se encontravam. O mago esticou a corda e prendeu o arpéu em uma saliência de seu rochedo, formando uma passagem segura para os demais.

Gato Preto andou pela corda bamba, numa proeza de equilíbrio, e chegou salvo ao rochedo. Bartolomeu ofereceu a proteção de Wee Jas a todos os companheiros e, um a um, todos fizeram a perigosa travessia sem despertar a atenção do monstro. Quando tinham cruzado, Eldrin queimou o ponta da corda que tinha ficado na outra rocha, liberando assim a corda e não deixando evidências de sua passagem para a criatura. 

Quando alcançaram a outra margem, puderam ver uma escada íngreme escavada na rocha. Enquanto subiam, o tom rosado do poente esmaecia, mas ainda não era noite fechada quando adentraram no vilarejo de Preston.

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Preston era diferente de tudo que já tinham visto: as ruas eram pavimentadas, as construções com paredes de pedras com cortes e encaixes precisos, os telhados com duas águas curvas de escamas de placas de pedras azuladas. Não havia ostentação, apenas esmero em cada detalhe, tudo feito para ser prático e belo. Bartolomeu, por mais que jamais tivesse visto algo assim, imediatamente identificou as construções como sendo élficas. As cidades humanas contavam com construções puramente funcionais e baratas, ou então prezavam o luxo mais que a beleza propriamente. Parecia não haver espaço para aquele tipo específico de beleza, que não estava em uma construção apenas, nem em um detalhe dourado qualquer, pelo contrário: Preston se destacava pelo conjunto das edificações, um esmero entranhado nos pequenos jardins, fontes, árvores, telhados, tudo formando um vilarejo bastante pequeno, mas integrado com a floresta na qual estava incrustado, as construções dispostas de forma a não se destacarem, e sim compor um cenário. Como uma pintura. Eram necessários anos e paciência para que a arquitetura de um vilarejo tomasse aquela forma, e os humanos não eram conhecidos por isso. Era um vilarejo élfico.

Mas vazio. Não havia uma alma sequer marcando passos nos ladrilhos de pedra. Andaram um pouco pelas ruas, até, finalmente, encontrar uma elfa carregando um cesto de roupas. Vestia-se com finas roupas e passaria por nobre em qualquer cidade humana mas, entre os elfos, esse era o costume: plebeus pareciam nobres, pois todos tinham direito ao conforto e à beleza.

Gato Preto se aproximou dela, encantado por sua beleza mas, principalmente, porque ardia de desejo: queria encontrar uma taverna o mais rápido possível, para saciar a sede que lhe queimava a garganta e que apenas um caneco de cerveja resolveria.

- Olá! Onde posso encontrar uma taverna?
- O que temos aqui? Um porco sem modos, vestido de gente? - a elfa falava em seu idioma natal e não sem demonstrava qualquer emoção - Existe uma pocilga ao norte, próximo ao córrego. Talvez lá você possa rolar na lama e beber a água. Quem sabe ela não lhe traz alguma educação?
- Perdão, mas não entendo sua língua.
- A taverna é aquela construção ali, atrás de você -disse a elfa, em língua mercante.
- Obrigado.

Bartolomeu se divertiu com a cena, mas no fundo ficou preocupado com a hostilidade gratuita da elfa. Estava ficando cansado de ter que, a cada vila, a cada cidade, provar que não era algum baderneiro. Numa região assolada por gigantes, qualquer presença humana deveria ser bem vista. Lembrou-se, porém, dos bandidos que tomaram o forte: homens e orcs aliados para pilhar a região assolada pela guerra. Foda-se, pensou, dando de ombros e sem chegar a um consenso se a hostilidade era justificada ou não e mais preocupado com encontrar a taverna, pedir uma boa bebida e comer uma refeição quente.

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