O disparo para a cruel verdade, parte IV



Parte IV - Fogo e fúria

texto de Leandro Azul e Sacripanta

A criança baixou os olhos perante as palavras odiosas que lhe dirigia o irmão. Apesar disso, Eldrin sabia que ele estava certo. Sentia-se mal por esconder esse segredo da única família que conheceu, e que o acolheu. Era filho deles. Pediu desculpas sinceras. 

Sabia que para Vince nada disso era segredo: o irmão sempre o acompanhava em suas incursões para tentar dominar a força misteriosa que dele emanava. Mas não esperava que mais pessoas soubessem, ouvindo então com genuína surpresa as palavras de seu pai:

- Sabemos disso desde que ele veio para essa casa, Clef. Mais tarde vocês saberão das condições, mas você não foi abandonado por ninguém, meu filho caçula. Seus pais apenas buscavam salvá-lo. Procuramos auxílio, mas nesse fim de mundo, nem os clérigos o aceitariam. Todos temem aqueles com um dom natural. É uma vila pequena, de cabeça mesquinha. Lamento se não pudemos ajudá-lo da forma como deveríamos, mas é que não compreendemos essas coisas mágicas; não somos como você. Mas há um pequeno templo a dois dias daqui. Lá há muitos livros, e sacerdotes de coração bom, dispostos a ensiná-lo a lidar melhor com seus poderes. Estive lá na lua passada, e falei com Gilberion. Eles sabem de muita coisa, têm muitos livros, como eu disse, tem gente com poderes mágicos que estão lá também, você acredita, Eldrin? Qual é o nome do deus do templo mesmo, Luna?

- Lendor

- Isso mesmo, Lendor! Seus seguidores são reclusos, mas é um deus bom. Sabe o filho da Hildeberga, a comerciante? Pois então, ele tinha fraqueza nos ossos e foi para lá…

- Que merda vocês estão falando? -Clef interrompeu. Levava as mãos à cabeça e puxava alguns tufos de cabelos, completamente fora de si. Falava rápido, comendo algumas sílabas.- “Eu já sabia da sua monstruosidade”? “Lamento”? “Ajuda”?? Vocês aceitaram uma besta dessas em casa e ainda querem ajudá-la? Vocês não podem ser meus pais! Quem me abandonou na soleira da porta, numa madrugada fria? Me digam! Pois do ventre podre de vocês é que eu não posso ter nascido, miseráveis. -dizendo isso, Clef deu um soco na parede, deixando uma marca de sangue.

- Olha, rapazinho, eu não sei o que você andou tomando para essas palavras te saltarem assim da boca, como se fosse um daqueles moleques da milícia, que acham que são os donos da justiça nessa cidade. Eles são uns patifes, uns jovens que se metem a justiceiros e de nada sabem. Mas se você soubesse mais sobre o Donavan, pensaria duas vezes antes de acreditar neles.

- Eu já tenho idade suficiente para me meter aonde eu bem entender, velho. E para saber o que é certo e o que é errado. Algumas coisas são como são, e assim devem permanecer. Essas aberrações devem ser expulsas daqui, e não acolhidas! Você me deixa mais aliviado ao saber que vocês todos traíram a mim e à vila.

Dizendo isso, avançou em direção a Eldrin. Depois de todo esse falatório, estavam próximos.

Vince tentou se interpor entre o irmão e Eldrin, mas um chacoalhão arremessou o irmão mais novo para longe, chamando-o de cúmplice traidor. Uma bofetada levou Eldrin ao chão. A criança não conseguia reagir, ao ver seu irmão-herói se comportar dessa forma violenta, raivosa. O pai tentou segurar Clef, agarrando-o pelo tronco e tentando incutir alguma razão na cabeça do filho, com palavras, mas um soco no meio das costas fizeram com que ele soltasse o filho e um chute na cabeça o arremessou em direção à lareira, espalhando algumas brasas no chão da casa. Tomou ainda uma bica nas costelas. Luna também tentou conter o filho, quebrando um vaso em sua cabeça, mas Clef estava fora de si, parecia estar ainda mais forte, mais violento. Chutou a própria mãe e bateu sua cabeça contra a mesa. Puxou da cintura uma bela adaga ornamentada, brilhante, superior a qualquer coisa que se podia encontrar no pobre e pequeno vilarejo em que moravam. 

O vaso pesado se partindo.
A adaga incrustada com rubis.
A angústia.                                                                  
O som oco de um corpo sem vida caindo no chão.

Eldrin estava no chão, tentando se levantar, vendo Clef se aproximar. O pai gemia de dor, se arrastando pelo chão. A mãe se levantava com vagar, ainda zonza. Vince se interpôs entre os dois, jogando uma cumbuca com água na cara do irmão, numa tentativa desesperada de contê-lo. Era uma criança. Chutou o irmão no meio das pernas, o xingou e partiu pra cima. Vince não tinha noção do perigo. Clef, quer porque estivesse fora de si, quer por ato reflexo, usou a adaga para se proteger. Vince era uma criança. A adaga perfurou fácil a carne macia. Vince caiu num baque surdo.

Eldrin olhava a cena sem saber se eram seus olhos de criança ou seus olhos do transe, mas talvez a surpresa imobilizante fosse a mesma. Seria tudo aquilo um sonho? Um pesadelo? O que era a verdade naquilo tudo?


transe e lembranças, passado e presente se entrelaçavam no destino de Eldrin

De joelhos, aos prantos, a única reação, instintiva, foi um grito, mas não um grito qualquer e sim o lamentar de uma grande dor, um som gutural provindo de suas entranhas. Seus olhos arderam em chamas e não sentia mais controle de seu poder ou de seu corpo, a realidade passava a passos lentos, enquanto ele queimava. Era o grito ancestral de sua linhagem mágica, assumindo o controle onde antes só havia inércia. 

Era um grito descontrolado de uma sensação desconhecida. Eldrin jamais experimentara a perda ou a impotência, e seu sangue mágico vinha agora ao seu resgate, de forma crua, avassaladora, selvagem, disruptiva: tudo começou a tremer, ouviu-se o som de ventos de todas as direções circulando em torno da casa. Seus pais tentaram acalmá-lo com palavras baixas, sufocadas pelo pranto de ver Vince ensanguentado no chão, mas o esforço era inútil: o caminho era sem volta, uma dor e um poder além do controle de Eldrin, o mesmo medo de descontrole que o acompanharia até aquela noite com Alaïs. Clef, que avançava, foi arremessado, quebrando as grossas janelas que mantinham o inverno longe do interior da casa. A garganta do jovem queimava:

- AHHHHHHHHHHH

As brasas que saltaram da lareira brilharam alto, explodindo num silvo agudo seguido por uma grande explosão, um grito de angústia e dor, que destruiu a pequena casa. 

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          Parte V                                                              Parte III                    Parte II                        Parte I

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