O disparo para a cruel verdade - parte III

Eldrin não podia resistir aos encantos da bela Alaïs


PARTE 3 - É preciso lembrar

texto de Leandro Azul e Sacripanta

A manhã seguinte foi estranha. Eldrin acordou no susto, todo suado sob as cobertas. Falava consigo mesmo sobre o maldito sonho que o perturbava, sobre a cena que, cada vez mais, achava melhor não querer se lembrar. 

-Mas você deveria se lembrar. Você precisa se lembrar, Eldrin. Há alguma coisa presa em você, como uma engrenagem que só funciona pela metade, mas não tem consciência disso.

Só então Eldrin se deu conta de Alaïs, sentada ao seu lado, envolta no cobertor. Percebeu também que ele falara sobre seu sonho em voz alta, e não por pensamento -seu irmão Vince sempre lhe alertara desse hábito.

Ao contrário do meio-elfo, Alaïs não parecia estar de ressaca; apenas tinha os olhos fundos, como se pouco tivesse dormido. 

- Não sei se quero saber a verdade por trás delas. Queria poder apenas dormir tranquilo.
- Há quanto tempo você tem esses sonhos?
- Desde sempre. Desde os nove, dez anos -completou, depois de ver o olhar interrogatório de sua amiga.
- Você já foi abençoado com a ignorância por muitos anos. O que você talvez não conseguisse suportar naquela época, agora certamente pode. Eu posso te ajudar a se lembrar.

Eldrin permaneceu calado. Alaïs era uma intrometida, sem dúvidas, mas a verdade é que sua vida até então fora muito solitária, sem amigos que durassem mais de uma noite ou que fizessem perguntas inconvenientes; sem alguém que se importasse com ele. Ainda assim, desconfiava.

-Por que você está tão interessada em me ajudar? -perguntou, de maneira direta.
- Você me ajudou esta noite. É o mínimo que posso fazer para retribuir. -e, dizendo isso, Alaïs acariciou o ventre.

O feiticeiro fitou o ventre da bela mulher deitada na cama, boquiaberto. Uma miríade de pensamentos passaram por sua cabeça num átimo: num momento se questionava se era possível engravidar uma mulher tão rapidamente, mas no outro já vinham cenas de seu filho correndo com ele e Alaïs pelos campos, a bela casa dos dois, um filho com dons mágicos e com pais zelosos, que o aceitariam e educariam da melhor forma para aprender a lidar com a magia, e logo esse filho crescia, tinha um sorriso especial, sincero como o da mãe... Olhou para a elfa, piscando os olhos repetidamente.

- Não precisa ficar com tantas esperanças de ser pai. Estava me referindo ao desjejum. Você pegou ontem à noite, antes de subirmos para o quarto. Tenho certeza de que tinha segundas intenções e não pretendia me deixar sair do quarto pela manhã inteira. Foi um pensamento nobre -disse, completando com um sorriso malicioso, se deleitando com a própria piada, que levou o feiticeiro a pensar que seria pai.

Eldrin riu com gosto. Estava, até o momento, tenso com a conversa, mas a leveza de sua amiga o confortara. Era mais fácil encarar os problemas assim. 

- Um filho de meio-elfo com uma elfa é o quê? 
- Hum, boa pergunta. Teria que estudar sobre o assunto, mas imagino que um elfinho lindo. Qualquer que seja o resultado, será bom. Te contei que tenho uma técnica infalível para curar ressaca? -e, dizendo isso, Alaïs se enfiou debaixo dos cobertores, puxando Eldrin para perto.

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A nevasca continuava, do lado de fora. O quarto estava frio, mas os cobertores, assim como as paredes, eram grossos. Alaïs vestiu sua roupa e começou a preparar uma mistura.

- O que é isso?
- É para fazer você se lembrar.

Eldrin bebeu o líquido, fervido junto com vinho e aguardente. Alaïs cantarolava baixinho, o cheiro forte das ervas queimadas em seu incensário parecia tomar todo o quarto. Os sentidos de Eldrin aguçaram-se subitamente. Parecia ver cores na melodia da elfa, ouvia diferentes tipos de estalos vindo das ervas, como se cada uma produzisse um ruído característico. Era capaz até mesmo de ver o frio branco tentando atravessar as peles sob as quais se deitava. Suava.

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a canção de Alaïs embalava o transe do feiticeiro, que se viu transportado para memórias que julgava ter esquecido

Aos poucos, as sensações foram se tornando mais distantes. Alaïs parecia estar longe, sua voz suave penetrando o véu de escuridão que cobriu tudo de repente. Ele era novamente uma criança, voltando para casa de seus pais junto com seu irmão Vince, puxando a lenha coletada para aquecer a noite fria. Seu irmão mais velho, Clef, discutia agressivamente com o pai, Tebas. Seu pai já não era mais nenhum jovem, mas ainda estava muito longe de perder o vigor. Clef, porém, era forte como um touro, e fazia parte da milícia local, um grupo do qual Tebas queria distância.

- Se livrem dele antes que seja tarde. Não é possível que vocês não consigam ver o perigo que todos nós corremos! E eles também o querem longe daqui!
- Deixe disso; eu preciso de você ao meu lado, Clef, e não junto a essa corja. Você não sabe quem eles são, meu filho. Eu sei. - respondeu Tebas.
- Você não sabe de nada. Está velho e fraco, obcecado com essa cria bastarda abandonada pela própria família! Esse moleque será a ruína dessa família. - e, voltando-se para Eldrin- Você é uma aberração. Não permitirei que destrua meus pais e meu verdadeiro irmão!

Eldrin não entendia em que do que eles falavam e estava completamente assustado, paralisado na entrada da casa. Sua mãe, Luna, pegou a sua mão e disse: 

- Clef está alterado; ele não fala por mal, e sim por medo.

De fato, o irmão mais velho estava alterado, mas não parecia amedrontado, pelo contrário: tinha as pupilas dilatadas, só conseguia falar aos berros e tinha uma postura belicosa. Andava de um lado para o outro, esbravejava. Até que parou de súbito e, dedo em riste, acusou Eldrin:

- Diga que é mentira, seu fedelho! Eu o vi nas matas, fogo saía pelas suas mãos, seus olhos brilhavam em chamas. Tinha a face de um demônio! O que aconteceu depois foi pior, você incendiou aquele trecho da floresta, matou os animais e voltou pra casa como se nada tivesse acontecido. Nada foi acidente. Eu vi com meus olhos, sua aberração!

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Os pensamentos se tornaram mais obscuros, e Eldrin começou a sentir o cheiro de incensos e a ouvir o barulho do vento carregando a neve. Tentou ordenar que o tirassem dali. Já tinha visto o bastante, não queria de volta a rejeição e o sofrimento. No quarto, o feiticeiro em transe se debatia contra as cobertas, as mãos firmes de Alaïs o seguravam, mas sua voz era suave:

- Não se esconda, Eldrin. Você precisa saber quem você é. precisa enfrentar, aceitar, encarar seus demônios. Deixe para trás o conjurador amedrontado: torne-se o feiticeiro que você nasceu para ser. É preciso se lembrar!

As palavras pareciam vir de dentro de sua cabeça, e traziam uma voz familiar. O feiticeiro se acalmou e voltou para aquela casinha em um vilarejo perdido nas memórias do passado.

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                                                                                                                     Parte II                Parte I

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