Estrada para os Montes Resolutos - 9° ato

nossos heróis, conhecedores das matas e dos perigos do mundo, sabiam muito bem que levar cavalos e mulas em incursões dentro de floresta fechada não era a coisa mais inteligente do mundo, por isso adentraram a pé, mais uma vez, na Floresta Escura.

Texto do Mestre Cavernoso e do Sacripanta


Os sinais da guerra eram visíveis. Os passos de milhares de soldados e mercenários marcavam o solo com pegadas profundas manchadas de sangue e suor. A relva que antes amanhecia coberta pelo orvalho e as flores que perfumavam os campos não cresciam mais, pisoteadas e destruídas sob a lama revirada onde se depositaram os restos da campanha militar de liberação de Hochoch, apenas alguns meses atrás. Os gigantes que sitiavam a vila não esperavam que os Cavaleiros Guardiões liderassem um exército inteiro a partir da Floresta Escura, espremendo-os contra a calha do Arroioreal Os homens livres experimentaram a vitória naquele dia e as flâmulas da coruja argenta tremularam triunfantes sobre as cinco colinas da cidade antes que o sol se pusesse atrás dos Picos da Barreira. Isso já passou. Agora, a guerra eclodia na fronteira, ao norte, onde no horizonte sempre pairava um nevoeiro cinzento que hoje se misturava ao céu rosado do crepúsculo em que Luna emergia ainda opaca, quase cheia e Celene, minguante, praticamente não se via.

Seguindo das instruções de Ceorn, os aventureiros se lançaram novamente na estrada, caminhando com passos largos, pois a noite se aproximava e Wulftheim não tinha muito tempo antes que a maldição de Sadri se consumasse perpetuamente. Andaram apenas cerca de três quilômetros até que atravessaram um pequeno riacho para chegar a uma encruzilhada. Em frente, uma grande colina de rocha erguia-se solitária na paisagem dominada pela Floresta Escura, a face sul de sua encosta era um paredão sulcado pela chuva e pelo vento, sobre o qual um pequeno castelo de muros altos e cansados apontava suas três torres para os céus. Os viajantes, contudo, desviaram de sua rota, pois Ceorn falou que deveriam subir o Córrego Tortuoso, sobre a encruzilhada das almas, que precedia o caminho para o Forte Integridade. Aí, pois, os aventureiros iniciaram a subida do rio por uma estradinha terciária porcamente mantida aberta por capinas irregulares e pela passagem ocasional de pedestres – o que era surpreendente, na verdade.

- Que bela novidade – disse Bruenor – achei teríamos que vadear um rio gelado até o tal vilarejo élfico, parece que eles aprenderam alguma coisa nos últimos duzentos anos e não andam mais se pendurando em árvores. – o comentário causou leve incômodo em Bartolomeu e Eldrin, dois homens em cujas veias corria ainda forte o sangue élfico.

A alegria do anão não duraria muito, contudo, pois conforme aprofundavam a caminhada para o interior da mata, a estrada se tornava cada vez mais difícil de cruzar, dominada pela vegetação que avançava opressivamente, por vezes fechando completamente o caminho, forçando os aventureiros a usarem suas adagas, espadas e machados para abrir pequenas picadas. Quando a noite caiu tinham andado uns cinco ou seis quilômetros e o cansaço começava a abater seus ânimos.

Sedento, Issak aproveitou uma breve pausa dos colegas para se afastar por um momento da estrada rumo à beira do córrego. O mago se abaixou, tomando cuidado para não molhar suas vestes excêntricas e belas, imergiu as mãos na água cristalina e depois levou à boca, fechando os olhos e por um breve instante teve a impressão de que uma estranha criatura o observava do outro lado, por entre às árvores, em meio à escuridão. Pôs-se de pé e um frio percorreu sua espinha. Olhou ao redor e fitou os companheiros ainda parados na estrada. Virou-se para as matas novamente e não viu nenhum sinal de qualquer fera.

Continuaram a caminhar até que a estrada os levou a um arco abaulado de pedra que cruzava sobre o rio. Pararam por um instante para observar, e viram que aquele era um pequeno afluente do Córrego Tortuoso. Suas águas, que passavam calmas e límpidas sob a ponte, formavam um pequeno lago à beira de um barranco do alto do qual caíam formando uma belíssima cascata. Perceberam que ali a luz do luar conseguia penetrar por entre as copas das árvores, vencendo a escuridão da floresta. Todavia, ao longe escutaram um trovão e o luar foi encoberto por pesadas nuvens que agora pairavam sobre a Floresta Escura.

- O que é aquilo ali na frente?- perguntou Bruenor, falando baixo. O anão apontou com o machado para um ponto luminoso cerca de quinhentos metros a frente. 
- Ignis fatuus, ou fogo dos tolos. Não passa de uma luz que emana de pântanos e sepulturas devido aos gases que ficam presos sob a terra, nada para se preocuparem – falou o feiticeiro, cuja palavra merecia confiança, afinal, claramente um manipulador daquela força elemental poderosa e fascinante, além de um conhecedor do fogo, em todas as suas formas -mesmo que só no nome.
- São de fato comuns sobre sepulturas, mas é prudente evitá-los - completou Bartolomeu, com voz grave. Não compartilhava da descrição técnica do feiticeiro.

O sacerdote era familiar com essas aparições, afinal, viveu para ver a guerra e as velas brancas que se erguiam sobre os túmulos na floresta. Não eram bons agouros. Agora que Wee Jas abraçara o servo, Bartolomeu podia sentir à distância a energia perturbadora dessas criaturas, mortos-vivos aprisionados, vagando sem propósito pelo local de sua morte. 

Mas o caminho não permitia desvios. A trilha seca passava a poucos passos da luz. Para alívio do clérigo, ela ficou parada enquanto passavam, bruxuleando sinistramente, ainda que não ventasse sob as copas altas das árvores da Floresta Escura. 

Bartolomeu pensava que deviam estar próximos do vilarejo. Se é verdade que o local foi assolado por uma besta é possível que tenha se transformado em um cemitério, nada obstante, para sanar a dúvida era preciso continuar a caminhada. Avançaram, então, algumas centenas de metros pela estrada, que a partir da ponte era pavimentada com pedras de rio polidas recobertas com líquens e fungos e chegaram às margens de um grande lago em meio ao qual as gigantescas árvores da Floresta Escura se levantavam formando ilhas em que os elfos erigiram sua vila. Lá não se viam casas, torres ou castelos, pois as habitações élficas foram escavadas nas próprias árvores. E como tudo no entorno era alagado, construíram passadiços de madeira que interligam tudo e às vezes formavam pequenas varandas e calçadas em volta dos troncos das árvores.

Onde o grupo só via passarelas junto aos troncos, Bartolomeu imaginava as lamparinas mágicas acesas, contemplava o trabalho lento dos artesãos, descobrindo os caminhos pelos nós das árvores, construindo escadas e passarelas de modo a não interferir no fluxo dos troncos grossos, os caminhos se unindo com os outros em harmonia, como se eles próprios fizessem parte das árvores. Imaginava os salões escondidos sobre os galhos altos das copas, o som das harpas ecoando. Era um vilarejo grande, o maior que Bartolomeu já encontrara. Deveria ter sido lindo, em sua glória. O sacerdote foi tomado por angústia.

Mas não havia tempo para se lamentar. Ainda que fosse o mais filosófico e o mais sensível do grupo, Bartolomeu nunca deixava ser dominado por seus questionamentos e emoções. A vida o ensinou a ser pragmático, a nunca baixar a guarda, a não deixar de lado as obrigações presentes: precisava encontrar uma mandrágora. Saiu à procura de uma.

Mas não havia nada naquelas margens. Precisariam adentrar na vila, algo que Bartolomeu não queria. Queria evitar o encontro com o Devorador. Mas não tinham muita escolha, naquele momento. Teriam que adentrar na vila abandonada. O sacerdote engoliu em seco o mau presságio, e levou o grupo pelas plataformas abandonadas, mas ainda intactas devido à poderosa magia élfica.

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