Estrada para os Montes Resolutos - 8° ato

druidas podem assumir tantas formas que, às vezes, é muito difícil reconhecê-los; contudo, os aventureiros esperavam que Ceorn não estivesse camuflado ao recebê-los

Texto do Mestre Cavernoso e do Sacripanta


"Puta merda", xingou Bartolomeu em voz alta, olhando para as duas partes do corpo do velhaco Duban. Ainda que as práticas do sacerdote deixassem Wurren e Duncan de orelhas em pé, ele não era nenhum tipo de carniceiro ou assassino, apenas não acreditava que orcs, goblins e gnolls merecessem o benefício da dúvida: eram seres malignos e nada de bom viria ao mundo pelas mãos deles. Já os humanos, não, eles mudam, se adaptam e andam sempre por uma linha cinzenta de moralidade: eles têm escolhas, e não uma natureza perversa movendo seus atos.

Por isso a morte do velho era uma infeliz fatalidade. Ele se dispusera a acompanhá-los, temia pelos perigos do local. Mas Bartolomeu não esperava ter que protegê-lo de um tronco de árvore arremessado a distância que nem uma lança alcançaria. Ele juntou as duas partes do corpo a uma rocha, levou-o até a margem do riacho, fez sua oração para os deuses, e jogou-o lá. O riacho não era muito profundo, mas com a pedra ele ficaria junto ao leito. Era uma sepultura digna. Mais digna que a do gigante, deixado morto na estrada.

Os outros aguardaram pacientemente enquanto Bartolomeu fazia os preparativos. Terminado tudo, o que fazer?


- Humpf! Pelo menos agora podemos levar a mula para onde quisermos – disse Bruenor com humor sombrio de gosto duvidoso.


Ainda que Eldrin protestasse, dizendo que deveriam voltar à cidade, o fato de que ele deliberadamente enxotou o druida que procuravam acabou não angariando nenhuma simpatia ao seu apelo. Na verdade, estavam todos meio chateados com o feiticeiro, pois ele acabou protelando uma missão que deveria já ter sido resolvida. Ao invés de ser fiel ao que o grupo tinha acordado -buscar a cura para Wulftheim-, ele preferiu destilar sua falta de simpatia ao velho, enxotando o druida que, potencialmente, poderia curá-lo. Foi uma atitude mesquinha e que obrigava o grupo a ir para ainda mais longe da cidade, em direção à Ponte Nova, local em que o druida disse que estariam, caso precisassem dele.

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E os aventureiros seguiram então pela estrada, pois ainda não havia escurecido e, com sorte, poderiam alcançar Ceorn. O terreno acidentado fazia a estrada serpentear. O caminho de terra sulcada desapareceu quando cruzou uma grande laje de pedra para logo em seguida mergulhar em uma garganta onde se tornou um estreito pedaço de chão entre paredões de pedra marcados pelo tempo, onde arbustos ocasionais abrigavam dezenas de corvos que observavam a passagem dos aventureiros, causando-lhes certo desconforto.

- Chiu! Chiu! – Bruenor fez um gesto com os braços enquanto olhava com desgosto para as aves; seus olhos castanhos comprimidos entre a protuberante sobrancelha e as maçãs do rosto – E essa estrada que não acaba? Cadê Ceorn?! – o anão tentava disfarçar o claro incômodo que sentia com as aves. 

Bartolomeu também manifestou incômodo, pois aquele era um dos vários locais que identificou propício para uma emboscada, mas não estava preocupado o bastante para tomar as devidas precauções -afinal, tinham muita pressa. Não sabiam até quando (ou se) poderiam reverter a maldição do velho estalajadeiro.

- Calma Bruenor, são só corvos. Não fazem mal nenhum – disse Isaak, tentando espantar a pecha de mau agouro das aves.

Todavia, o tempo passava, a noite se aproximava, e nenhum sinal do velho. Claro, aquela ravina havia ficado para trás, pois antes do pôr do sol a estrada emergiu para uma área aberta e relativamente plana, onde se via, a leste, a sombra da Floresta Escura e bem distante, ao norte, o relevo de uma colina sobre a qual as chaminés de uma fortificação fumegavam. Gato Preto pensou em comentar algo sobre ela, imaginando inicialmente que se tratasse do destino do grupo, refreou a fala, porém, ao perceber que a estrada, agora claramente destacada do mato alto que a circunda, os levaria até uma paliçada feiosa apenas poucas centenas de metros à frente, onde fazia a curva junto a um córrego que passava remansoso pela borda da floresta.

Os aventureiros se aproximaram e viram que não havia assentamentos, fazendas, moinhos ou o que quer que fosse em volta da paliçada. A visão daquela cerca de estacas de madeira fincadas no chão causou calafrios, pois dava a exata medida da precariedade das defesas geoffitas na inglória batalha com os gigantes. Se ali, tão próximos da fronteira com o poderoso e rico Grande Ermo, a poucos quilômetros de distância de uma vila grande e importante como Hochoch, as defesas eram tão precárias, imagine no interior rural do grão ducado, em vilas remotas próximas das encostas, onde antes nenhuma guerra havia chegado. Podia-se supor o massacre dos aldeões sob as rochas e trovões dos gigantes descendo a montanha.

Em compensação, podia-se também ter um vislumbre da pequena aldeia protegida através dos vãos daquelas estacas entrelaçadas que (agora os aventureiros podiam ver melhor) surgiam sobre as banquetas externas do caminho coberto. Conforme se aproximavam, cruzando a esplanada recém aberta na mata (do que os tocos de árvores derrubadas à machadadas eram prova), notaram a presença de dois soldados à beira da paliçada já atentos à sua aproximação. Atrás deles, a estrada penetrava na cerca de madeira através de dois pequenos portões improvisados, descendo até um fosso amplo onde corria uma água aparentemente desviada do córrego e uma precária ponte de madeira conduzia até uma escada precária existente na elevada escarpa de terra, palha e pedras soltas que compunham a última barreira de proteção do vilarejo.

- Alto lá, viajantes! Identifiquem-se e digam o que vêm fazer em Pontenova.
Gato Preto tomou a dianteira, exercendo sua diplomacia, para explicar que eram apenas viajantes em busca de Ceorn, um velho herbalista que diziam morar ali.

- Ceorn, o místico?
- Ficamos sabendo que é um druida da antiga fé
– respondeu o felino.
- Sim, ele está aqui sim. Mas não mora em Pontenova. Vem aqui para curar os enfermos e alimentar os famintos, depois vai embora sei lá pra onde. Dizem que ele vive na floresta e que Ehlonna comandou seus servos diretamente à sua proteção. Sei lá.

Os aventureiros entraram sem necessidade de maiores mesuras ou explicações. Os soldados estavam muito mais preocupados com ataques de gigantes, orcs e feras do que com viajantes incautos que se arriscavam na fronteira. Depois de vencerem a escarpa, tiveram a visão da aldeia de não mais de cem pessoas. Havia algumas poucas construções de madeira, mais elaboradas, altas e destacadas das demais, sempre cobertas por espeça camada de palha e feno. Porém, o restante da vila era composto de tendas e barracas militares onde as pessoas se amontoavam dividindo espaço com animais, sacas, caixotes e barris.

Ceorn era hábil em curas mágicas e medicinais, tendo dedicado muito tempo para aprimorar conhecimentos ocultos para a maioria das pessoas

Não demorou muito até que eles descobrirem onde estava Ceorn: no barracão junto a muitos homens feridos deitados em camas improvisadas entre carroças e baias de cavalos, recebendo cuidados médicos e atenção de Ceorn e algumas damas que zelavam por ferver panos e fazer torniquetes, enquanto o velho místico usava um pilão de madeira para amassar ervas e sementes a fim de preparar unguentos e bebidas fortes para limpar feridas e afastar a dor daqueles homens, enquanto um velho rude, de tapa-olho, amolava cutelo, facas, pinças e limpava um serrote para amputar os membros severamente lesionados de dois dos soldados caídos, arrancar dois tocos de flechas presos ao corpo de um outro e limpar o globo ocular vazado por destroços de um quarto homem.

Após dar as boas vindas, Ceorn não se perdeu em maiores mesuras:

- Ainda bem que vocês chegaram e puseram um fim ao bando de gnolls. Se muito mais tempo se passasse teriam conseguido concluir seu cerimonial infame, no qual o líder do bando é consagrado ao deus demoníaco Yeenighu. Se aceito, o sortudo lorde gnoll torna-se um Colmilho de Yeenoghu, um escolhido do deus-demônio. É através deste Comilho que os gnolls são criados, pois quando um cão-selvagem ou um lobo-da-terra se alimenta de uma presa morta por ele o animal passa por uma terrível transformação que deforma e transtorna seu espírito animal, transformando-o em um gnoll! Toda a nossa comunidade está grata pela ação altruística dos senhores. Se houver algo que possa fazer em retribuição...

Os aventureiros respiraram aliviados por finalmente encontrar um anfitrião hospitaleiro. Agradeceram as palavras de boas vindas e apresentaram o velho Wulftheim, explicando a situação.

- Wulftheim! Sua fama o precede. Sem dúvida é uma maldição fantasmagórica, uma abominação para Ehlonna das Florestas. Há cura para seu amigo, mas têm que correr, pois sua vitalidade se esvairá por completo ao amanhecer! Eu posso curá-lo se preparar um unguento poderoso capaz de restaurar sua juventude roubada. Faço isso se conseguirem uma mandrágora inteira! Infelizmente, aqui não as há. Porém, subindo o Córrego Tortuoso, há uma localidade élfica abandonada em que havia muitas delas! Infelizmente, um monstro terrível expulsou os elfos de lá e ninguém volta a salvo. Chama-se Fuioroaná. Dá para ir e voltar numa noite inteira, porém terão que ser ligeiros e não poderão parar para descansar! Tragam-me a mandrágora e seu amigo será salvo!

- Bom, será este nosso caminho então, vocês concordam? - Bartolomeu perguntou aos demais, que apenas acenaram com a cabeça.

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