Estrada para os Montes Resolutos - 13° ato

o Forte Diligência não era uma belezura, mas sua muralha ao menos era maior que um homem em pé e contava com cinco torres -sem cobertura, porém

Escrito em colaboração com o Mestre Cavernoso

Wulftheim os aguardava a uma distância segura da cidade. Suas feições já eram mais semelhantes à do estalajadeiro que conheciam, sinal que o efeito da magia estava se esvaindo. Bartolomeu fitou o amigo por um longo tempo, até se convencer que era ele de fato. Abraçou-o duplamente aliviado: primeiro, por vê-lo vivo. Segundo, por não ter que varrer o submundo de Hochoch para vingar sua morte. Assim como seus companheiros, quando viu o corpo torturado e queimado na estalagem, jurou que aqueles bastardos pagariam pelo crime. Agora, tudo estava resolvido da melhor maneira. Wulftheim demonstrara uma fibra inédita e insuspeita. Nem parecia o estalajadeiro que conheceram. Esse pensamento permaneceu na cabeça de Bartolomeu.

A estrada para o sul era precária, mas o avanço era rápido, sem cavalos ou carroças com que se preocupar por conta dos buracos, raízes e desníveis. Nem todos os que usavam a estrada tinham a mesma sorte: na manhã do segundo dia de viagem, encontraram uma família de mercadores. Levavam muitas sacas de algodão para comercializar em Hochoch, mas uma roda da carroça quebrara, e o homem estava tendo dificuldade para levantá-la para consertá-la. Contava apenas com um filho ainda não adulto, uma filha bem mais nova e a mulher, grávida. O grupo logo se prontificou para ajudá-los. 

Bartolomeu se lembrou da carroça que ajudara, em Folly. Era uma família que fugia das ameaças que tomaram o local e a cidade vizinha, Stonebridge. O sacerdote, ainda que tivesse ganho muito em sabedoria ao longo desse último mês, e ainda que agora pudesse lidar com problemas muito maiores (dragões, ur-flâns, gigantes e bandos de orcs), tinha um prazer bastante peculiar em sincero em ajudar pessoas comuns, com problemas mundanos ou que fugissem ao seu poder. Foi isso o que o levou a simpatizar com Wulftheim, por exemplo. Essa proximidade com o sofrimento das pessoas simples era o que, a seus olhos, o mantinha com os pés no chão, evitava que a soberba o possuísse, fazia com que não se tornasse alguém tocado pelos deuses e insensível aos pequenos dramas do mundo. 

Por isso o sacerdote observava com o coração leve enquanto Bruenor erguia o veículo do chão e Eldrin usava um truque simples da maneira mais espalhafatosa possível, consertando a roda quebrada com um toque de seu dedo, soltando fagulhas pelo ar e sons de madeira crepitando. O anão ria, e Eldrin também, enquanto a família observava maravilhada. Matar orcs não gerava esse tipo de satisfação genuína, simples, em seus amigos, todos eles nascidos plebeus, pobres. Não fossem seus dons extraordinários e aquela família poderia ser a deles. Mesmo que eles não tivessem consciência desse fino fio que os separava agora, Bartolomeu admirava como eles se sentiam bem em poder ajudar aqueles semelhantes separados apenas pelo acaso.

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Os Campos de Garrin, povoado de onde vinham os mercadores, não passava de uma rua de terra batida com um punhado de casas em meio a campos de algodão, principalmente, e alguns de grãos. Não tinha defesas. Passaram por ele imaginando os efeitos da guerra sobre aquelas terras boas, mas não se detiveram por lá.

Ainda no meio da tarde avistaram um forte combalido, por onde passava a estrada. Era o Forte Diligência, conforme tinham sido informados. Havia uma série de fortes erguidos ou reformados, ao longo da fronteira, para a guerra contra os gigantes. Demonstrava claros sinais de ataques pretéritos, mas suas torres e murada ainda estavam de pé.  A fortaleza ficava no alto de um pequeno morro. De lá se conseguia ver uma estreita trilha que cruza as campinas a oeste e vai ao encontro de sua estrada. Bem longe, à distância, era possível ver uma tênue coluna de fumaça que se erguia como um totem funesto até tocar a nuvens cinzas que recobriam os céus. Uma chuva fina começou a cair, trazida por um vento leve que soprava do oeste, onde os Picos da Barreira se erguiam volumosos.

Ao se aproximarem, um sujeito pulou de uma rocha, portanto um gibão ostentando o símbolo dos Cavaleiro da Guarda, a coruja argêntea. Falou em alto e bom tom:


- Olá, viajantes! Cinco moedas de prata, para manutenção do forte, por favor. É o preço pela passagem.

Se aquele era um Cavaleiro da Guarda, Bartolomeu era um guaxinim. 

- Chegue mais perto, e eu te dou as moedas. 

O gatuno não cairia fácil na artimanha, porém:

- Não olhem agora, mas meu temível arqueiro está de prontidão naquela torre, a flecha preparada para aqueles que tentarem burlar o pedágio.

O grupo não tinha passado por tudo o que passou para ser intimidado por um rufião qualquer, que matou um Cavaleiro da Guarda e vestiu seu gibão manchado de sangue e largo demais para ele próprio. Ignorando o aviso, eliminaram o tratante e se dirigiram à escadaria que ladeava as muralhas. Na batalha que se seguiu, os aventureiros demonstraram grande coordenação e os conjuradores puderam fazer pleno uso de seus poderes: Isaak se teletransportou para a amurada, de onde desferiu um raio fatal no orcs que se enfileiravam nas escadas, enquanto Eldrin, escalando o muro como se fosse uma aranha, jogou duas explosões de fogo em dois orcs enormes que tentavam se juntar aos demais pelo pátio. Gato Preto desferia múltiplas flechadas depois de ter escalado e tomado a torre do "temível" arqueiro, que não pôde oferecer resistência. Bruenor e Bartolomeu pouco trabalho tiveram em finalizar os inimigos feridos. Wulftheim tinha retornado à antiga forma, e se esquivou do combate de todas as maneiras, reaparecendo apenas após a calmaria ter retornado.

Num piscar de olhos, estava retomado o Forte Diligência das mãos de bandoleiros inimigos. Bartolomeu descobriu um abrigo onde estavam meia dúzia de soldados. Tinham ali se escondido porque viram que era fútil qualquer resistência contra aquele bando. Bruenor condenou a covardia daqueles homens, mas, ao menos, eles viveram para ver um novo nascer do sol: se esconderam do bando inimigo havia apenas uma noite, no porão abaixo do único dormitório do pequeno forte. Esperavam o retorno dos vinte homens que partiram há três noites, para investigar uma ameaça em Preston -vilarejo próximo que era dever deles defender. Eles já deveriam ter retornado, e esse atraso causava preocupação. 

Bartolomeu celebrou um banquete mágico, em honra daquela retomada fortuita, que arrancou o forte das mãos inimigas e libertou os soldados. Entre eles, um clérigo de Tritereão, o deus da liberdade e retribuição. Era um encontrou, de fato, fortuito. 

Os soldados ofereceram 100 leões dourados em troca de informações sobre o paradeiro da comitiva. Como o grupo teria que passar pelo vilarejo, a missão foi aceita. Bruenor sorria de felicidade e essa noite nem reclamou do serviço gratuito que prestavam a Deghan, levando sua missiva ao capitão Ferdan, em Kaer Gliss (ou na Fortaleza de Keeler). 

Aproveitaram a noite para reparar o portão do forte, que estava quebrado. Com um pouco de força bruta e alguns truques, o trabalho foi feito rapidamente. 

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Partiram bem cedo, em direção ao vilarejo. Preston ficava no caminho e a estrada até lá era relativamente tranquila, seguindo sempre margeando o Córrego Real (pela esquerda) e a relva frondosa pela direita. A menos de seis quilômetros dali, havia uma encruzilhada de onde uma pequena e abandonada trilha levava até um casebre velho à beira do córrego – um local bom para passar a noite que se aproximava rapidamente, sobretudo neste final de tarde frio e chuvoso. À beirada estrada, uma rocha foi usada há tempos como pedestal para uma estátua de madeira de uma elfa belíssima, de olhar calmo e delicado. Aos seus pés estavam ramalhetes de flores murchas e um pequeno incensário sujo com cinzas, indicando ser um local sagrado. Bartolomeu parou para fazer algumas preces e oferendas à deusa Ehlenestra, conhecida como Ehlonna entre os humanos. Sua representação na forma élfica, naquele local, causou estranheza ao sacerdote.

Enquanto isso, os demais exploraram os arredores, em especial um casebre à beira de um rio. Todo o lugar estava abandonado e pairava um ar de desolação perene, especialmente próximo do casebre, onde uma janela balançava com a brisa suave, fazendo um rangido característico. No arruinado deque de madeira que ficava quase em frente a casa, pudueram distinguir duas criaturas grotescas curvadas sobre um cadáver fresco, refestelando-se em sua carne. Eram bullywugs: homens-sapo! Uma dezena deles apareceu, mas não eram páreo para o grupo. Dessa vez, Wulftheim não se esquivou da batalha e sacou uma bela lira e começou a tocar, inspirando os aventureiros. 

Cocatrizes surgiram das árvores do outro lado do riacho, mas não ameaçavam os aventureiros: elas estavam ávidas para devorar os cadáveres frescos dos homens-sapo, sem importunar o grupo. Após terem matado todos os anfíbios, se dirigiram ao casebre e ao corpo à beira do rio, buscando investigar o que aconteceu com eles.

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