Estrada para os Montes Resolutos - 12° ato

não foram necessárias preces para que um milagre fosse realizado

Escrito em colaboração com o Mestre Cavernoso

Era um beco como tantos outros em Hochoch. Apenas uma janela dava para ele, mas a moradora a fechou tão logo viu do que se tratava: não queria confusão. Bartolomeu ficou de guarda, mais afastado, com um olho nas vielas escuras e outros na rua principal, a alguns passos dali. Estava coberto por sua capa élfica e praticamente invisível em seu esconderijo.

Bruenor deu uns tapas na cara do sujeito desacordado. Estava cheio de escoriações e ferimentos, nada muito grave, mas, ainda assim, não se mostrava nem um pouco cooperativo. Olhava para os telhados e para a entrada do beco, esperando por um resgate que não viria. Dizia impropérios, falava sobre a ira de Ochtan e que eles já estavam em sua mira. Tentava ganhar tempo, mas só conseguia irritar mais o anão, até que, sem paciência, Bruenor declarou:

- Já que não vai nos revelar nada sobre o que foi feito com Wulftheim, você não pode oferecer nada para impedir meu machado de partir sua cabeça. E você, trate de ir falando, ou será o próximo -ameaçou, se dirigindo ao outro prisioneiro.

O outro tremia como vara verde. 

- Eu sou Nainairv! Nainairv!- disse.

Os aventureiros se olharam, confusos. Apenas Gato Preto entendeu o recado: Nainairv é um anagrama para Vrianian, na verdade, Magnus Vrianian, um Cavaleiro da Guarda proeminente que ascendeu ao trono do Grande Ermo quando o Comandante Petros renunciou ao seu posto após as invasões dos gigantes em Geoff. Isso, pelo menos, é que o se sabe publicamente. No submundo da Colina do Gancho, fala-se que Petros foi vítima de um assalto político orquestrado dos bastidores por inimigos em comum nas cortes do Vale Sheldomar. Por isso, Vrianian é visto por muitos como um impostor. Um impostor!, pensou Gato Preto. Estará este homem se dizendo um impostor? Como poderia saber desta gíria do submundo da Colina do Gancho?! O prisioneiro era um farsante, ou um infiltrado. Gato Preto não explicou a história toda, dizendo apenas:

- Este aqui está demonstrando disposição para colaborar. Deixe-o longe da mira do seu machado, por enquanto, Bruenor.

O mestre anão parou por um momento, mas confiou nas palavras do amigo e avançou em direção ao prisioneiro não colaborativo. Isaak ainda tentou dissuadi-lo mas, tendo os demais ficando em silêncio, o mago apenas se afastou do olhar raivoso do anão, que queria vingar o amigo Wulftheim, ceifar todos os mendigos e depois jogar a cabeça do rei, apenas com as órbitas dos olhos, nas brasas da taverna.

O lacaio não conhecia Bruenor e, talvez por isso, tenha achado que tudo não passava de bravata. Apesar de perigoso, não julgou que aquele grupo fosse capaz de atos bárbaros como os que ele e seus companheiros perpetravam. Achava que Ochtan tinha o monopólio da sordidez e os nobres, o da covardia. Os aventureiros não podiam ter nem um, nem outro. Assim pensava, até ver Bruenor erguendo o machado acima de sua cabeça. Nesse momento, temeu ter julgado mal o anão. Mas não havia mais tempo. Morte lenta se cravou em sua testa, e ele morreu com o olhar petrificado do medo. 

- Sua chance de falar, Nainairv -disse o anão, se virando para o único prisioneiro sobrevivente, apontando o machado ensanguentando em direção a ele.
- N-não! Bruenor! Por favor!

O anão conteve seu movimento, pois estava pronto para estripar o sujeito ou atirá-lo contra a sarjeta. Bruenor o olhou com surpresa. Seus olhos castanhos, normalmente comprimidos entre as grossas sobrancelhas e as protuberantes maçãs do rosto, se alargaram em sinal de surpresa.


- Fale! Fale logo onde está Ochtan para que eu possa ir até ele e cortar-lhe a cabeça! – mas o ímpeto na voz de Bruenor já não era mais o mesmo. Havia hesitação e dúvida na sua cabeça – Ora, que diabos! Quem te contou meu nome?! Seu maldito! Estava nos espionando desde quando?
- Vocês não me reconhecem? Isaak, Bruenor, Gato Preto da Colina do Gacho, Eldrin e mesmo Bartolomeu, que está ali na entrada do beco, de vigia. Nos conhecemos.
- RESPONDA LOGO, seu vermezinho, não me venha com firulas -ameaçou Bruenor, puxando-o pelo cangote.
- So-so-so-sou eu, Wulftheim. Seu amigo Wulftheim. -disse, em voz baixa.
-Você está querendo morrer mais lentamente que seu amigo, é isso que estou ouvindo?
-Nã-não, meu bom senhor! O que vocês queriam que eu fizesse? Tive que forjar minha própria morte, se não Ochtan me perseguiria até os confins do reino!

Mas os aventureiros não seriam facilmente convencidos. Ficaram encarando o homem, apalpando seu rosto. Gato Preto detectou uma magia de ilusão em ação, mas Isaak tirou uma pedra das vestes, colocou-a em frente ao olho esquerdo e conseguiu ver através do disfarce mágico: era Wulftheim!

-Sim, é ele, meus caros. Podem confiar. Essa pedra não deixa ninguém me enganar.

Bom, tinham as palavras sinceras do prisioneiro e também as de Isaak. Pediram para que ele contasse toda a história, e Wulftheim contou-a, de bom grado. Ganhara a vida como aventureiro, portanto dispunha de alguns truques para ter sucesso: Precisava se livrar de Ochtan, e a única solução era forjar a própria morte e arrasar sua taverna, para que o Rei dos Mendigos não pudesse se apoderar dela. Tinha muitos corpos à sua disposição nos quartos do segundo andar, cortesia dos aventureiros.

- Lamento a enorme confusão. Mas eu tinha que dar um jeito de me livrar do Ochtan. Você, Bruenor, e Isaak fizeram uma bagunça e se eu já estava encrencado antes, com tantos homens mortos no meu sótão Ochtan não descansaria até me ver debaixo de sete palmos! Tive uma longa caminhada da Pontenova até aqui para pensar e bolei um plano. Pegaria um dos cadáveres, arrancaria os olhos para desfigurar ainda mais a face, depois embrulhar uns papéis na capa de couro das cartas de Sadri ao pai, para, assim, fazer parecer que aquele era meu corpo e poder seguir em paz seu caminho até Maraber - dizendo isso, sacou de dentro das vestes um chumaço de papel, com uma nova capa e couro. Eram as cartas. Não tinha ignorado sua missão.

"Sinais de combate já havia aos borbotões, graças vocês sabem bem ao quê -continuou o prisioneiro que parecia ser Wulftheim. - Passo seguinte, atrairia curiosos e, disfarçado como um dos homens de Octhan, poria na boca do povo que Wulftheim finalmente tinha pagado pela desobediência do Rei do Crime. Para garantir o êxito, subornei um guarda para proclamar minha morte, reconhecendo o corpo. Gastei um pouco mais do que queria, mas acho que com tudo isso poderia tirar Ochtan do meu encalço. Não podia arriscar todo meu plano sendo identificado por você, Isaak, em meio àquela multidão. Fugi para o beco para ver se ali poderia conversar contigo. Mas os panacas dos peões de Ochtan estavam por perto, então tive que prosseguir na minha farsa até que pudesse me revelar. Só não contava que você, sozinho, fosse derrubar todo mundo e quase me matar no processo. Creio que dei sorte e Olidammara teve pena de mim."

Bruenor foi o primeiro a abraçar o amigo, dizendo que estava disposto a ir até o trono de Ochtan para arrancar-lhe a cabeça, em vingança. Ao dele, mais abraços aliviados se seguiram. Ochtan viveria. Ao menos por enquanto.

-Bom, estamos brincando com a sorte aqui. Precisamos nos separar. Encontro vocês do lado de fora da cidade. Vocês vão para Kaer Gliss, correto? Poderemos seguir juntos até Preston. De lá, sigo  o caminho para Midwood.
-Sim. Até logo, meu velho.

E assim Wulftheim saiu do beco, despedindo-se de um incrédulo Bartolomeu, no caminho para a rua principal. 

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Comentários

  1. Essa estória ganha uma reviravolta a cada novo ato! MestreCavernoso é mesmo... CAVERNOSO! Kkkk

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  2. Sim!!! Drama, plot twists, carnificina, heroísmo insensato, sacerdote carismático, tem de tudo nesses Diários de Campanha!

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