Estrada para os Montes Resolutos - 11° ato

cenas macabras e injustas aguardavam nossos aventureiros em Hochoch

Escrito em colaboração com o Mestre Cavernoso

Ceorn estava no galpão, ao lado de Wulftheim. Entregaram a mandrágora. Ele a avaliou, agradeceu e a guardou num pote com uma mistura terrosa no fundo. Parecia sereno, mas estava com pressa. Olhou pela janela e viu as nuvens rosas que prenunciam a aurora. Pegou então um pó cristalino e o espalhou sobre o corpo do estalajadeiro desafortunado, entoando palavras mágicas. Foi como um milagre. As feições de velho aos poucos o abandonaram, os ossos sendo escondidos por carne e músculos, os cabelos retornando à antiga forma. Era o Wulftheim de antes do encontro com Sadri que retornava, aos olhos de todos. Ele se apalpou e chorou de alegria.

- Me sinto mais forte do que antes! -disse, sorrindo para todos, e agradecendo Ceorn.
- Bem vindo de volta, Wulftheim. - disse Gato Preto, colocando nas mãos dele o pacote com as cartas que Sadri escreveu para o pai.
Obrigado, meu caro. Mas o que é isso? Vocês não ficaram de entregá-las para mim?
- Faríamos isso, sem sombra de dúvidas, se você não estivesse em condições de fazê-lo. Mas agora que recuperou a antiga forma, acredito que essa missão seja sua.
- Mas me abandonarão à minha própria sorte? 
- As palavras de Gato Preto são sábias, Wulftheim. A missão é sua, e só você pode completá-la, pôr fim a sua maldição e expiar a morte de Sadri. Nós o ajudamos naquilo que você, sozinho, não teriam condições de fazer. Mas daqui para frente a responsabilidade é sua. -completou Bartolomeu.
Vocês não me acompanhariam? Posso pagar. 
- Acredito que qualquer escolta pode acompanhá-lo nessa missão, meu caro. Temos outros assuntos que precisam de nossa atenção na região. -disse o sacerdote de Wee Jas, em tom sincero. Mas podemos ir com você até Hochoch. Nosso caminho nos leva para o sul, de qualquer forma.
Agradeço pela preocupação, mas não, Bartolomeu. Não quero mais nada de vocês. Me lembro bem da forma como esse aí me tratou -disse, apontando para Eldrin. Vocês me causaram muitos problemas, Ochtan e seus lacaios me perseguem, eu tenho que dar um jeito em tudo e partir o mais rápido, e sozinho, já que vocês se recusam a ajudar aquilo que me obrigaram a começar.


Bartolomeu acenou com a cabeça e foi em direção a Ceorn, que se afastara. Ele o chamava de /kéorn/, fiel à pronúncia élfica do nome. Não tinha paciência para os resmungos mal agradecidos de Wulftheim, e não tinha parte nos feitos e maldições que o estalajadeiro cultivara para si. Fez o que podia, e mais do que qualquer pessoa faria por um desconhecido. Mas tinha outras preocupações em mente.

-Keorn, o que aconteceu com Fuioroaná? O vilarejo era um cemitério, mas não tinha sinais de batalha ou invasão. Era como se tivesse ficado parado no tempo, habitado apenas por fogos-fátuos de almas torturadas, que temiam e adoravam aquela criatura macabra, o Devorador.
-Vocês encontraram o Devorador? -perguntou Ceorn, com um esgar cético nos lábios.
- Sim. Imagino que ele não assombrará mais aquela região.
- Vocês encontram passagem mesmo pelos lugares mais sombrios, meu caro Bartolomeu. Primeiro, os Dentes de Beori. Agora, Fuioroaná está finalmente livre do Devorador, uma criatura convocada pelo Grande Sábio de Fuioroaná como um esforço desesperado para auxiliá-lo contra as invasões. Não essas de agora, veja bem. Outras, muito mais antigas, de que todos nós já esquecemos, mas que não deveríamos. Sua notícia me alegra. Vocês não teriam interesse em me ajudar a retomar o vilarejo? 
-Decerto, Keorn. Quero muito. Mas o que você poderia oferecer a mim e a meus companheiros em troca do auxílio? -Bartolomeu queria, de todo o coração, ajudar na retomada. Mas sabia que os corações de seus companheiros precisavam de outras motivações.
- Mercenários, hein? Não tenho dinheiro, são tempos difíceis. Pensei que você fosse diferente, que tivesse apreço pela história de sua raça, e se preocupasse com a guerra contra os gigantes. A retomada de Fuiorana seria um trunfo de que muito necessitamos, neste momento. Mudaria as coisas por aqui.
- Esse discurso moralista não cai bem a você, Keorn. Você deve saber muito bem o que somos, depois de tudo o que passamos para ajudar um estalajadeiro amaldiçoado, em troca de nada. Você nos cobrou uma mandrágora como paga pela cura dele, não foi? E ainda livramos a floresta da ameaça do demônio. Eu o ajudaria e retomar o vilarejo de graça, mas minha vontade não é a do grupo, e eles precisam de outras recompensas. Se não tem dinheiro, tudo bem, Talvez possa ter outras formas de nos pagar. Temos que ir ao sul, para Kaer Gliss, levar informações importantes para o desenrolar da guerra. Depois disso, poderemos voltar. 
- Está certo, está certo. Não quis julgá-los. Mas você não acreditaria na quantidade de mercenários à solta por aí, todos querendo os espólios da guerra. São poucos com quem podemos contar. Retornem aqui após resolverem seus assuntos, e conversaremos sobre a retomada do vilarejo. Podem descansar aqui no galpão esta manhã, para recobrarem as forças. Até mais, Bartolomeu.
- Até, Keorn.

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Acordaram já na hora do almoço, após um sono cortado pelos gemidos dos feridos. Bartolomeu fez suas preces e ajudou os homens que pôde, enquanto esperavam um pouco por Ceorn. Mas não tiveram sinal do velho, então partiram com o sol ainda alto. Wulftheim e sua mula tinham partido bem cedo.

Andavam em ritmo acelerado, pois pretendiam ainda abastecer as provisões em Hochoch e se despedir apropriadamente de Wulftheim, antes de rumarem para o sul, para Kaer Gliss. Chegaram na cidade no final da tarde e compraram suas provisões no caminho para a estalagem.

Quando chegaram ao Brasão do Furão Sarnento, pararam em choque: a construção estava parcialmente em chamas, o cheiro de carniça e madeira queimadas misturando-se no ar da região. Ainda assim, muitos citadinos estavam no entorno, observando a fumaça e as chamas no segundo andar, onde ficavam os quartos e as camas de palha. Podiam ouvir os transeuntes curiosos cochichando sobre o azar desgraçado de Wulftheim:

- Ninguém mexe com o Rei dos Mendigos, isso sim. Pobre diabo! Ouvi dizer que devia dinheiro a ele! Isso é o que acontece... – comentava um plebeu qualquer.
- Amarraram-no num barril de hidromel e tacaram fogo em tudo! Foi muito rápido!- Que nada, meu filho disse que o viu correndo desolado para o outeiro do grande álamo.
- Só se for seu fantasma! Não está sentindo o cheiro de carne queimada?


Bartolomeu, Eldrin e Gato Preto entraram, enquanto Bruenor e Isaak permaneceram do lado de fora.

apesar de bem treinados e armados, os guardas de Hochoch não eram muito competentes em enfrentar o poderio do Rei dos Mendigos, nem em evitar que estalagens fossem incendiadas em plena luz do dia

Era uma história trágica a de Wulftheim, de fato. O homem não teve muito tempo para apreciar o retorno à juventude, pois os asseclas de Ochtan o deviam estar esperando na estalagem. Não queriam apenas destruir sua propriedade, mas sim tirar-lhe a vida de modo cruel. Havia muitos corpos parcialmente queimados, mas apenas um deles estava atado a uma das vigas com arame farpado e lenha ainda em brasa em seu colo e ao seu redor. As órbitas estavam vazias e a mão fora decepada. O sacerdote se aproximou e reconheceu a pasta de couro com as cartas de Sadri ao pai, carbonizadas e meio coladas ao corpo ainda não totalmente queimado. Era Wulftheim. O estalajadeiro que sobrevivera a tantas desventuras se recuperou da velhice prematura apenas para sofrer uma morte horrível na volta para sua taverna. Tudo isso à luz do dia! 

Eldrin percebeu traços de magia no ambiente, e reparou que fora usado combustível e magia para atear fogo daquela maneira à estalagem. Toda sua raiva do velho foi embora. Wulftheim não merecia morrer assim.

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Enquanto isso, Isaak, junto à multidão, reparou que um sujeito mal encarado observa a estalagem fumegante de trás de uma árvore, com malícia. Se parecia muito com um dos lacaios de Ochtan que invadiram a estalagem no dia anterior, quando lá encontrou Bruenor. Foi em sua direção, mas o verme percebeu e fugiu, dando-se início a uma perseguição que o mestre anão não pôde acompanhar com suas pernas curtas.

O mago encurralou o lacaio em um beco, e esperava obter algumas respostas, mas tudo não passava de uma cilada armada pelos escorregadios mendigos. Logo viu-se cercado por cinco rufiões.


- Quero algumas respostas -o mago não se intimidou- Por que puseram fogo na estalagem?
- Por que Wulftheim era um desgraçado e ninguém fica devendo ao Rei dos Mendigos! Ensinamos uma lição a ele, e agora ensinaremos a você também.

Mas Isaak, tendo os enfrentado antes, não cedeu, atacando e defendendo com seu bordão, além de alvejar os inimigos com magias. Antes que Bruenor chegasse, já tinha matado três, desacordado um e rendido o último, que era o gatuno que avistara junto à estalagem. 

-Você agora vai dar algumas respostas a mim e aos meus amigos, verme -disse Isaak, ameaçadoramente. 

Junto com Bruenor, levaram os prisioneiros até os outros, que estavam do lado de fora da estalagem. A noite começava a cair, e os cinco aventureiros e os dois prisioneiros foram até a proteção de um beco, obter respostas para vingar a morte do amigo Wulftheim.

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