Estrada para os Montes Resolutos - 10° ato

os aventureiros tentaram evitar, mas sabiam que seria inevitável o encontro com mais um inimigo formidável

Texto do Mestre Cavernoso e do Sacripanta


- Há mais daquelas luzes aqui – resmungou Bruenor e, de fato, havia dezenas delas flutuando sobre o lago.

Bartolomeu sentia algo de muito estranho, mas não sabia dizer precisamente o quê. Eldrin não estava impressionado, mas observava o fenômeno com curiosidade.

Entram na vila de Fuioroaná através de um passadiço que rangeu com peso dos aventureiros. Não demorou para verem numerosos pontos de luz branca na superfície do lago e nas plataformas que subiam até a copa das árvores. Os aventureiros ficaram preocupados demais para poder admirar a beleza da cena, mas o jovem sacerdote de Wee Jas viu, naquela cena macabra, um lampejo de como deveria ser o vilarejo antes de ser abandonado, iluminado por incontáveis lamparinas, algumas paradas, outras se movimentando em direção a eles, como numa procissão. 

- O que essas merdas estão fazendo? – perguntou Bruenor, que nunca gostou dessas “assombrações”.
- Estão inquietas – falou Bartolomeu.
- O quanto são perigosas? – perguntou Isaak.
- São perigosas se se aproximarem. Elas podem atacar, mas não façam alvoroço.

Bruenor fez um gesto brusco, como se estivesse sacando seu machado. Então, os fogos de tolos fizeram um recuo também brusco e a luz que emitiam oscilou brevemente. Bartolomeu dissuadiu o mestre anão: não seria prudente enfrentar todas aquelas criaturas, com o Devorador à espreita. Falaria com elas.

- E essas coisas estão vivas? – indagou o anão.
- São almas atormentadas – Bartolomeu foi lacônico.
- Não deveriam – murmurou Eldrin. Gases de corpos putrefatos não reagem a anões brutamontes, pensou, estranhando o comportamento das luzes brancas.

Os fogos de tolos não pareciam interessados em hostilidades, pois tornaram a se aproximar flutuando, perfilando-se com gentileza ao longo do passadiço e formando um corredor de luzes bruxuleantes tão assustadoras como belas. Hesitantes, os aventureiros se entreolharam desconfiados. Isaak analisou o padrão de intensidade das luzes e disse:

- Parece que esses fogos de tolos querem nos mostrar algo ou nos levar a algum lugar. Suas chamas ardem em padrão, a apontar uma direção.
- Ah! Como o farol de Balnorhak! – disse Bruenor.
- O que é isso? – Gato Preto indagou.
- A maior fortaleza anã das montanhas Lortmils, mas depois te conto mais, com prazer.

- Não lhes queremos mal. -disse Bartolomeu em élfico, se dirigindo às luzes que se aproximavam.
-Venham, venham... Não sintam medo. Nós vamos alumiar o caminho... 

As vozes ora soavam débeis, ora como sussurros distantes. De fato, as luzes pareciam iluminar um caminho através dos passadiços do vilarejo abandonado, o qual os aventureiros optaram por seguir, intrigados que estavam com aqueles fogos de tolos.


Seguiram então o cortejo macabro. A presença de tantos fogos-fátuos criava uma atmosfera tão sinistra que lançava sombras nos corações de todos. Ainda assim, Bartolomeu acreditava ser essa a melhor opção. As passarelas levavam até o coração da vila, uma árvore gigantesca, realmente imensa, como as árvores mais antigas da Floresta Escura. Wurren falou sobre essas árvores gigantescas que ficavam no coração da floresta. Jamais pensei ver uma nesta vida, pensou Bartolomeu. Lembrava a Árvore da Vida, que visitaram em busca do Grande Druida.

- Nêlsirion -disse Bartolomeu, boquiaberto- A árvore do grande rio, literalmente. Essas árvores são raras, e podiam ser encontradas em algumas vilas muito poderosas e importantes. Estamos em solo sagrado -ou que pelo menos assim o foi, antes da devastação.

Havia um silêncio sepulcral na grande praça alagada no entorno da grande árvore. Os aventureiros examinaram os arredores cautelosamente com os olhos. Notaram que a grande árvore também foi utilizada pelos elfos, de sorte que, além de entradas para o interior de seu caule, havia também alguns telhados, varandas e escadas no exterior ao longo de seu perímetro.

Isaak olhou para baixo mirando o lago sob o passadiço, seu olhar se perdeu ali por breves instantes. Notou a água completamente estagnada, viu o fundo lodoso do lago poucos centímetros abaixo da superfície e um verme rastejando para fora de um buraco. Sentiu-se em transe e quando saiu dele, percebeu que o buraco era o nariz de um cadáver submerso.

Bruenor ia fazer um comentário ácido sobre a árvore ou a sacralidade do lugar, como sempre fazia quando Bartolomeu compartilhava um pouco de seus conhecimentos sobre a raça élfica, mas os fogo-fátuos de repente se alvoroçaram, a oscilação em suas luzes sendo mais rápida, como em tom de ameaça.

- Venham, venham... Por que pararam? Estamos quase lá... -continuam assustadoras as vozes.

Bartolomeu ergueu alto seu símbolo de Wee Jas, invocando a proteção de sua deusa. Os fogos-fátuos hesitaram e se afastaram um pouco, mas sem diminuir o alvoroço. Os aventureiros olhavam a sua volta, tensos. O som gutural de uma besta imensa varreu o vilarejo estremecendo os corações os aventureiros que batiam mais acelerados. Com a descarga de adrenalina, os pelos de seus corpos eriçaram por inteiro, sentindo o sangue fluir para seus braços e pernas, deixando-os com a sensação de frio na barriga. Os fogos de tolos perderam o brilho subitamente e a floresta escureceu dramaticamente. Sobre as copas das árvores um trovão esbravejou à distância e algumas gotas de chuva começaram a cair, agitando o lago antes parado.

- O devorador está vindo! O devorador está vindo! Nós vamos refestelar em suas almas atormentadas!

Isaak olhou para baixo ao sentir algo tocar no seu tornozelo e seu coração quase saltou para fora do peito quando viu uma enorme criatura cadavérica emergir do fundo do lago com sua mão esquerda repleta de garras afiadas envolvendo parte de sua perna e puxando-a, fazendo o mago cair. A monstruosidade pôs-se de pé, sendo bípede e medindo cerca de dois metros e meio de altura. Parecia-se com um humanoide dissecado. Sua cabeça era bem larga e redonda, possuindo orelhas pontudas como espinhos e seus olhos, muito afastados um do outro, eram pequenos globos esverdeados opacos. Sem dúvida, porém, a mais grotesca e chamativa característica do monstro era sua caixa torácica cujo osso esterno era fendido, formando um rombo vazado por algumas de suas costelas, permitindo-se ver com indesejável clareza as suas vísceras asquerosas.

Bruenor não se intimidou com a visão, se lançando contra o monstro com seu machado, num golpe certeiro no ventre da criatura, mas a fera se esquivou no último segundo, surpreendendo o anão e fazendo sua arma escorregar e cair no lodo.

Estavam todos na plataforma: o conjurador novato caído, o anão desarmado e os fogos-fátuos ameaçando avançar, numa espécie de frenesi de medo por terem visto aquele que colocou fim a suas vidas. A paciência de Bartolomeu acabou. Não queria condenar as criaturas a mais sofrimento, afinal, foram também elfos, e estavam presos àquela forma pela maneira angustiada que morreram. Mas a empatia não carregaria a si e a seus companheiros para o fundo daquele pântano lodoso.

- Eu convoco os espíritos do Aqueronte, guardiões dos Portões da Morte! Que o que é vivo permaneça, o que está morto, pereça!!

Uma escolta macabra envolveu Bartolomeu e seus companheiro. Espíritos desfigurados com as feições do momento de suas mortes rodopiavam, criando uma barreira contra os fogos-fátuos, que não ousaram se aproximar. O local ficou ainda mais sinistro, mas o sacerdote de Wee Jas se sentia revigorado com a proteção dos servos de sua deusa.

Sem a ameaça das luzes brancas, todos puderam se concentrar no inimigo à sua frente, o Devorador. Isaac rolou para longe de seu alcance, mas foi atingido pela garra potente da criatura. Gato Preto não se intimidou, e avançou com uma estocada feroz. Eldrin viu seu raio de fogo atingir a criatura em cheio, mas sem causar qualquer dano. O Devorador abriu sua boca demoníaca, mas foi retalhado pela cimitarra de Salahadra, não mãos de Bartolomeu. Os Espíritos do Aqueronte entravam e saíam pelo seu corpo, causando agonia. Bruenor também sofreu ataques da criatura, mas o valoroso mestre anão não cairia com poucos golpes. Ele fez um rolamento desengonçado para puxar seu machado do pântano, e voltou à carga contra a criatura.

mesmo ferido por batalhas consecutivas sem descanso, o mestre anão Bruenor não desiste do combate

Eldrin mudou de tática, e criou uma ilusão na mente do demônio: enormes tentáculos negros a envolviam num abraço mortal. Os demais apenas viram que o inimigo se debatia, tentando se livrar de amarras invisíveis, e aproveitaram para desferir mais golpes. O corpo putrefato do Devorador começava a se abrir, revelando rostos élficos cadavéricos por debaixo da carne e vísceras.

Isaac, mesmo ferido, fez uma camada fina de gelo no chão onde estava a criatura, e ela, surpreendida com o truque, escorregou e caiu. Foram necessários ainda muitos golpes até o Devorador cair. Mas, caído e preso por tentáculos invisíveis, cada golpe era certeiro. O que sobrou dele foi um corpo desmembrado e retalhado. Os fogos-fátuos ficaram serenos, mas não ousaram se aproximar dos espíritos invocados por Bartolomeu.

A Nêlsirion estava a poucos passos. Quando o grupo foi em sua direção, os fogos-fátuos se lançaram sobre o corpo do Devorador, alimentando-se de sua alma e, aparentemente, libertando as almas aprisionadas em sua carapaça.

Não havia mandrágora alguma no solo pantanoso junto à grande árvore, mas, subindo as passarelas, puderam encontrar muitas nas jardineiras que ornavam o caminho. Uma seria o suficiente para salvar Wulftheim. Bartolomeu umedeceu com o pano de seda que Gato Preto tinha encontrado nos Dentes de Beori e embrulhou a mandrágora nele antes que ela pudesse gritar. Era uma planta arisca, e seu grito tinha efeitos perversos nas mentes das criaturas inteligentes. Movidos pela pressa, não investigaram quais tesouros poderiam estar escondidos nas ruínas intocadas. Precisavam retornar a Ponte Nova antes do amanhecer.

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