O disparo para a cruel verdade, parte II

Os ilustradores do templo de Lendor em Portão de Ferro não foram generosos com a bela Alaïs


PARTE 2 - Alaïs
texto de Leandro Azul e Sacripanta

Já adulto, Eldrin estava em uma taverna vazia, numa cidade esquecida pelos deuses em Bissel. Era inverno, e poucas pessoas usavam aquela estrada nessa época, justamente por causa de nevascas como a que caía e que já se arrastava por duas noites. Tanto o salão quanto os quartos eram frios, e o vento parecia brotar de fissuras invisíveis na madeira. A neve, felizmente, ficava do lado de fora e entrava apenas quando algum raro viajante abria a porta pesada em busca de abrigo.


Andava de um lado para o outro, se aquecia junto à lareira, tomava um gole da aguardente local, ia para perto da janela sentir um pouco do frio e do vento que passava entre as frestas, depois sentava-se em sua mesa. Estava inquieto. À época, Eldrin não gostava de ficar parado, por isso estava sempre viajando, sempre se ocupando, não dando muito tempo ao ócio, não dando a chance de ser pego desprevenido por flashes de um passado que não importava mais. Em geral, dormia exausto à noite, evitando assim também os sonhos. Era uma época difícil em sua vida, sem amigos, sem pouso, vivendo do que conseguira obter no dia anterior.

Uma voz feminina cortou seus devaneios, vinda de trás e bem próxima ao seu ouvido. “Não o aconselho fazer isso, senhor”.

Ao se virar para encará-la, viu-se muito próximo de uma jovem de cabelos pretos como as asas da graúna, dividido em duas metades, sendo a de cima amarrada com um laço. Ela não se afastou. Fitou-o com seus grandes olhos castanhos, sorriu e se sentou ao lado, já que Eldrin a encarava mudo, sem saber como reagir. Percebendo isso, ela continuou falando, agindo com segurança e naturalidade.

-Me refiro a isso que estava fazendo com os dedos, por baixo da mesa. Estalando e fazendo fogo desse jeito. Nem todo mundo vai achar que você tem uma vela escondida aí, e alguns podem achar que é um mágico. Não é bom sair por aí dizendo isso, você sabe. Algumas pessoas podem te achar perigoso. E o perigo pode custar caro.

Eldrin olhou com um misto de espanto e desconfiança para a mulher. Saberia ela alguma coisa? Seria uma ameaça?, pensou.

Mas o sorriso no rosto dela se dissolveu, ao olhar para o rosto conturbado de Eldrin. Começou a desculpar-se, preocupada. Realmente preocupada. Queria apenas puxar conversa, e não se intrometer na vida dele. Não parecia mais tão segura.

Eldrin andava preocupado, com pouco dinheiro no alforge e, na última semana, acumulara alguns problemas relacionados ao uso de magia em público. Mas, olhando para a moça, suas suspeitas se desfizeram. Ela parecia sem graça, e não ameaçadora. Talvez fosse o desembaraço com que se aproximou que fez com que ele desconfiasse. Ou, então, o corpo atlético vislumbrado sob as roupas um pouco justas e a espada que ela tinha à cintura. Parecia poder cortá-lo ao meio, se quisesse, em vez de se sentar simpática ao seu lado. Vendo isso, o feiticeiro respirou aliviado.

Rompendo com sua mudez involuntária, Eldrin se desculpou, meio sem jeito. Viu o sorriso voltar ao rosto da moça. Tinha um nome difícil.

Alaïs (pronunciava-se Alê) tinha aparência grave, mas que era repetidamente quebrada pelas risadas largas. Ela não era a primeira mulher que vira tão de perto, mas, sem dúvida, era com quem se sentia mais confortável. Contou-lhe um bocado de coisas de sua vida, algumas das quais não confiara a ninguém. Sua amiga tinha a voz macia, o que contrastava com seu porte guerreiro e os movimentos rápidos e metódicos.

Tocava um cordão ao qual estavam presos alguns pingentes, um deles em formato de lua com duas fases e outros representando estrelas. Deviam ser de prata, pois algumas das estrelas estavam esverdeadas, mas a lua, sob as contínuas investidas dos dedos, mantinha-se brilhante. Falavam da vida.

A noite já tinha caído, a neve continuava acumulando e o vento era impiedoso. Os demais hóspedes desceram, não eram muitos, e ficavam agrupados em volta da lareira, tentavam puxar conversa. Os dois pegaram mais aguardente e foram se sentar na mesa próxima à janela, vendo a neve se acumular lá fora.

Já estavam meio ébrios, e como a nevasca se estendia pela noite, certamente ficariam presos mais uns dois dias naquela taverna. Não havia pressa, mas fazia um pouco de frio, fazendo com que ficassem próximos. Conversavam baixo, como se fizessem confissões e a língua ia solta. Falavam de tudo.

Eldrin não consegue esconder seu interesse e seu olhar indiscreto

Alaïs flagrou Eldrin olhando furtivamente uns quatro dedos abaixo do seu pingente de lua. Pego, o feiticeiro ficou com as bochechas vermelhas e já esperava uma reprimenda, mas Alaïs apenas soltou os cabelos meio presos, revelando por um momento suas orelhas pontudas: era uma elfa. Pegando no pingente, fingindo que fora ele que despertava tanto interesse no companheiro, explicou:

- Eu sei que você é um feiticeiro, mas você não sabe quem eu sou. Não sou uma guerreira, como você pensa. Sou uma sacerdotisa de Lendor. Você não deve ter ouvido falar dele. Ele governa o tempo e também o ócio e os três pês: paciência, persistência e pesquisa; todas formas de dobrar o tempo e, por isso, de alterar o mundo.
- Parece ambicioso.
- E é. Ele é um deus, afinal, mas, como eu disse, nos deu as ferramentas de que precisamos para mudar o mundo: ócio, e os três pês. E hoje Eldrin, é dia de ócio.


O dia de ócio de Eldrin e Alaïs se estendeu até bem tarde, nessa noite. Foi a última que Eldrin passou sem saber o que aconteceu naquele dia em que ele voltou para a casa de seus pais adotivos, carregando lenha.

----------

       Parte IV               Parte III                                                                                         Parte I



Comentários