Estrada para os Montes Resolutos - 7° ato


Como nada é fácil na vida dos nossos heróis, mesmo arranjar um burro de carga exige perícia, convencimento e borogodó. Sorte que o grupo tem isso de sobra.


Enxotados, desceram o morrote que levava ao templo tendo que ouvir Wulftheim resmungando por todo o percurso. "De fato, começa a se comportar em conformidade a sua idade", observou Bruenor, com seu humor ácido. Entre crises de tosse, o estalajadeiro proclamou:

-Apenas os deuses antigos são confiáveis!

Os deuses antigos são confiáveis. Mas seus devotos, assim como Doncan, nem sempre o são, pensou Bartolomeu, lembrando-se do último encontro com Urinyairoppasath. Levaram então o cansado estalajadeiro até o bosque no meio da cidade. Acreditavam que lá poderiam encontrar o druida, mas, infelizmente, toparam apenas com um jovem adorador, que os tratou grosseiramente e apenas a contragosto lhes indicou os Dentes de Beory como único lugar nas redondezas em que poderiam encontrar um druida.

Redondeza ou não, não conseguiriam ir longe com Wulftheim daquele jeito. Estava fraco e cansado, pedindo para voltar para casa. Mas os aventureiros sabiam pelas antigas lendas, que as pessoas amaldiçoadas por fantasmas não resistiam a uma segunda noite de sono, portanto se apressaram para conseguir um transporte para o estalajadeiro, uma mula que fosse.

Bruenor, porém, não queria acompanhá-los. Esperaria por eles na taverna, ao cair da noite. Sua decisão se mostrou sábia, ainda que o mestre anão não soubesse disso.

Foi difícil, mas enfim conseguiram uma mulinha. Com todos os cavalos mobilizados para a guerra, sobraram burricos e mulas para o transporte da carga, e esses animais se viram repentinamente valorizados. Tanto que ninguém abria mão delas. Numa taverna imunda do Bairro dos Sarrafos, souberam de um velhaco endividado que poderia negociar a sua.

Bartolomeu propôs um acordo: pagaria a diária da mula e do dono, e eles os acompanhariam até os Dentes de Beori, por duas peças de ouro: uma para a valiosa mula, outra para o dono. O velhaco não estava disposto a se aproximar do perigoso local, assombrado por monstros, dizia ele. Mas, ao ver a moeda reluzente, mudou de ideia.

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Isaak finalmente chegou em Hochoch. Sua viagem até aqui foi longa, perigosa e cansativa, mas sua jornada está longe de acabar. Não faz tempo assim desde que ele deixou as montanhas para trás e nem nos seus piores pesadelos poderia imaginar que a eclosão de uma guerra iria atrasar tanto o seu retorno. Hordas de gigantes e humanoides varreram o Ducado de Geoff, destruíram estradas, pilharam vilas e assassinaram milhares de pessoas. Em determinado momento viajar por essa região tornou-se um enorme perigo. Mas Isaak não tinha pressa. Jumdish Dour o ensinou que nem mesmo um rato de biblioteca da Academia Real de Feitiçaria de Niole Dra poderia gabar-se de saber tudo, ainda que fosse capaz de ler todos os tomos e pergaminhos. Não. Há certos conhecimentos, certas habilidades que só a experiência de vida pode trazer e a melhor forma de obter essa experiência é colocando-se à prova, enfrentando situações que desafiem o status quo. Por isso, apesar da saudade de “casa”, Isaak não tinha pressa. Ultimamente, porém, o mago andava com o coração contrito, algo o incomodava e roubava sua concentração. Ele evitava pensar nisso, não queria se render ao desejo de visitar seu mentor; o que ele diria afinal? Com certeza repreenderia o jovem por voltar tão cedo. Estava convencido, pois, a vencer essa saudade de casa. Mas que aquele sentimento o incomodava, não havia dúvida – às vezes ao ponto de causar angústia.

É estranho, pensou Isaak, que nunca tenha sentido saudade de Niole Dra, mas sentisse tanto a falta de Dour. O mago fugiu da capital quando, após a morte de seus pais, seu tio Eorag assumiu sua tutela. Ele era uma figura amarga e por vezes cruel. Batia no rosto de Isaak com sadismo toda vez que desejava corrigir o garoto, mas nenhuma pancada foi tão forte quanto a proibição de continuar frequentando a Academia Real de Feitiçaria. Seus pais já haviam assegurado as despesas há anos, esperando ver o filho integrar o conclave dos grandes sábios de Niole Dra, o que seria uma honra especial para aquela família aristocrata. Mas Eorag tinha planos diferentes. Tudo o que ele desejava era usar a fortuna e o prestígio da família do garoto e se possível tomar tudo para si. O garoto era um entrave e Eorag não se ressentiu quando ele desapareceu.

Agora em Hochoch, Isaak pretendia descansar um pouco antes de se lançar em nova aventura. Todavia, quis o destino que ele entrasse numa pacata estalagem chamada de Brasão do Furão Sarnento. Abriu a porta e viu um anão solitário, sentado no balcão.

- Ah! Um cliente! O que deseja, meu bom amigo? – Bruenor levantou-se rapidamente, colhendo um pano encardido que estava por ali. “Vamos ver como é essa vida de estalajadeiro!” pensou consigo mesmo, com certo entusiasmo.
- Você é o dono do lugar?
- Sim, quer dizer, não. Não exatamente. O dono está viajando e fiquei em seu lugar para cuidar dos negócios – Bruenor se vestia como um aventureiro, com sua armadura e equipamentos bem à vista.
- Neste caso, me veja uma caneca de cerveja e um pedaço daquele queijo ali.
- Viajante, não é? Um aventureiro, como eu! – comentou o anão enquanto preparava o pedido, puxando assunto.

Isaak estava cansado, mas o mulso que lhe foi servido estava tão saboroso que revigorou seu ânimo e deu trela para aquele anão falastrão. Quando percebeu, muito tempo já havia se passado e a conversa só foi efetivamente interrompida quando homens encapuzados invadiram a estalagem pela porta dos fundos.

- Opa! Octhan não desiste mesmo! – disse Bruenor com sarcasmo enquanto levava a mão direita ao cabo de morte lenta.

Issak instintivamente entendeu o recado. Era, afinal, um aventureiro também. Mas não sacou nenhuma arma, apenas cerrou os punhos e depois esticou bem os dedos, alongando sua ferramenta de trabalho.

Não houve tempo para entender a situação. Os vilões encapuzados entraram dispostos a matar quem estivesse lá dentro e a por fogo em tudo! Ao ver o anão brandindo seu machado com tanta precisão e violência, Isaak soube que aquilo não era uma broma qualquer e sim uma situação real de perigo. Um golpe rápido por trás quase o atingiu. Os bandidos usavam facas e espadas curtas. Um segundo golpe, descendente, iria lhe atingir em cheio, mas pegou seu inofensivo bordão e aparou o golpe formidável. Bateu com sua ponta no chão e um deslocamento de ar poderosos varreu o salão, derrubando quase todos os inimigos, mas Bruenor não foi atingido.

-  O que está havendo?
- Não vai dar tempo de explicar tudo. Wulftheim deve dinheiro para esses caras e eles não vão deixa-lo em paz. Preciso avisar os outros.
- Quem é Wulftheim? Que outros? – Issak estava confuso, mas o cheiro de aventura entorpeceu sua mente e decidiu acompanhar o anão feroz ao invés de ir embora como faria qualquer pessoa comum e sensata.

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Encontraram-se às portas da cidade. Bruenor, esbaforido, contou aos colegas o que se passou no Brasão do Furão Sarnento.

- Mais um motivo para não deixar Wulftheim para trás - falou Bartolomeu - Temos que levá-lo conosco e, para isso, a mula!
- Tá, mas quem é esse aí? - perguntou Eldrin.
- Chamo-me Isaak. Ajudei seu colega a vencer esses bandidos que invadiram a estalagem.
- Fale baixo! Não queremos chamar a atenção, pois o chefe deles tem muitos ouvidos espalhados na praças e ruas desta cidade - sussurrou Gato Preto.

Foram, então, para fora da cidade, onde a situação foi sumariamente explicada, poupando-se Isaak de detalhes sórdidos ou comprometedores. Toda ajuda seria bem vinda e ele decidiu que não seria má ideia acompanhar aquele grupo numa empreitada para salvar a vida do estalajadeiro.
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Os Dentes de Beory eram, na verdade, uma caverna sob as raízes de um frondoso carvalho. O velhaco se recusou a chegar mais perto do lugar. "Nem eu nem minha mula entramos lá", disse, batendo o pé no chão. Ficaram então, a uma distância segura, o dono, a mula, Wulftheim e também Eldrin, que já estava enfadado e se perguntava por que estava ajudando aquele velho assassino por quem não tinha nenhuma consideração.

A caverna emanava um cheiro de carniça. Um mau sinal. Uma carcaça tinha sido arrastada para lá há pouco tempo, um trabalho que não parecia nada druídico. Isaak, recém chegado, apresentou seu animal de estimação, uma bela coruja negra, e revelou que conseguia, quando necessário, ver através de seus olhos. Um dom raro.

Adentrando sob as raízes, constataram que a caverna estava habitada apenas por gnolls, criaturas com aspecto canino, de olhares malignos. A prudência do velhaco se mostrou fundamentada. O novato Isaak, antecipando-se a todos, deu seu cartão de visitas: explodiu a fogueira em que três das criaturas queimavam a carne da presa, fazendo com que elas fossem atiradas nas paredes da gruta, caindo rapidamente sob as machadadas de Bruenor.

Mas o tumulto revelou que mais uma dezenas das feras estava na caverna maior, logo à frente. Bruenor estava cambaleante, pois ainda sustentava as marcas dos ferimentos que ganhou com o embate na estalagem. Mas a cimitarra de Gato Preto estava afiada naquela tarde, e ele ceifou tantos gnolls quanto o próprio Bruenor, incluindo o chefe deles, uma fera maior que as demais, com presas malignas protuberantes mas que pouco pôde fazer ante as estocadas certeiras do gatuno.

A investida do exército gigante sobre Geoff tinha várias frentes. Uma delas era a propaganda artística. Nessa ilustração, gnolls são representados como gente de bem, civilizados, insinuando que a proximidade deles não é maléfica. Talvez por isso ninguém os tenha perturbado nos Dentes de Beory.

Apesar do sucesso da empreitada, não havia druida algum à vista. Bartolomeu descobriu, com surpresa, que as salas sagradas da caverna foram deixadas intactas. Orou para os deuses antigos, reestabelecendo para eles seu local de adoração. Pôde ouvir as vozes dos espíritos da floresta, enquanto deixava as cavernas. Pareciam agradecer. Não tinha sido uma visita vã.

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Enquanto os intrépidos aventureiros expurgavam a caverna de todo o mal (Isaak, inclusive, descobrindo uma tentativa poderosa de conjuração de um portal para os infernos na maior das grutas), Eldrin ainda estava de mal humor, olhando para Wulftheim de soslaio. A ojeriza ao debilitado estalajadeiro, que dormia em sua montaria, o incentivou até mesmo a puxar conversa com o velhaco ao seu lado, que mordia a moeda de ouro que Bartolomeu o pagou como adiantamento.

Ouviu uma história tão rica em detalhes e crível, sobre um lobisomem que supostamente o narrador conheceu, que pegou uma moeda de ouro e atirou para o velho. Eldrin gostava de boas histórias. Cresceu ouvindo lendas assustadoras, fábulas moralizantes, memórias de guerras e aventuras antigas, tudo em torno da lareira de sua casa, na sala que sempre ficava toda esfumaçada quando a acendiam. Enquanto ouvia a história do lobisomem, essas memórias vieram a sua cabeça, e, ainda que o velhaco não soubesse, a moeda foi em agradecimento a isso.

Aproveitador, o velhaco logo tentou emendar mais algumas histórias, contando em aumentar suas minguadas moedas. Eldrin o despachou com um gesto, mas não teriam silêncio: um homem  de meia idade se aproximava, com trajes simples, um bordão e ramos de ervas pendurados no pescoço fino. Era conhecido do velhaco, trocou algumas palavras com ele e, então, quis saber o que faziam naquelas terras infestadas por gnolls. Eldrin, voltando ao mau humor característico daquele dia, não deu muita trela: falou secamente que seus amigos queriam vir até os Dentes de Beori, e se havia gnolls lá dentro, quando saíssem não haveria mais. O homem ficou surpreso, e disse que seria uma ótima notícia para toda a região. Ele próprio passara muito tempo morando ali, mas teve que procurar outro local para continuar seu trabalho junto aos Deuses Antigos e à floresta, após o assalto das feras. Podia ser encontrado em Ponte Nova, agora.

-Ponte Nova? Mas lá não é um local perigoso? -preocupou-se o velhaco Duban.
- Sim, mas é onde há mais feridos, e a floresta também anda perigosa por ali, precisando dos meus cuidados.

Só faltava o homem ter DRUIDA tatuado na testa. Eldrin, porém, ignorou todos os sinais. Seu desprezo por Wulftheim só aumentara, e ele não queria nenhum papel de benfeitor em seu destino. Com isso, acabou assumindo o papel de algoz, condenando, com seu silêncio, o malfadado estalajadeiro. O homem se despediu, mas Eldrin não se deu ao trabalho de abrir a boca.

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Puta que o pariu, pensou Bartolomeu. O sacerdote tinha que escolher bem quais desentendimentos deveria ter com seus companheiros, afinal, o fio que o ligava a Eldrin, Gato Preto e, em menor medida, até mesmo a Bruenor, era frágil. Eldrin e Gato Preto tinham uma dívida com ele, é verdade, mas essa dívida não os obrigava a segui-lo em qualquer missão, nem a aturar seus sábios conselhos, ou comungar de sua moralidade. Preferiu não censurar a atitude imbecil do jovem feiticeiro, que certamente sabia o que estava fazendo quando deixou o druida ir sem lhe falar o motivo pelo qual eles foram até os Dentes de Beory. Sabia que ele não estava preocupado em salvar Wulftheim, mas a atitude dele fora mesquinha e infantil -afinal, já tinham ido até ali em busca do druida.

Preferiu adotar uma rota mais diplomática, e mandar indiretamente a mensagem para Eldrin. Se dirigiu então a Duban:

-Por que você não falou com o druida a que viemos aqui? Você sabia que o procurávamos, para salvar Wulftheim! Tivemos a sorte de topar com ele aqui, do lado de fora da caverna. Você poderia ter falado com ele!
- Não fui pago para isso -respondeu, secamente

O sacerdote não se enervou com a resposta. Gostava de pessoas honestas.

-Bom, então não temos escolha se não ir para Pontenova. Afinal, estamos atrás do druida, e é lá que ele está. Conseguiremos chegar a tempo.
- O combinado foi vir até os Dentes de Beory. E aqui eu vim. Não tenho interesse em continuar até Ponte Nova. A estrada é perigosa, vocês são malucos? Estamos em guerra. GUERRA. Não darei um passo adiante.

E de fato o velhaco não deu um passo sequer em direção ao norte, pois uma tora de madeira foi lançada contra o grupo com uma violência assustadora. Os aventureiros, sempre atentos, abaixaram-se como puderam, evitando o pior. Wulftheim acordou sobressaltado de seu sono, mas Norebo, dessa vez, sorriu para o estalajadeiro: ele e sua mula estavam a poucos passos do grupo, atrás dos troncos rijos de três árvores, e por isso foram salvos do ataque inesperado. O velhaco dono da mula, porém, não teve a mesma sorte: a tora o atingiu em cheio, esmagando-o e partindo o infeliz em dois com seu peso.

- Gigante!! -alertou Gato Preto.

Com efeito, ao norte, no meio do caminho que eles deveriam seguir para chegar à Pontenova, estava um gigante da colina. Mais magro que o último que o grupo encontrou, é verdade. Mas, ainda assim, um gigante. Bartolomeu olhou para seu grupo. Tinham pressa, e todos carregavam ferimentos, em especial Bruenor. Mirou a distância que os separava: um quarto de tiro de arco. Tempo suficiente para o que ele queria fazer.

Pegou o arco encantado do pacto de Adam com a temível Salahadra e pronunciou as palavras mágicas: "Morte rápida aos meus inimigos". A madeira do arco vibrou, e ele pensou ter ouvido a risada maliciosa da naga quando a primeira seta deixou a corda, descrevendo uma longa curva no céu e cravando certeira no ombro do gigante.

A batalha foi curta. Cada flechada de Bartolomeu encontrava seu alvo, guiada pela energia mágica que ele emanava. O gigante tombou a cinquenta passos do grupo, cravejado de flechas. Todos olharam admirados para o feito do sacerdote. Bartolomeu, porém, pensava no que Adam teria sido capaz de fazer com aquele arco em punho. Se nem um dragão conseguiu fugir às flechas do saudoso ladino, talvez um gigante não teria chance de dar três passos.

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