Estrada para os Montes Resolutos - 6° ato

Nem todos estão preparados para encarar a própria mortalidade


Quando Wulftheim recobrou a consciência, estava deitado nas almofadas próximas à lareira acesa -a noite estava fria. Bartolomeu tinha o olhar perdido no fogo que estalava, soltando brasas inofensivas pela sala. O estalajadeiro parecia desnorteado, e se levantava com a dificuldade esperada para um velho na casa de seus 70 anos.

- O que aconteceu? Ela veio? Sadri?
- Sim, meu caro. Ela atendeu ao chamado. -Bartolomeu, saído de seu torpor, encarava o estalajadeiro. Mas temo que, quando ela te possuiu para usar seu corpo para falar, a presença da morte tenha causado um efeito traumático em você, Wulftheim.

O velho olhou para suas mãos, pegou o espelho que ainda estava no banco em que Sadri, quando viva, se penteava, e viu o reflexo do que ele agora tinha se tornado. "Estou velho", foi tudo que conseguiu falar, antes de se calar, apalpando as rugas, os ossos aparentes e os poucos fios de cabelo que lhe restaram.

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Gato Preto e Bartolomeu levaram o estalajadeiro até seus aposentos. Ele parecia resignado, mas ouvia com atenção à história que lhe contaram: que Sadri o perdoou pelo rapto, pelo assassinato, mas não pelas cartas que ele não entregou ao pai. Dentre as tantas possíveis, era essa a mágoa que a prendia àquela forma fantasmagórica e amargurada. Essa era sua última vontade.

Wulftheim foi até um baú de velho e desgastado e, do fundo, pegou um chumaço de papéis amarelados envoltos por uma capa de couro de ovelha.

- Então, ela me perdoou. Eu ia enviar suas cartas, mas... -e não continuou a frase.
- Mas então agora você tem a chance de fazê-lo. E se livrar dessa maldição. -Gato Preto concluiu.
- Sim, sim. Mas onde o encontrarei? 
- Hadir-Ayd deve estar em Maraber. Sadri acredita que ele iria para lá, com a terrível guerra que recaiu sobre a região.
- Maraber. Não será uma jornada fácil, para alguém em minhas condições. -Wulftheim sentou-se em sua cama, com a cabeça entre suas mãos frágeis.
- Iremos por você, se não conseguirmos reverter sua condição.
- Aceito de bom grado sua oferta, Gato Preto. Mas não tenha esperanças para mim. Pelo menos agora sinto alguma paz. Deixem-me, estou cansado. -concluiu Wulftheim, em tom de súplica.

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Bartolomeu passou o restante da noite caminhando pelas ruas escuras da cidade, até chegar à beira do rio. Hochoch era uma cidade imponente, apesar de tudo. Lembrava-o um pouco as ruínas élficas da  chamada (pelos humanos) de Floresta dos Chifres, mas que tem esse nome devido à abundância de madeiras duras, difíceis de trabalhar para os não elfos, das quais a chinirè é apenas um exemplar. De chinirè a chifre, bastaram alguns incautos para transformar as belas matas de Gadhelyn em Floresta de uma madeira dura.

As estrelas brilhavam no céu claro da noite, as mesmas estrelas que ele via nos céus dos Bosques de Gadhelyn, há um punhado de anos. A despeito dos anos e das mudanças, as mesmas perguntas martelavam na cabeça de Bartolomeu: como pode um mundo suportar tanto sofrimento? Tanto sangue, tanta guerra se infiltrando nos sulcos da terra. Bartolomeu era cada vez menos astrólogo, e cada vez mais guerreiro, ele próprio derramando sangue para evitar que mais sangue fosse derramado.

Quantas dezenas de vidas não teria ele e seus companheiros salvado, no último mês? O retorno de Sess'nek fora contido, evitando que o povo lagarto iniciasse um ataque a toda a região. A epidemia de bexiga foi erradicada, salvando a cidade de Orlane. A cada vida que ele permitia continuar seu ciclo natural, ele sentia que agradava a sua deusa, pois Wee Jas não se refestela em mortes prematuras. Ela é a deusa da Morte, e não do sacrifício.

Mas seriam essas vidas que ele conseguiu salvar até agora o bastante? O que podia um grupo de aventureiros contra um exército demoníaco que arruinou o Ducado de Geoff e transformou tantos moradores em exilados como ele próprio? O astrólogo devia, portanto, continuar a ser deixado de lado, para se transformar no guerreiro que é demandado em tempos de guerra.

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Na manhã seguinte, Bartolomeu guiou Wulftheim e seus amigos até o Templo da Trindade.

Era a segunda vez que visitava o local. Na tarde do dia anterior, foi até lá para comunicar a alguma autoridade a ameaça do exército de gigantes, que planejava um ataque conjunto a Orlane e Hochoch, segundo informações obtidas na investigação da torre de fronteira, próxima a Árvore Pálida. O templo parecia funcionar também como quartel das tropas em Hochoch, e tinha aspecto bastante militar: no topo da colina, com paredes grossas, janelas altas e estreitas, e nem o jardim bem cuidado ao longo do caminho até suas pesadas portas parecia atenuar a presença de, mais que um templo, uma fortaleza. Dentro, percebia-se que e os deuses ali são reverenciados em seus aspectos mais belicosos. 

Bartolomeu conseguira audiência com Doncan, o Sem Expressão. O velho sacerdote ficara perturbado mas agradecido com as informações trazidas. O jovem clérigo de Wee Jas aproveitara também para pedir, se possível, que o clérigo intercedesse por Deghan, "um valoroso soldado que caiu em desgraça por não ter obedecido o protocolo, pois a situação era urgente", nas palavras de Bartolomeu. Doncan se dispusera a ajudar o desafortunado rapaz.

Nessa segunda visita, caminhavam com vagar, pois Wulftheim não tinha forças para andar sozinho, tendo que ser escorado por Gato Preto e Bartolomeu, uma vez que Eldrin se negou a emprestar seu cajado para o estalajadeiro. O fantasma de Sadri tinha perdoado o mal que lhe fora feito, mas o meio elfo, não.

Se pudessem ser vistos com suas verdadeiras faces, fiéis e clérigos de Hochoch e Orlane formariam uma turba terrível, cheia de vícios e hipocrisia

Tiveram que esperar o final das preces e cantos matutinos, que continham um tom marcadamente belicoso, em consonância com a arquitetura e os aspectos dos deuses adorados no templo. O tom lembrou muito o discurso do sacerdote de Pelor e Mayahene, que Wurren e Bartolomeu ouviram em Orlane: muito preocupado com a guerra, mas indiferente às outras ameaças à população (como uma iminente praga de bexiga).

Por fim, conseguiram encontrar Doncan. Explicaram ao sacerdote o que os levava ali naquela manhã: buscavam cura para o velho Wulftheim. Não explicaram os pormenores, apenas que um encontro infortuito amaldiçoara o estalajadeiro, que agora buscava acolhida no Templo da Tríade.

Assim como o sacerdote do anfiteatro em Orlane, Doncan parecia ter preocupações anteriores ao bem estar da população. Em tom frio, disse em voz mais alta que o normal, de maneira que não apenas os aventureiros, mas também aqueles em volta ouvissem a reprimenda:

- É com surpresa que ouço seu pedido, meu caro Wulftheim, agora que está em necessidade. Pois nunca o vi aqui, nas adorações diárias aos deuses, em que oramos para que eles ouçam os pedidos não de um infeliz, mas de toda uma nação em sofrimento. Também não me recordo da última vez em que você se dispôs a ajudar as ações do templo, que recebe muitos soldados combalidos, fiéis em desespero e pobres desafortunados, que não têm a sorte de possuírem uma estalagem na cidade para prover a suas famílias abrigo e comida quente nas noites de inverno. Há muito tempo fazemos nosso trabalho sem que você tenha se preocupado com nosso minguado cofre, que não dá conta dos tantos necessitados que temos nessa cidade.

O velho estalajadeiro, cansado da subida até o templo, recobrou algum vigor após ouvir o sermão. Se levantou de seu banquinho sem ajuda e, com o dedo em riste, falou com a voz mais alta que pôde conjurar:

- Não viram e não verão, pois não sou mecenas de mercadores como você, que se aproveitam da miséria do povo para encher essas panças gordas. Que não se preocupam com nada, absolutamente nada a não ser a guerra. Que lambem as botas dos nobres que abandonaram a cidade durante o cerco em que eu lutei. É com surpresa que ouço esses impropérios aqui no salão dos deuses, é com espanto que ouço você vociferar essas palavras que deveriam ser abafadas em vergonha no leito, no escuro da noite. Para vocês, apenas as moedas reluzentes têm valor, e não a necessidade, e não os feitos, e não todo o trabalho que fiz por essa cidade.

E Wulftheim teria continuado, se Gato Preto não o tivesse puxado gentilmente pelo braço, enquanto Doncan chamava os guardas:

- Tirem esse velho infiel daqui. E me admira você, Bartolomeu, ter a audácia de me trazer aqui esse tipo de gente.

Bartolomeu tinha vontade de socar a cabeça do sacerdote aos pés da estátua imponente de Pelor desde que ele começou a abrir a boca. Doncan não era um sacerdote, mas um mercador que usava sua posição em troca de favores, compensações e moedas. Do alto de sua distância dos becos da cidade, estava envenenado pela vida nos salões, pelos privilégios. Fosse o filho de um nobre a procurá-lo, falaria ele com tamanha prepotência? Com tanto desprezo? Por que a vida de um merece a graça de seus deuses, e outros não?

Mais sem expressão que o próprio Doncan, porém, Bartolomeu fez uma mesura com a cabeça, e pediu perdão pela insolência, alegando que não sabia que as coisas teriam esse desenrolar. Saiu do templo, certo de que ainda estava para conhecer, em suas andanças, um único clérigo que fizesse o trabalho divino. Pareciam, cada vez mais, todos servos de Incábulos, espalhando a praga da hipocrisia, e de Mouqol, deus bakulinita do comércio.



O dia ainda estava apenas começando, mas a saga do Estalajadeiro Amaldiçoado estava longe de terminar.

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