Pantera Negra - O super hype de mais do mesmo

Chadwick Boseman interpreta T'Challa, o Pantera Negra em mais um filme de sucesso da Marvel (Imagem: Marvel Studios)

Atenção: este texto pode conter spoilers

Pantera Negra estreou nos cinemas brasileiros em 15 de fevereiro de 2018 e em 16 de fevereiro nos Estados Unidos (a pré-estreia ocorreu lá em 29 de janeiro) e desde então vem quebrando diversos recordes de bilheteria, segundo sites especializados tal como o Omelete.

O filme conta a história de como T’Challa se torna rei de Wakanda (o Pantera Negra), um país oculto no interior do continente africano, após o falecimento de seu pai (no atentado ocorrido em Capitão América: Guerra Civil). T’Challa precisa enfrentar um desafio para assumir o trono, mantendo unificada a nação que está dividida em tribos, além de enfrentar inimigos que ameaçam revelar ao mundo os segredos do país. É neste contexto que surge Erik Killmonger, um dos vilões do filme, que traz consigo alguns questionamentos políticos que permeiam a segunda metade da história e dão o tom que fez com que o filme obtivesse recepção tão calorosa da crítica.

Todos os atores estão bem em seus papéis. Chadwick Boseman é extremamente convincente e suficientemente altivo a ponto de transmitir ao Pantera Negra a grandiosidade que dele se esperaria. Michael B. Jordan, que interpreta Erik Killmonger, de forma alguma compromete seu papel e consegue exprimir o conflito ideológico que guia sua personagem. Lupita Nyong’o (embora irreconhecível para quem só a viu em Doze Anos de Escravidão) acerta em cheio na carga emocional e na força de Nakia, uma guerreira integrante do serviço secreto de Wakanda por quem T’Challa tem interesse amoroso. Andy Serkis, como sempre, dispensa comentários, pois o pouco tempo de tela que Ulysses Klaue (o Garra Sônica) tem é mais do que suficiente para que o ator exiba toda sua qualidade. Só não é o melhor do filme porque este posto, na minha opinião, cabe à Danai Gurira, que interpreta a General Okoye, uma personagem fortíssima, de olhar penetrante e enorme carisma. Minha favorita!

Achou que era Forest Whitaker em Pantera Negra, né? Nada disso! Aì na foto ele está em Rogue One (Imagem: MovieWeb, aqui

Como disse, todos bem. Mas, há exceções, é claro. Forest Whitaker interpreta Forest Whitaker e Martin Freeman interpreta o mesmo sujeito meio hesitante, meio gago, meio bobo, meio cara de pastel que ele imprimiu ao Bilbo Baggins de O Hobbit. Uma interpretação fraquíssima para um personagem dispensável na trama.

O enredo é bom em linhas gerais, diverte e prende o espectador, embora a fórmula já seja conhecida. Os efeitos especiais são “ok”, mas não chegam a encher os olhos. Os cenários são agradáveis e bonitos. O panorama da principal cidade de Wakanda mostra toda a criatividade dos artistas que trabalharam para imaginar o fantástico país e como a cultura africana poderia moldar uma metrópole superdesenvolvida e isolada de contato com o resto do mundo. De negativo, apenas alguns exageros tecnológicos criados a partir da maior riqueza e exclusividade da nação (o vibranium).

Depois de assistir ao filme deixei a sala de cinema com um mix de sentimentos. Não estava esfuziante nem decepcionado. Estava com a clara sensação de que havia assistido somente a mais um filme de super-heróis da Marvel que obedece rigorosamente à fórmula de sucesso daquele estúdio que é repetida exaustivamente filme após filme. Apesar de garantir alguma diversão e bastante sucesso nas bilheterias, esta fórmula não é mais capaz de surpreender a ninguém minimamente antenado nesse universo de filmes. Por exemplo, nem mesmo ao assistir ao Homem-Aranha: Homecoming eu me senti tocado e isso, no meu caso, diz muito, pois de todos os personagens retratados no cinema nos últimos anos, sem dúvida o cabeça de teia é aquele com quem mais me relacionei na adolescência e, portanto, era de se esperar que um filme dele fosse o mais propício a me emocionar de algum modo. Mas não.

A única graça de Pantera Negra é mergulhar de forma mais profunda no universo e nos mistérios do personagem, que é desconhecido do grande público e até então nada explorado no cinema. Aliás, este parece ser o único mérito deste filme e de outros como Doutor Estranho e Homem Formiga, p. ex., que é justamente conseguir tornar palatável ao público em geral as estórias de super-heróis pouco ou nada familiares ao público em geral – tarefa que os roteiristas e artistas da Marvel tem conseguido desempenhar com grande maestria, gerando com isso a valorização das propriedades intelectuais dos estúdios e da editora, maximizando os lucros não só com a venda de ingressos, mas também com produtos licenciados os mais diversos, além de enriquecer e popularizar a cultura dos quadrinhos.

A verdade é que Pantera Negra é um bom filme dentro do padrão Marvel, mas não é o melhor que o estúdio já fez. Ainda assim, apesar das ressalvas, perguntei-me algumas vezes na saída do cinema porque não estava mais satisfeito e cheguei (meio cambaleante) à conclusão de que isso se deve à politização do filme.

Está certo que o filme é político. Essa é uma de suas propostas, senão a principal: colocar em evidência um dilema ético hipotético no qual se pergunta qual o papel de uma nação africana (leia-se: 100% negra) extremamente rica e hiperdesenvolvida no bem estar de negros em todo o mundo. O questionamento em liça vem muito através da boca de Erik Killmonger que, como americano negro, se vê diante da possibilidade de usar todo o poder e glória de Wakanda para, em suas palavras, libertar seu povo dos brancos, também chamados de “colonizadores”. T’Challa, de seu turno, inicialmente age de modo inverso, propalando seu papel como protetor somente de Wakanda e de seu povo. Ficam claros, aqui, os dois modos de ver e pensar o mundo que colocam o vilão e o protagonista em polos opostos: o primeiro vê na cor da pele (e na remotíssima e questionável origem africana dela) o único elemento de coesão necessário para que todos os negros se identifiquem como uma única “nação” e daí justifica que Wakanda saia em socorro dos negros em todo o mundo. Já o segundo enxerga muito além, pois implícita e sabiamente reconhece que muito mais do que uma remota origem em comum, para a formação de uma “nação” é necessário haja também interesses comuns, ideais e aspirações que tornem os indivíduos membros de uma comunidade de consciências unidas por um sentimento muito mais complexo do que a simples percepção visual de uma cor de pele é capaz de revelar. Daí, T'Challa justifica que sua missão como rei é proteger os interesses daqueles que vivem em Wakanda que, apesar de divergências internas, por ser um país hermético, tem seu povo majoritariamente unido no desejo de proteger seu modo de vida e seus costumes milenares (das cinco tribos que formam Wakanda, quatro estão unidas sob a liderança do Pantera Negra), uma verdadeira "nação", afinal.

O problema é que esta interessantíssima questão, que é a força motriz do vilão e que deveria impulsionar a história, fica totalmente em segundo plano no filme. Killmonger, em determinado momento, flerta com os clichês babacas de vilões mauzões e parece interessado apenas em causar caos ao invés de por em prática sua visão de mundo. Não se diga que, por ser um militar de formação, Killmonger não sustentaria a fibra moral necessária para levar adiante um viés verdadeiramente político da personagem, pois a despeito de seus impulsos bélicos, verdade é que ninguém atravessaria o mundo, enfrentaria exércitos, e desafiaria um super-herói se não tivesse um grosso estofo ideológico por trás. Neste sentido, colocar o discurso na boca de Killmonger apenas para lhe dar um álibi para logo em seguida fazê-lo esquecer de suas motivações e não explorá-las de modo algum no filme, resumindo tudo num conflito mano-a-mano com T’Challa soou como um desperdício monumental de uma oportunidade ímpar para dar profundidade nunca antes vista a um enredo de um filme do gênero. Nem mesmo T’Challa demonstra estar muito convencido de sua crença, deixando a entender em dado momento que sua postura é puramente egoísta – o que é dubitável se considerarmos que ele foi preparado a vida inteira para suceder seu pai no trono, o que pressupõe não só aptidões físicas mas muito estudo também (quero dizer: T’Challa deveria saber do que estava falando, e não sendo meramente egoísta). Ou seja, o filme permite que se passe uma certa frouxidão moral indesculpável tanto da parte do vilão como do herói, de sorte que no final das contas todo o enorme conflito surgido em Wakanda (uma rápida guerra civil, pode-se dizer) se torna uma imbecilidade indescritível a ponto de questionarmos o quão evoluída aquela sociedade realmente é.

Este problema, aliás, aflige os coadjuvantes também. Nakia aparece no filme pela primeira vez lutando pela liberdade de mulheres nigerianas cativas e passo seguinte demonstra não ter interesse de viver dentro de Wakanda, mas sim como uma agente externa. Além disso, parece ser refratária à ideia de ligar-se a T’Challa. Quando o filme termina, porém, cai em seus braços sem nenhum sinal de conflito com os ideais que portava até uma hora antes.

Até a General Okoye, de quem tanto gostei, padece do mesmo mal em determinado momento, pois quando Killmonger senta-se no trono e a família de T’Challa pede socorro, Okoye mantém-se firme em sua postura de defender o Reino de Wakanda seja quem for seu rei. Passo seguinte, porém, quando o Pantera Negra ressurge, ela deserta sem nenhum sinal de dúvida.

Ser linda não é seu principal adjetivo, embora seja a primeira coisa que se nota (por óbvio). A General Okoye é forte (física e moralmente)  e manda bem pra caralho em diversos momentos do filme! (Imagem: Everett Collection)


É claro que estou sendo rigoroso. Trata-se, afinal, de um filme de herói e vilão voltado para o público jovem. Não é mesmo de se esperar que se explorem aspectos tão delicados e complexos dos personagens (muito embora os quadrinhos às vezes o façam).

Entretanto, parece-me que toda estória de herói deve ter algum tipo de moral, e a frouxidão moral de Pantera Negra dá azo a todo tipo de maluquice, inclusive à confusão dos papéis de herói e vilão. Tal confusão se reflete em parte do público e da crítica que, tratando o filme como se fosse uma peça de publicidade ideológica, faz de Killmonger uma espécie de herói ungido por movimentos sociais, dentre os quais, como se verá mais adiante, é oportuno citar o Partido dos Panteras Negras (movimento armado Leninista-Marxista de extrema-esquerda fundado nos Estados Unidos na década de 60, do qual o braço estendido com o punho enluvado e fechado [raised fist] é um símbolo memorável[1]). Afinal, Killmonger pregava uma revolução onde Wakanda enviaria armas e tecnologia para os “irmãos” negros oprimidos em todo o mundo com o objetivo de tirar os brancos “opressores” do Poder e, como disse linhas acima, enxergava na cor da pele suficiente identificação para justificar suas ações e falar em nome de todos os negros. Trata-se, claramente, de uma mensagem conflagradora e não conciliadora que muito mais contribui para a desunião das pessoas do que o contrário. Por outro lado, T’Challa possui um discurso mais consciente do que realmente vem a definir uma nação (ou um povo, se você preferir, embora as ciências políticas distingam uma coisa da outra) e qual o grau de responsabilidade que tem sobre ela. Percebe-se que, apesar disso, T’Challa evolui seu pensamento no final do filme ao anunciar a abertura de Wakanda para o mundo, mas não na forma pretendida por Killmonger – um discurso, se muito, reformista, porém jamais revolucionário, por assim dizer. Uma mensagem muito mais pacificadora e bonita do que a do vilão. Nada obstante, como a frouxidão moral impera, a confusão de papéis e motivações se estabelece e um exemplo que reforça essa percepção é a manifestação do próprio ator principal, Chadwick Boseman, que disse que vê o T’Challa como o vilão e não como o herói – papel que em sua visão caberia a Killmonger.[2]

Ou seja, boa parte dos espectadores e da crítica (e até mesmo o ator protagonista) não parece ter entendido o pensamento de T’Challa que, graças ao roteiro frouxo, permite se ver não como um herói de verdade, imbuído de um espírito de moral elevada e força para fazer "a coisa certa do jeito certo", mas até mesmo como um vilão que frustra a revolução pretendida por Killmonger (muito mais fácil de entender à luz da superficialidade do enredo).

A primeira aparição do Pantera Negra se deu na revista Fantastic Four n.º 52 (Imagem: Syfy Wire, aqui)

Talvez (e aqui eu digo talvez mesmo, pois não serei capaz de responder a esta dúvida) esta confusão seja proposital. Talvez Stan Lee e Jack Kirby, quando criaram o Pantera Negra em julho de 1966, tenham mesmo querido dar a ele a ênfase político-ideológica que parte da crítica e alguns movimentos sociais querem atribuir à obra hoje, mas eu duvido muito. Por outro lado, é muito mais provável que este tenha sido o objetivo dos produtores do filme, que inclusive mudaram a origem de Erik Killmonger, que nos quadrinhos foi criado no Harlem (em Nova York) e no filme é originário de Oakland (o mesmo local em que o Black Panther Party surgiu) – isso sem falar na simplificação da própria história dele, já que nos quadrinhos é retratado com um subversivo que encena um golpe de estado visando acabar com o que chama de influência dos "colonizadores brancos" apenas para retornar Wakanda aos seus costumes antigos.[3] 

Seja como for, em suma, eu preferiria que Pantera Negra terminasse com pelo menos uma lição mais clara a respeito da importância de T’Challa e da identidade de Wakanda, explicitando e explorando mais os aspectos ideológicos que movem tanto o herói como o vilão. A Marvel, contudo, tem sua fórmula de sucesso pronta, onde toda a profundidade é deixada de lado em benefício de uma ação frenética movida a CGI, entregando uma história rasa, porém visualmente atraente e bem executada. O filme é bom, o elenco maravilhoso, as personagens interessantes e a história é bem contada, contudo superficial demais.

Comentários

  1. Não vi o filme mas achei muito legal sua resenha, Mestre Cavernoso. A superficialidade de fato é uma constante em quase todos esses filmes, sendo preterida em prol da ação. A simplificação das motivações vai a reboque: ao invés de um incômodo cinza, um maniqueísmo que varre o princípio político promissor e descamba para cenas de ação entre caricatos "bonzinho" contra "malvado".

    Pelo que pude acompanhar na tuittosfera, o filme foi bem recebido tanto pelo movimento negro como pela população em geral, conseguindo criar um enredo palatável a todos baseado na construção de uma história cujos protagonistas são negros e com o cuidado de exaltar uma certa negritude (como vc bem disse, mesmo os detalhes arquitetônicos não foram deixados de lado). Eu acho isso um ponto bastante positivo.

    Fiquei com mais vontade ainda de ver o filme, e pretendo fazê-lo. Particularmente, acho interessante ver como a indústria cinematográfica vai tentar se apropriar e retrabalhar questões sociais que estão em voga na sociedade, e esse filme me parece oferecer pistas nesse sentido.

    Por último: o Martin Freeman tem alguma coisa estranha. Não é que eu não goste dele, mas também fiquei com a impressão de que ele está sempre fazendo o mesmo personagem, a julgar pelas poucas coisas que vi dele. Acho bom o papel dele de Watson em Sherlock, mas o Bilbo tem muito de Watson também, o que dá uma sensação esquisita, como se fosse um "déjà vu".

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