O disparo para a cruel verdade, parte I


Eldrin acaba começando a desenterrar algumas histórias durante muito tempo adormecidas, mas só o tempo dirá se ele as aceitou como fundamentais para ele se tornar quem é hoje.
[imagem: Harley MS 647, f 10v, detail. Eridanus]


PARTE I - Sombras do passado
texto de Leandro Azul e Sacripanta

Da compaixão à ira, uma mistura de sentimentos toma Eldrin de assalto, ao ouvir o relato do taverneiro Wulftheim, entre as portas trancadas do Furão Sarnento. Cada palavra que saía da boca do dono da taverna parecia ter o som de uma flecha deixando o arco retesado, voando em direção às memórias que o jovem feiticeiro tentava camuflar havia tempos.

Memórias escondidas, quase esquecidas em meio às folhagens de um passado que o assombrava. A confissão que Wuftheim fazia aos aventureiros, ainda que mirasse seus próprios fantasmas, como trapaça, humilhação e assassinato, acertava os de Eldrin, que eram bastante distintos. De alguma forma, reavivavam a dor que o feiticeiro precisou esquecer, que ele precisou acreditar que jamais presenciara: fogo e sangue não são adequados para os olhos inocentes de uma criança.

Não se trata de ignorância: Eldrin sabe muito bem como começa e como acaba a história da morte de sua família. Mas ele demorou toda a juventude para conseguir organizar os flashes de memória vindos através de sonhos, ou sussurrados pela noite escura, ou revelados em momentos de solidão.


a casa de madeira, perto da floresta
risos
a cabana dos lenhadores, mais fundo na mata
temor
o irmão que o amava e o que o odiava
lágrimas que queimavam como fogo
a adaga incrustada com rubis
o vaso pesado se partindo
medo
o som oco de algo sem vida caindo no chão
desespero
gritos e pavor.


Via esses fragmentos esparsos de memória como pedacinhos de revelação divina, mas não conseguia se decidir se era a iluminação de um deus bom, ou a zombaria de um deus maligno. O desejo do conhecimento transformara-se, ao longo dos anos, em raiva, vingança e desilusão. Sua família foi brutalmente assassinada, sem chance de defesa. Precisava encontrar o culpado.

Mas, ao mesmo tempo, alguma coisa mudava a cada lembrança. No começo bem vindas, quanto mais conseguia compreender, menos Eldrin queria que essas visões continuassem, pois eram como um chicote a torturá-lo, indefeso. Verdades cuspidas na cara sob o sol de meio dia e estremecimentos incontroláveis nas frias madrugadas. Havia algo de desconcertante nelas, por mais que estivessem dolorosamente apontando as respostas sobre sua família.

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 Clef era visto assim, pelos olhos infantis de Eldrin.
[imagem: não foi encontrada a fonte, mas parece ter sido usada como capa do livro Gli Angiò nell'Italia nord-occidentale, de Rinaldo Comba (2006)]

Havia um fosso recoberto de memórias retalhadas entre sua infância idílica, feliz, e sua adolescência conturbada, malandra e de fome, entre as ruas sujas de vilarejos e cidades variadas. Eldrin colocou cedo o pé na vasta estrada do mundo, mas, antes disso, Tebas era o nome de seu pai, e Luna, de sua mãe. Eram seus pais adotivos e os únicos que conhecera, mas não sabia o motivo. Era o terceiro, o caçula, o filho da boa sorte que, de tão amado, não era adotivo. Era filho e ponto, apesar das orelhas um pouco pontudas e das feições longilíneas, típicas dos meio-elfos. Ajudava na roça, tosqueava as poucas ovelhas, acompanhava o pai até o mercado, uma vez por semana.

Da sua infância, lembra-se de tudo. Dividia as tarefas com seus irmãos; um tinha olhos de um profundo verde, chamado Vince. Era poucos meses mais velho que Eldrin. O outro, com uma cabeleira cacheada como a do pai, era o primogênito, Clef, contando com 15 verões, já com ares de adulto, e andava com os homens do vilarejo. Havia um outro irmão, pouco mais jovem que o varão e muito próximo dele, mas Incábulus fez com que fosse embora antes da hora.

Clef era o modelo do caçula. Observava como ele executava as tarefas, se esforçava para ajudá-lo e, assim, ficar mais próximo, conversar. Tentava agradá-lo de todas as formas, conquistar sua simpatia, mas sem ser submisso, pois o irmão não o era. Mas ele nunca foi receptivo ao “irmão mestiço”, como se referia a ele.

Vince era diferente. Sempre vívido e honesto, era impossível não amá-lo. Era criativo, ousado, divertido, gostava de se aventurar pela floresta junto de seu irmão mais novo e era muito ligeiro. Era raro ver um sem a companhia do outro.

Eldrin tinha então 11 anos; a vida era dura, mas era boa, ainda que pontuada por um incômodo incidente: o caçula possuía um dom raro, espontâneo e indomável, a magia. Sua família era bondosa e respeitada, mas, ainda assim, se tratavam de camponeses, gente acostumada a arrancar da terra, todos os dias, o sustento. Sabiam que existia magia no mundo, eles mesmos a viram por vez ou outra, nas palavras e gestos de viajantes e aventureiros
que passavam pela vila. Em geral, causava problemas e, às vezes, operava milagres. Era, de toda maneira, perigosa, sempre disseram. Não desconfiavam, porém dos dons do caçula.

Um dia Eldrin voltava para casa junto com seu irmão, puxando a lenha coletada para aquecer a noite fria. Depois disso, se lembra de apenas estar na estrada, sozinho, vagando perdido pela estrada que levava para fora da cidade.

Uma estranha culpa, foi o que primeiro veio, anos depois. Depois, uma sensação de responsabilidade pela morte de seus pais. Mais tarde, a mesma sensação, agora também em relação a Vince.

Um dia, tudo jorrou. 
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Comentários

  1. Quero a parte 2... Cadê???
    rsrsrsrs

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    Respostas
    1. Apareceu a margarida

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    2. daqui a pouco eu posto (vamos só dar mais uns dias de intervalo). A parte 3 que ainda não está pronta, porém :/

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