Estrada para os Montes Resolutos - 5º Ato

Hereges eram queimados pela inquisição na idade média. Joana D'Arc é uma vítima famosa. Mas seu julgamento foi ilegal perante o Direito Canônico então vigente, motivo pelo qual foi absolvida pelo Papa Calisto III anos mais tarde.

Uma mulher arde em chamas de uma fogueira.

- Bruxa! Bruxa!

- Queime no inferno, maldita!

A multidão histérica grita enquanto os sacerdotes observam. O fogo reluz em seus olhos e o cheiro da carne queimada começa a se espalhar pela praça lotada da cidade.


- Papai, eu não estou me sentindo bem...

Aguente meu filho, você precisa ver isso para saber o que acontece com quem se mete em bruxarias. O menino tenta cobrir os olhos, mas sua mãe, que está ao lado, segura suas mãozinhas.

- Aaaarrghhhhhhhhhh, aaahhhhhhh! Weee Jas! Tenha piedade! Peloor! Alguém! Ahhhhhhh – a mulher agoniza e os gritos de dor sufocam sua voz.

- Chamar pelos deuses não vai te ajudar! Vagabunda!

- Você matou nossos filhos, nossas crianças! Agora pede piedade?! Teve piedade delas quando as cozinhou em seu caldeirão?

O globo ocular da mulher explode, seu sistema nervoso colapsa com a dor extrema. Seu rosto já está coberto pelas chamas que agora se erguem acima de seu corpo, consumindo tudo. O povo faz silêncio quando o corpo da bruxa arria com o próprio peso, ficando preso apenas pelos arames farpados que o seguram ereto em um poste de madeira.

- Vamos embora! Vamos embora! O show acabou!

- Então é assim... – uma mulher sussurra ao ver uma nuvem de fuligem se dispersar sobre a fogueira, carregada pela brisa leve para o alto, enquanto os guardas dispersam a multidão -, é assim que se vai nossa irmã.

- Fale baixo, Lidna, ou eles poderão nos ouvir – respondeu sua colega, abaixando a cabeça para esconder os chifres pontiagudos de sua linhagem tiefling e puxou seu capuz.

- Hei de me vingar! Destruirei a todos!

- O espírito dela não vai abandonar esse povo, pode apostar. Ela terá sua vingança – e caminharam juntas para fora dos limites da cidade...

****

- Esta não é uma maldição qualquer, não é o fruto de uma simples magia...

- Nenhuma magia é simples – interrompeu Edrin.

- Deixe o Bartolomeu continuar – falou Bruenor, interessado.

- Magias comuns não são capazes de transtornar almas em espectros vingativos – o olhar dos aventureiros ficou pesado. Bruenor olhou sobre os ombros para a janela como se estivesse desconfiado da presença do espírito e se arrepiou – a alma que assombra nosso amigo estalajadeiro é o fruto de uma maldição primordial, daquelas que é conjurada por uma pessoa tremendamente angustiada por uma injustiça... – Bartolomeu disse com tom de voz baixo e solene.

- Neste caso, Wulftheim não contou sua verdadeira história.

- É o que pretendo descobrir – respondeu Bartolomeu.

De fato, a história que o taverneiro contou não condiz com a natureza da maldição sofrida e, por isso, o astrólogo decidiu pressioná-lo a dizer tudo, tendo, para tanto, escolhido como “método” a pura e simples exposição da verdade sobre a natureza da maldição. Naquela manhã, se aproximou do homem enquanto ele limpava o chão com um esfregão e lhe contou o que sabia sobre aquele tipo de espírito e que a sombra que pairava ameaçadoramente sobre ele não poderia ser reflexo de uma praga qualquer.

Sentindo-se pressionado, Wulftheim explodiu em lágrimas de ressentimento e culpa. Contou aos aventureiros que sua aposta com Hadir Ayd, o “maldito ketita” a quem tantas vezes se referiu, tinha como objeto a filha do mercador bakulinita, uma jovem morena, de sedosos cabelos ondulados, por quem disse ter se apaixonado à primeira vista. O taverneiro sempre admitiu ter trapaceado no jogo, mas agora as consequências de tal ardil se revelam ainda profundas.

- Agora está começando a ficar claro a razão do ódio de Hadir Ayd, que ao ver sua filha ser tomada de seus braços por um aventureiro inescrupuloso, ladrão e trapaceiro, rogou-lhe uma praga – disse Eldrin apressadamente. O pior, porém, ainda estava para ser contado.

- Sadri nunca me aceitou completamente, mas até que éramos felizes, na medida do possível. Logo assim que a tomei para mim comprei essa estalagem com os recursos que amealhei em minhas aventuras quando bem jovem. Sadri era para mim um tesouro precioso, então entendi que o momento de sossegar o facho havia chegado.

- Hum, e daí? – Gato Preto demonstrava impaciência com o estalajadeiro, cujas longas pausas para enxugar as lágrimas não convenciam.

- Certa feita, Sadri fez um cena. Disse que não me amava e que havia se deitado com muitos na cidade, zombando da minha virilidade. Irei-me com aquilo e, neste acesso de fúria, acidentalmente a matei – Wulfheim explodiu em um choro profundo, enquanto os aventureiros, incrédulos, olhavam uns para os outros sem saber o que dizer - Enterrei seu corpo numa cova rasa nas imediações da vila de Hochoch... – completou o estalajadeiro, esfregando a mãos nas lágrimas e muco que escorriam de seu rosto.

Agora tudo estava mais claro aos olhos do astrólogo, para quem aquela sombra fantasmagórica só poderia ser o espírito corrompido da menina Sadri, filha de Hadir Ayd, e talvez a maldição não estivesse tão relacionada ao pai, mas sim ao ressentimento da própria filha, a noiva cadáver de Wulftheim.

- Que homem nojento! Como puder ter simpatia por você antes? Sua história é repugnante e o que você fez para sua pobre esposa é uma vergonha! – disse Eldrin com inédita seriedade na voz.

- Sou obrigado a concordar com ele, você é desprezível. Fique aí com sua maldição. Fez por merecer.

- Calma Gato Preto... ele cometeu um erro – ponderou Bartolomeu. Mas o felino e Eldrin passaram a olhar com desprezo para aquele homem, apesar dele insistir com lamuriosos clamores de arrependimento e misericórdia – todos podem errar. A gente inclusive. Não se apressem em julgá-lo, embora reconheça que seus atos foram muito graves... – havia um tom aparentemente condescendente em Bartolomeu o que a princípio irritou os colegas (exceto Bruenor, que continuava calado, pasmo).

- Me preocupo com Sadri. Seu espírito está preso aqui em Oerth, não gravitou para os planos exteriores. Parece ter sede de vingança contra Wulfheim e esse sentimento não permitiu que se desprendesse completamente de sua vida material. Não podemos deixa-la assim, preciso ajuda-la – Bartolomeu era, afinal, um sacerdote de Wee Jas e que  melhor forma de honrar as bênçãos de sua deusa matrona senão ajudando a alma de Sadri?

Bruenor ficou com medo, mas o astrólogo lhe convenceu que poderia fazer um ritual seguro para lidar com o problema. Contudo, Gato Preto e Eldrin estavam relutantes. Foi preciso alguma insistência para que se convencessem da importância daquela missão assumida por Bartolomeu.

-  Mas o que exatamente você vai fazer? – perguntou Eldrin.

- Vou invocar seu espírito, exorcizá-lo de alguma forma – respondeu o astrólogo -, tentarei convencer Sadri a aceitar sua morte e demovê-la da ideia de vingança, que é muito mais nefasta para ela do que para seu marido.

- Faça isso, mestre! Faça isso! Faça com que ela vá embora! – falou Wulftheim, lamurioso – Posso lhe mostrar onde a enterrei, foi sob um álamo numa colina próxima. Uma cova rasa que cavei com minhas próprias mãos para esconder o crime... Oh! Me perdoe Sadri...

- Não. Não quero mexer em seu cadáver, ainda mais agora que sei que foi enterrado deste modo. Mas precisarei que me arranje alguns pertences pessoais dela, coisas que ela prezava muito. Teremos uma noite longa pela frente...

****

Exorcismos e possessões demoníacas permeiam a história da humanidade, especialmente nas religiões abraâmicas.  Bartolomeu não poderia prever que o caso exigiria dele frieza e conhecimento dignos de um exorcista.


O dia passou lentamente. Bruenor estava com medo do que poderia ocorrer. Anões como ele não estão acostumados a lidar com fantasmas ou espíritos de qualquer tipo. Eldrin e Gato Preto, ainda inconformados com as descobertas sobre a vida de Wufltheim, deixaram a estalagem para passear pelas ruas de Hochoch. Bartolomeu era quem estava mais ocupado, estudando uma forma de atrair o espírito de Sadri, coletando objetos dela e informações que pudessem ser úteis para este desiderato.

 - Sadri se transformou numa fantasma, pois tem assuntos inacabados. Precisarei de um local silencioso, então a estalagem tem que estar fechada. Você me disse que costumavam ficar em frente a lareira, no térreo, e que se recorda de alguns bons momentos com ela naquele local. Então, creio que seja perfeito para o evento. Mas para concluir o ritual, preciso de algo utilizando dela... Ah, esse espelho era dela? Deve servir! – exclamou Bartolomeu enquanto perlustrava o quarto de Wulfheim.

- Ela se sentava naquela banqueta e ficava se olhando nesse espelho por longo tempo, penteando seus cabelos... – murmurou o estalajadeiro.

- Perfeito!

Quando a noite chegou, os aventureiros estavam reunidos num canto do salão do Brasão do Furão Sarnento. A lareira crepitava e as portas estavam trancadas para que ninguém interrompesse. Wulftheim estava hesitante. Bruenor era quem observava mais de longe, sentado num banco próximo da janela sob o pretexto de vigiar a rua. Eldrin e Gato Preto estavam ali também, um pouco mais próximos que o anão. Bartolomeu inicia os cânticos, caminhando pelo ambiente para espalhar a fumaça do incenso que carrega numa das mãos. Na noutra, o símbolo sagrado de Wee Jas que Ânn lhe presenteou. Pelos cantos da sala, velas e vasilhames com unguentos previamente preparados pelo astrólogo ajudam a conferir um tom assustador aquilo tudo. De repente, Bartolomeu vê a alma azulada de Sadri surgindo como uma energia dispersa e etérea em forma que vagamente lembra a sua aparência humana (trata-se de uma menina, que não teria mais de quatorze anos se viva fosse). Vê-se sua expressão sôfrega, os laços de blusa de cetim soltos quase pondo os seios à mostra e as marcas das mãos de Wulftheim em volta de seu pescocinho. Sobrevém a todos uma profunda sensação de tristeza e solidão, empedernindo seus corações, pois a visão daquela alma é verdadeiramente melancólica. O ambiente fica estranhamente silencioso, criando uma atmosfera desconfortável. O fogo das velas tremula estranhamente e a luz fica fraca.

Diante do fantasma, Bartolomeu tem agora certeza de que é plenamente capaz de expulsar essa criatura ou até mesmo quem sabe de destruí-la seja com a canalização do poder divino de Wee Jas ou mediante a reprodução do mesmo método que a levou à morte (o que causaria imenso sofrimento à alma penada), mas ocorre ao astrólogo que tais atitudes, embora simples em face das circunstâncias, poderiam transformar o fantasma num espectro condenado a vagar por Flanaess sem rumo e nem sentido. Melhor mesmo seria ajuda-la, convencê-la a desistir de sua vingança.

Sadri, no entanto, parece incapaz de se comunicar com os aventureiros, pois ela rodopia pela sala por alguns instantes. Inicialmente, sua postura chega a ser ameaçadora, tentando um confronto com os aventureiros, mas à vista do símbolo sagrado de Wee Jas, a fantasma hesita, demonstrando esgar de dor ao tentar pronunciar qualquer palavra, que acaba vazando como um gemido assustador.

- Ela não parece capaz de falar – disse Bartolomeu.

- Meu amor! Me perdoe! – gritou Wulftheim, mas o fantasma de Sadri rodopiava ainda mais e sua expressão se tornava mais assustadora, até que num movimento rápido, aquele ectoplasma fantasmagórico se atirou contra o taverneiro, cujos olhos se reviraram nas órbitas.

- Quem são vocês? O que querem de mim? – a voz de Wulftheim estava mudada, mais gutural agora do que nunca.

- Queremos te ajudar – o astrólogo não se permitiu ficar em dúvida ao reagir à inesperada incorporação que presenciou – Sabemos o que Wulftheim fez, mas você não pode se entregar à vingança. É isso o que a está prendendo aqui!

- Morri pelas mãos de meu marido, mas por isso eu não o culpo, pois fui uma esposa ingrata e malcriada. Eu nunca gostei de Wulftheim, afinal não o escolhi, mas ele a mim. Apesar disso, ele sempre foi bom, presenteando-me com o que dispunha de melhor, não me deixando faltar nada. Não, não quero me vingar. Não quero acabar com Wulfheim...

Bruenor desviou o olhar. Observava a rua, mas se arrepiava só de ouvir aquela voz do além. Gato Preto e Eldrin ouviam respeitosamente, mas não puderam deixar de esboçar sua surpresa com a fala de Sadri.

- Então qual é seu assunto não resolvido?! – perguntou Bartolomeu.

- Escrevia com frequência para meu pai, pois sabia de sua angústia e sua dor em me perder para um reles aventureiro. Certo dia, porém, descobri que meu marido nunca providenciou para que as cartas fossem entregues. Isso me irou, e discutimos muito, quando, movida por fúria, lhe disse que havia sido de muitos homens, que me entreguei a todos os malandros da Vista Ribeirinha. Isso o transtornou nos calor dos argumentos, meu olhar ficou turvo e quando percebi já estava tendo a estranha visão de meu próprio corpo desfalecendo inerte nos braços de Wulfheim. Eu não sei porque ele nunca enviou as cartas a meu pai.

- Talvez ele não soubesse onde seu pai estava. As guerras mudaram tudo por aqui nos últimos anos... Seu pai ainda é vivo? Talvez nem isso... – ponderou o sacerdote de Wee Jas.

- Eu sei que Gorna foi invadida pelos gigantes, mas meu pai jamais ficaria para ver isso, pois ele era muito esperto e tinha muitos amigos, especialmente entre os gnomos, por isso enderecei muitas cartas para Maraber, onde tinha muitos negócios. É lá que meu pai está.

- Pode perdoar Wulftheim? O que te prende aqui em Flanaess, afinal?

- Odeio Wulftheim porque nunca enviou minhas cartas, porque fez papai sofrer! Tudo o que eu desejava era contar a ele que estava bem, apesar de tudo. Levem minhas cartas a meu pai e minha alma será livre, pois o peso que carrego no coração terá sido aliviado! Não contem a meu pai a tragédia que se abateu em minha vida, ou ele se ressentirá para sempre, o que eu não desejo. Encontrem-no! – e o fantasma deixou o corpo de Wulfheim.

- Pelo martelo de Moradin! – exclamou Bruneor.

O corpo do estalajadeiro caiu no chão antes que Bartolomeu o pudesse alcançar. O pesado manto de sombras que pairava sobre o ambiente foi dispersado, mas a expressão de alívio dos aventureiros logo cessou quando viram que Wulftheim tinha a pele fina repuxada sobre os ossos agora aparentes, os olhos fundos nas cavidades, os cabelos ralos e brancos, as unhas amareladas e quebradiças.


- O fantasma de Sadri! O fantasma de Sadri consumiu sua energia vital! – falou Gato Preto, assustado, mas com uma estranha certeza na voz.

Comentários

  1. ficou muito boa a narrativa, Mário! Quando retomar o conto, vou ver se ficou algum buraco, comparando com o que você escreveu aqui.

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    1. Gostei da metáfora para metajogo: "estranha certeza".

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    2. Kkkkk! Bem observado! Bem observado! E obrigado pelos elogios quanto à narrativa.

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