Estrada para os Montes Resolutos - 4º Ato

Um espectro invadiu a estalagem, assustando Bartolomeu. Um espírito atormentado? (Imagem: stephentrenkamp em Deviant Art, aqui)
Texto do Sacripanta


- Vamos matá-los de uma vez. São bandidos que te atacaram.
- Se eles viverem, vão nos denunciar e voltar c
- Vamos matá-los de uma vez. São bandidos que te atacaram.
- Se eles viverem, vão nos denunciar e voltar com mais gente.
- Não há motivos para matá-los só por isso. Não vai nos ajudar.
- Então corte suas mãos da espada, apenas. Para dar uma lição.
- Vamos mandar um presentinho para o rei deles.Duas cabeças.
- Eles não vão nos ajudar com negociação nenhuma. 
- Nem que seja como sinal de boa-fé, devemos deixá-los ilesos.
- Isso vai demonstrar fraqueza, não boa-fé. 
- Eles quase mataram o taverneiro!
- E iam te matar também! 
- São uns rufiões apenas.
- Devem pagar por seus atos.

Os aventureiros discutiam o destino dos prisioneiros. Gato Preto já se juntara a eles, tendo terminado sua incursão noturna. À exceção de Bartolomeu, todos pareciam condená-los. Bartolomeu discordava: estava acostumado a matar orcs, goblins, monstros. Humanos, não, ainda mais dois subalternos que se borraram todos quando viram o sacerdote enfurecido.  

- Gente cagona assim sempre vai existir, e se fossem passar todos no fio da espada, sobrariam poucos em Hochoch ou qualquer vila. Os atos heroicos são feitos não apenas de coragem e sorte, mas também por medo e azar. Esses dois aí podem se redimir. E, se vocês não acreditam nisso, e não acreditam em uma solução pacífica com o rei mendigo, então pensem logicamente: cada bandido morto é um homem a menos na muralha da cidade, quando os gigantes atacarem. 

Conseguira uma trégua no ímpeto justiceiro dos companheiros. Acordou um dos prisioneiros e tentou convencê-lo a pedir para que seu chefe reduzisse a dívida de Wulftheim. O primeiro não aceitou, mas o segundo, ao ver seu colega no chão, desacordado, sim. E foi embora carregando-o. Não sabia que estava sendo seguido por Gato Preto.

*****

Bruenor e Eldrin bebiam cerveja e tomavam a sopa recém feita por Wulftheim, que esfregava o chão. Bartolomeu já se livrara do corpo do líder dos rufiões, mas a marca de sangue demoraria mais do que o tempo de uma simples caminhada até um terreno baldio para ser limpa. O sacerdote não quis esperar pela sopa e foi para o quarto, ávido que estava para saber mais sobre a Antiga Icrácia. Seu tomo era a única fonte de informações possível sobre os estranhos acontecimentos do último mês, já que Wurren e Duncan levaram os outros dois livros consigo.

A leitura era lenta, mesmo recorrendo ao auxílio mágico. Melza usava metáforas em excesso, símbolos no lugar de determinadas palavras ou ideias. Bartolomeu fazia muitas pausas na leitura. Até que, em uma delas, reparou que algo como uma fumaça subia em frente a sua janela. Apagou a vela e levantou-se para ver do que se tratava, mas não teve tempo: a névoa invadiu seu quarto e tomou uma forma vaga, como um espectro. Apenas os cabelos esvoaçantes estavam bem delineados, mas o resto era amorfo. Bartolomeu segurou forte no pingente de caveira vermelha em seu peito, mas conteve o ímpeto de expulsar a criatura dali. Antes, perguntou a que veio, mas foi ignorado. O espectro passou pela fresta da porta e foi seguido pelo sacerdote de Wee Jas.

Bartolomeu desceu as escadas com pressa. Eldrin e Bruenor estavam bebendo devagar, digerindo a refeição leve. O estalajadeiro ainda limpava o chão, abaixando-se para pegar algo preso entre as tábuas do chão.

-Ahhh, não. Maldição! Estou perdido, perdido! Por que fazes isso comigo, Ralishaz? Já não sofri demais? Olhem, olhem esse broche: olhem essa safira. Esse homem que aqui morreu deve ser parente ou amigo próximo do próprio Rei dos Mendigos, Ochtan! Ele vai derrubar minha estalagem, que é a única coisa que me resta! Ai ai ai aiiii, não, estou perdido. -Wulftheim se ajoelha, leva a mão ao peito e se lamenta, inconsolável. 

Bartolomeu parece ser o único capaz de ver o espectro. Ele presencia o momento em que ele paira acima do estalajadeiro: é justamente nessa hora que ele se abaixa para pegar o broche. E durante todo o lamento de Wulftheim, a névoa o envolve em um abraço maligno, seus cabelos esvoaçantes cobrindo cada vez mais o salão.

- Vá embora, criatura! Afaste-se daqui! -disse Bartolomeu com voz imponente.

Um peso que ninguém tinha reparado se alojar no salão, de súbito desapareceu. O coração de todos parecia mais leve. Bruenor se levantou, buscando o cabo do machado, mas Bartolomeu os acalmou:

-Já se foi. E você, Wulftheim, receio que tenha mais a contar da sua história, algo que justifique um espectro visitá-lo à noite e alimentar seu desespero.
-Um espectro, você diz? Um fantasma? Você viu alguma coisa?
- Sim. Talvez de uma mulher, pois parecia ter cabelos compridos. Mas não posso ter certeza.
- Sa-sa-Sadri? Será possível? -os olhos do estalajadeiro se enchem de lágrimas.
- Quem é Sadri?

Wulftheim esfrega as palmas nas costas das mãos com nervosismo. Pega um lenço para enxugar o suor. Senta-se pesadamente na cadeira, que range. Seus olhos vasculham o chão, e sobem até encontrar o olhar dos aventureiros. Bartolomeu o olha com dureza. Aguarda respostas. 

-Amanhã, senhores. Amanhã contarei toda a história. Mas, agora, preciso descansar. 

O estalajadeiro vai até próximo a lareira e senta-se em meio às almofadas espalhadas em cima de um tapete, murmurando algo. É uma arrumação peculiar. Se fosse hoje em dia, chamaríamos as almofadas de futons, e a disposição demonstraria bom gosto. Para a época, porém, parece exótico, diferente. Seja como for, terá dormido antes que Bartolomeu termine sua sopa, antes que Gato Preto apareça pela porta da frente, de volta de sua incursão. Serve-se da sopa já morna e contar para os companheiros que descobriu uma das entradas para o covil dos mendigos. Além disso, sabe que eles pretendem voltar para acertar as contas com Bartolomeu e Wulftheim, mas sem que seu chefe saiba, ou seja: não vão levar a ele os pedidos de renegociar a dívida. Temem mais seu rei que o padre.

Não conseguiram completar nem uma noite na vila e já tinham um taverneiro com um encosto e uma desavença com o submundo. Bartolomeu levanta seu copo de vinho e brinda, sorrindo por não estar mais na pasmacenta Ravina Verdejante, e sim numa vila cheia de perigos, mistérios e descobertas.

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