Estrada para os Montes Resolutos - 3º Ato

Finalmente os aventureiros conseguiram tomar um BANHO! Sim, ao contrário do que muito se diz, higiene pessoal existia na idade média. Muitos também acreditavam nas suas propriedades medicinais. E como na imagem acima, era comum que as banheiras (ou tinas) de madeira fossem recobertas por uma espécie de tenda. (Imagem: Pinterest)


Texto do Sacripanta e do MestreCavernoso

A estalagem do Brasão do Furão Sarnento não dispõe de uma casa de banhos luxuosa como a Adega do Walthon, com sauna e piscinas de pedra; antes, o que espera os aventureiros é uma tina circular de madeira antiga presa por aros grossos de ferro rebitados. A cera quase reluzia, os veios das tábuas eram nítidos. Parecia nunca ter sido usada. Uma barra de sabão feita de gordura de cabra e cinzas vegetais, com cheiro amadeirado, foi oferecida também. Uma oferta incomum, ainda mais se considerando o preço da estada no local.


O quarto de Bartolomeu era amplo e confortável, e havia uma sala de banhos para cada três quartos. Isso é algo impensável, é uma taverna que tem quase metade da capacidade que poderia ter. Uma estalagem de luxo, e sua estada ali estava custando o mesmo que o pernoite em uma choupana pulguenta. Havia algo estranho naquele lugar.

Talvez a história do estalajadeiro faça sentido. Maldições não são incomuns, em especial quando uma grande injúria foi feita, mas sempre são vinganças em que um grande mal se abate sobre o amaldiçoado ou sua família. Barcos que naufragam. Caravana que misteriosamente some. Assassinato do herdeiro. Taverna que se incendeia. Artesão que perde a mão. Mas, uma vingança que se estende por anos a fio, que enseja a decrepitude, é metódica demais para algo que nasce da brutalidade, da injustiça. Bartolomeu balançava os pés para fora da tina, enquanto pensava. A posição era incômoda, mas a água morna era bem vinda. Deve haver uma explicação para isso tudo. 

Saiu da tina e foi para seu quarto para, finalmente, estudar os dois tomos que carregava há tempos: o Diário da Maga Melza e o Livro de Ugrasha.

Os livros eram antigos, mas estavam bem conservados. Pareciam conter conhecimentos valiosos, em especial o tomo achado em Icrácia. Leria seu conteúdo e, se julgasse pertinente, doaria para uma igreja de Wee Jas, pois parecia haver uma boa quantidade de material mágico ali. Onde encontrarei um templo da minha deusa? Serão tão raros assim? Talvez Lydia acolha este material, caso seja mais fácil encontrar sua casa. Mas, dependendo do que sua leitura revelasse, seria melhor dar um fim ao livro. Já havia coisas espúrias demais do antigo reino, preservadas com zelo pelos druidas da Antiga Fé; Bartolomeu não queria incorrer no mesmo erro.

Escrito em linguagem suelita (um idioma do qual o keolandês derivou), é muito difícil compreender todas as informações que ali estão. Além disso, há fórmulas mágicas escritas com runas e símbolos que o astrólogo desconhece e diagramas e desenhos esquemáticos macabros. Ao que tudo indica, Melza não era uma flanense, então como se tornou uma das principais magas da Icrácia? Afinal, aquela era uma das principais cidades do Império Oculto de Vecna, segundo as recentes descobertas feitas pelos aventureiros na tortura de Bellak. Em tais escritos, a maga fala sobre sua vida dentro do império. Há muitos aspectos mundanos narrados ali, os quais são, a princípio, desinteressantes, mas naquilo que realmente importa, ela descreve as tensões crescentes entre O Sussurrado e a Corte Keolandesa nos primórdios de Flanaess. Em determinado momento, entretanto, parece que Melza não regozijava as sucessivas vitórias do Império Oculto, mas se ressentia delas, pois ela fala do Império sobre o Vale Sheldomar com orgulho e saudade.

“Durante os primeiros dias do reinado d’O Sussurrado, uma confederação de tribos flan denominada Mara governava o pequeno “reino” de Burgred. Mesmo antes d’O Sussurrado transcender os limites da mortalidade e reunir um exército que poderia estabelecer seu domínio sobre o Vale Sheldomar e além, os Maranos testemunharam o aumento gradual das atividades bélicas nos grandes pantanais ao sul.

A verdade é que, para desgraça do meu povo, O Sussurrado foi ungido Alto Rei de Sheldomar por ninguém menos do que os líderes espirituais da Antiga Fé, que ressentiam o encruamento de grandes grupos de pastores e colonizadores Raonitas vindo dos Vale Velverdyva. Os governantes Maranos inicialmente escolheram manter uma postura neutra em relação ao seu vizinho sulista.

Entretanto, conforme a escuridão aumentava sobre o Vale Sheldomar, o Rei Welnarek IV decidiu fazer um pacto com seu inimigo mais poderoso, que assegurou ao Rei o poder de construir fortalezas ao longo de toda a borda sul e oeste dos planaltos da Ddraigasa, contanto que renunciassem seus laços com a Antiga Fé e se convertessem à adoração de Ashardalon, o Grande Wyrm.”

Já o livro que Bartolomeu pegou no laboratório de Ugrasha continha inúmeras fórmulas para venenos. A maldita devia ser de fato uma cria de Incábulus, pois não se dava ao trabalho de anotar os antídotos. Havia muitas anotações sobre como coletar os melhores materiais e que tipos de complementos poderiam potencializar ou retardar os efeitos. Era uma espécie de manual de venenos. Talvez pudesse se mostrar útil.

Satisfeito com suas descobertas, aproveitou que a noite já ia caindo para se juntar aos demais, no salão da estalagem. Desceu as escadas, mas não encontrou ninguém ali.

*****

A boa e velha taverna. Era comum que fossem porões antigos, pouco iluminados e repletos de barris. Curiosamente, nos mundos de fantasia medieval, costumam ser casas ou sobrados iluminados, sempre alegres e repletos de oportunidades de novas aventuras.

Eldrin, Bruenor e Gato Preto lavaram-se com rapidez, cada um em sua própria tina: eram os únicos hóspedes da estalagem de doze quartos. Alguns deles tinham três camas mas outros, apenas uma. Ao todo, o Furão Sarnento poderia ter mais de 30 hóspedes, mas contava no momento com apenas quatro.

A hora já está avançada, e resta apenas um dedo de vela para que Bartolomeu conclua a leitura dos tomos. Ele, entretanto, decide fazer uma breve pausa para pensar sobre as histórias que Melza contou naquele diário, pensando o que mais o Livro das Horas de Rilikandren poderia revelar, isso sem falar no tomo reptiliano que Ânn carregava consigo e que, agora, estava também nas mãos de Duncan e Wurren. Finalmente, estando com a cabeça cheia de questionamentos, o astrólogo decidiu descer para o salão principal da estalagem para conversar com os colegas. Porém, encontrou o salão vazio. Nem mesmo o estalajadeiro estava por lá.  Aposto que acharam melhor beber em um lugar mais animado, como a Vista Ribeirinha...

De fato, mesmo à tarde aquela animada taverna já estava cheia e para lá rumaram Eldrin, Bruenor e Gato Preto.

Após tanto tempo lidando com goblins, orcs e criaturas ainda mais vis, o grupo parecia enferrujado para tratar com gente. Acostumados com hostilidade e ameaça nos subterrâneos e por trás das colinas, era difícil manter a civilidade em meio a um lugar apinhado, cheio de rufiões, bêbados, mercenários e homens com mais cicatrizes do que anos de vida.

Logo quando foi pegar a primeira cerveja, Eldrin se desentendeu com um dos clientes: um humano atarracado tentou tirar um sarro com o meio-elfo, que respondeu no mesmo tom, sugerindo que ele enfiasse o caneco em um lugar não muito pudico e, antes que o homem pudesse fazer menção de atacá-lo, fez seus próprios olhos brilharem como chamas. O truque teve o efeito desejado, assustando o agressor, que se afastou assustado e quase caiu entre seus companheiros, que riam com a cena do rufião sendo rechaçado por um magrelo.

Após um tempo, Gato Preto deixou os amigos, alegando ter que "cuidar de uns assuntos". Eldrin e  Bruenor permaneceram no balcão, em meio à balbúrdia, bebendo, conversandoavaliando as "damas" disponíveis e observando os tipos da cidade. Não se demoraram muito, porém, pois só queriam se divertir um pouco e respirar os ares da cidade.

*****

Gato Preto avaliou que a bolsa de moedas do rufião era bem pobre, cheia de peças de cobre. De qualquer forma, valera a pena, já que não teve trabalho nenhum para obtê-la. Aproveitou-se da distração entre ele e Eldrin para apenas estender os braços e pegá-la. Aquela sacolinha de couro puído era um começo auspicioso para a noite, para quem tinha planos bem mais ambiciosos.

Caminhou a esmo entre as ruas da cidade, atento aos arredores. Por três vezes passou em frente a uma construção grande, quadrada, que dominaria a quadra inteira se fosse possível divisar quadra na distribuição orgânica, tumultuada, das ruas da vila de Hochoch. Gato Preto esteve ali à tarde, nas saunas e salas de banho: é a Adega do Walthon, uma estalagem que acomoda os ricos, alimenta os que sabem apreciar uma boa comida e sacia a sede dos enólogos locais. Há, inclusive, salas privadas, destinadas a reuniões sigilosas de convidados abastados. 

Andando calmamente pela rua, Gato Preto deu um salto e escalou pela hera grossa que cobria as paredes, até alcançar a janela do andar superior. Havia uma pequena fresta desleixada nela, motivo de sua escalada. Entrou para o aposento e deixou a janela do jeito que a encontrou. Embaixo, um guarda passou, sem desconfiar da invasão.

Gato Preto explorou corredores e quartos de diferentes andares, valendo-se de sagacidade, técnica e sorte. Usava as janelas como rotas, as sombras como aliadas e o silêncio como arma. Deixou dois guardas desacordados enquanto vasculhava bens em quartos de hóspedes ricos. Há muitos guardas fazendo rondas por ali. Um deles segue pelo corredor sul. Ele para próximo ao final e espia por uma das seteiras que deve dar para o pátio de entrada da estalagem. Então, se vira com o olhar voltado para a porta que está à sua direita, gira a maçaneta e a abre, entrando em seguida, quando, então, Gato Preto consegue ouvi-lo conversar com outra pessoa que estava dentro do cômodo:

- Alguma notícia?

- Não me amole, rapaz! Não vê que estou ocupado?

- É que eles estão demorando muito. Os alguns clientes estão estranhando. Isso não pode ser bom para os negócios...

- Escute, Munahd, você é muito intrometido. Os negócios pertencem ao Waltham, não a você, se a ausência dele é boa ou ruim, isso não é da sua conta.

Gato Preto se aproxima e consegue ver de soslaio que o guarda está conversando com um senhor que está sentado em uma mesa redonda, examinando alguns papéis enquanto toma uma bebida em uma taça de prata adornada com rubis e esmeraldas.

- Eu sei disso. Mas me preocupo, especialmente porque não confio naqueles caras – respondeu o guarda. Gato Preto vê que o senhor se levantou irritado.

- Que caras? Não faça nenhuma tolice, rapaz, se não você sabe muito bem que destino te espera. Resuma-se ao seu trabalho, que por sinal você não está fazendo, ao gastar seu tempo comigo aqui. Não há nada para vigiar aqui. Vá-se embora e me deixe em paz!

O guarda, então, sai de fininho da sala (forçando o Gato Preto a retroagir para as sombras) e retoma sua caminhada pelos corredores da taverna. Definitivamente, há algo de estranho nos frequentadores daquela Adega e Gato Preto estava decidido a descobrir o quê. Porém, havia muitos guardas naquela noite. Muitos! E logo perceberiam a intrusão.

Gato Preto, então, saiu da estalagem como se nada tivesse acontecido, pulando de uma janela do segundo andar e andando pelas ruas escuras, de volta ao encontro de seus companheiros.

*****

Enquanto Gato Preto cuidava de seus assuntos, Eldrin e Bruenor voltavam da taverna. Tinham a língua solta, mas não se podia afirmar que estivessem bêbados. Andavam despreocupados, até que logo encontraram, encostado a uma parede numa esquina escura próxima, o mesmo homem atarracado que criou confusão na taverna. 

Ora, ora. Os valentões apareceramfalou o homem com uma voz meio fanha - É fácil estar em grupo e ridicularizar alguém dentro de uma taverna, não é mesmo? E ainda por cima me roubar! Acharam que iam sair na boa, foi? Esvaziem seus bolsos e vão sair daqui só com um pé na bunda. Se não.... - e tirou a adaga de seu cinto e a lambeu. Parecia achar que estava intimidando fazendo isso, mas Eldrin e Bruenor já viram coisa muito pior.

- Você está falando merda, pra variar. Saia do nosso caminho e te pouparei de cortar sua cabeça ao meio com meu machado - Bruenor não pareceu desanimado caso o sujeito escolhesse a segunda opção.

- Você é um palmo mais baixo do que deveria para eu cortar sua garganta, anão. Vou me contentar em furar seus olhos antes.

- Pense na besteira que está fazendo. Não temos interesse em brigar aqui. Siga seu caminho que seguiremos o nosso - Eldrin tentou ser conciliador, mas o homem estava decidido a não sair dali sem seu ouro. Ou, ao menos, algum ouro.

A luta foi rápida, e a despeito de os aventureiros estarem cercados e em menor número, eles eram muito mais experientes e atacavam sem piedade. Um a um os rufiões caíram pela força do machado ou da magia. Eldrin fez o homem de voz fanha se borrar de medo, criando a ilusão de um demônio a persegui-lo. Bruenor fez todos temerem por suas vidas após degolar com uma rapidez extraordinária o primeiro que se atreveu a avançar sobre ele. A luta nem começou e já tinha terminado. Só os que fugiram a tempo sobreviveram. 

Continuaram caminhando para a estalagem como se nada tivesse acontecido. Chegando na esquina, viram um homem de adaga na mão correndo transtornado na direção deles, olhando para trás repetidamente. Bartolomeu surgiu da porta da estalagem e gritou:

- Peguem-no vivo!

Eldrin girou seu cajado com destreza e acertou o fugitivo na têmpora, fazendo com que desmaiasse.

*****

Entraram na estalagem. Lá havia um prisioneiro amarrado a uma cadeira. No chão, um cadáver. Wulftheim estava deitado sobre uma mesa, com Bartolomeu fazendo um curativo em um corte profundo na barriga do ex-aventureiro. O próprio sacerdote tinha um profundo corte visível através de um rasgo em sua túnica, mas parecia não se incomodar muito com o ferimento. 

- O que aconteceu aqui, Bartolomeu?

- Amarrem esse daí ao lado do colega dele, por favor - disse o astrólogo sem tirar os olhos de sua tarefa - Estava aqui bebendo com o nobre Wulftheim, quando de repente três rufiões entraram, exigindo dele uma taxa. Eles são parte de uma espécie de milícia local, liderada pelo "rei dos mendigos", e parecem orgulhosos da vassalagem. Eu não ia me intrometer, mas vi que eles estavam dispostos a matar o taverneiro, então tive que defendê-lo. O chefe deles eu matei. O outro, deixei desacordado e amarrei. O terceiro, vocês pegaram.

- Estou perdido, perdido! Eles vão voltar e vão me matar! Você quis me ajudar, mas acabou piorando tudo: estou em situação pior do que estava antaaaaiiiiii - a  fala do taverneiro foi cortada por um grito de dor.

- Meu bom Wulftheim - disse Bartolomeu retirando o dedo que deliberadamente colocou na ferida aberta -, essa dor que você sente foi causada por uma punhalada que poderia ter vazado seu fígado. A lâmina errou por pouco. Quem te enfiou essa adaga aqui, enfiou para matar. E ele só não continuou te atacando porque eu te lancei uma magia de proteção. Então, meu caro, acho difícil você estar, agora, em situação pior do que estaria se estivesse morto.

O taverneiro ficou com a boca aberta, mudo, pensativo. Inclinando a cabeça, olhou para os dois prisioneiros.


Comentários